Fun Home – Uma Tragicomédia Familiar, de Alison Bechdel

Fun Home – Uma Tragicomédia Familiar, de Alison Bechdel

Altos e baixos:

– A crise a chegar como um tsunami às editoras e a varrer para o desemprego cada vez mais pessoas do mundo dos livros. Para instalar definitivamente o caos, só mesmo o (des)acordo ortográfico. E, ainda assim, o nascimento de uma nova editora que promete dar cartas: a Divina Comédia, a jogar logo um trunfo alto à primeira volta: Mudanças, do chinês Mo Yan, Nobel da Literatura em 2012.

– Valter Hugo Mãe ganhou, e muito bem, o Grande Prémio PT de Literatura com A Máquina de Fazer Espanhóis. Um escritor com toque de Midas, que consegue transformar um tema difícil como a velhice num livro maravilhoso. Mais estatuetas: prémio D. Dinis para Maria Teresa Horta (As Luzes de Leonor); Paulo Castilho arrecadou o prémio Fernando Namora com o romance Domínio Público; o multifacetado Afonso Cruz (escritor-ilustrador-músico) levou para casa o Prémio União Europeia de Literatura com A Boneca de Kokoschska e o prémio Leya foi entregue a Nuno Camarneiro pelo livro Debaixo de Algum Céu, a publicar em Março – se antes já tinha editado No Meu Peito Não Cabem Pássaros, agora é que não lhe deve caber lá nem mais um. Lá fora, o Man Booker foi para as mãos de Hilary Mantel: a tradução do tão aclamado Bring Up the Bodies deve chegar na Primavera, via Civilização. Tudo títulos e nomes a seguir de perto.

– O fenómeno livro-arma-de-arremesso: depois de 2666 de Roberto Bolaño, de Liberdade de Jonathan Franzen ou da trilogia de Stieg Larsson (já sem falar de E. L. James, noutro campeonato), a edição de A Piada Infinita, de David Foster Wallace, que vai além das mil páginas, é a prova definitiva de que os calhamaços estão na moda.

– O mundo fica mais pobre quando perde homens das letras como Gore Vidal e Manuel António Pina. Mas enquanto há Gonçalo M. Tavares há esperança.

E o meu balanço pessoal – 2012 em livros:

– Um ano é muito tempo, acontece tanta coisa. Mas, curiosamente, é sempre pouco tempo para ler. A mim só me chegou para 13 livros, o que dá uma média (fraquinha) de 1,08 por mês. E à falta de espaço para todos, destaco Fun Home – Uma Tragicomédia Familiar. É um romance em banda desenhada, com texto e desenhos de Alison Bechdel, que conseguiu a proeza de enfiar a história da sua vida em 240 páginas absolutamente geniais. Imaginem um híbrido entre Persépolis e Sete Palmos de Terra – e mais não digo.

– Ainda não foi desta que li o Guerra e Paz. Mas pelo menos descobri o Rubem Fonseca e o Philip Roth. E rumei às Correntes d’Escritas na Póvoa do Varzim. Todos os anos, em Fevereiro, é lá que se encontra a maior concentração nacional de escritores por metro quadrado (no fundo, tenho uma secreta esperança de que o talento se absorva por osmose).

– A minha gula livresca está cada vez pior: nos últimos tempos agravou-se consideravelmente. Mesmo com o orçamento caseiro em dieta forçada, na última Feira do Livro senti-me o mais voraz dos carnívoros num rodízio de picanha. Preocupa-me que a sala de espera na minha mesa-de-cabeceira comece a parecer-se cada vez mais com a do Hospital de Santa Maria. Mas antes assim: ler ainda é a única forma que conheço de viajar de graça.

Texto de Catarina Sacramento

(publicado em 10 Janeiro 2013)