YESTERDAY _ PREGUIÇA  MAGAZINE 1

Yesterday

Pedro Augusto tem um trajecto invulgar. Ganhou o Festival Termómetro Unplugged em 2006 mas não se passou nada. Tem cinco discos que nunca editou, e está já a preparar o sexto. Será que é desta? Nunca a música celestial teve um espírito tão punk!

E se um projecto musical se desse a conhecer ao mundo através de um best of? Neste caso bem podia ser, pois após cinco discos francamente bons, era uma pena não se aproveitar o que Pedro Augusto, o mentor de Yesterday, tem feito desde 1999.

A Preguiça tem um pressentimento que este 2013 lhe vai correr bem, e por isso foi falar com ele, a sua casa, ao seu sótão, onde aproveitou para gravar a segunda edição do Palco Preguiça que podem ver na página para o efeito deste mesmo site.

Ao perguntarmos o óbvio – porquê? – Pedro Augusto, com toda a calma, ainda se ri e começa por dizer que, na verdade, anda a brincar com isto tudo, na medida em que um disco tem um princípio e um fim, daí chamarem-lhe álbum. Mas na realidade o que ele faz é outra coisa; não é um produto vendável, é apenas algo que ele gravou.

Como este magazine ouviu as suas canções e gostou tanto, a Preguiça teve de fazer uma segunda investida, e perguntar novamente porquê, se nunca procurou a edição? Pedro Augusto diz que sim, e ri-se novamente. “Já procurei, mas… (risos) para mim, o processo de gravação é aquilo que me dá mais prazer. Quando começa a outra parte de mostrar as músicas, transformar aquilo num produto, e perceber como é que as vou tocar ao vivo, perco completamente a vontade. Às vezes tenho assim um bichinho que me diz para ir para a frente, mas depois eu canso-me (risos).”

Aí as coisas começam a clarificar-se melhor e, como diz o povo: não é defeito, é feitio. Há que respeitar. Indo mais a fundo no estranho mundo de Yesterday, em 2009 Pedro Augusto lança um disco (maneira de dizer) em português intitulado Eu Já Cá Estive Antes. Mais uma vez, e perdoem caros leitores se a Preguiça se torna repetitiva, mas a pergunta foi novamente… porquê? E a resposta foi outra vez surpreendente.

O Termómetro Unplugged podia ter sido uma coisa muito boa, mas para mim foi uma espécie de maldição.

“Eu nunca tinha cantado em português, porque nunca tinha encontrado os sons. Porque para mim a letra não é bem aquilo que se está a dizer: dou mais importância ao som da própria palavra, e como ela é dita na melodia. E foi nessa altura que encontrei finalmente aquilo que procurava, porque comecei a falar mais com os meus avós. Eles tinham montes de estórias que se tinham passado, e às vezes diziam frases que os avós e bisavós deles já diziam, e aquilo tudo começou a tornar-se uma espécie de melodia dentro da minha cabeça, e assim nasceu o disco em português. Mas, tal como todos os outros, terminou.”

Por coincidências cósmicas, este vosso escriba estava presente na plateia em 2006, quando Pedro Augusto ganhou, no Teatro Sá da Bandeira no Porto, o Festival Termómetro Unplugged. Na altura também participaram os Born A Lion (da Marinha Grande), que ficaram na terceira posição. A Preguiça quis saber como foi a experiência, e o motivo de não ter havido continuidade, já que por lá já passaram vencedores como os Silence 4 (de Leiria) ou os Blind Zero (do Porto).

“O Termómetro Unplugged podia ter sido uma coisa muito boa, mas para mim foi uma espécie de maldição. Foi precisamente nessa altura que me apercebi de que tinha de fazer alguma coisa com as músicas, e não estar apenas aqui no sótão a gravá-las. Mas isso assustou-me muito, e não quis ter mais nada a ver com isso.”

Pedro Augusto tem-se combatido a si próprio e, de vez em quando, sente que tem de fazer alguma coisa. Então lá manda umas demos (já não se diz demo tape, pois não?). Cada vez que o faz, corre bem, corre mesmo muito bem. Já foi selecionado para um Festival em Las Vegas, foi um dos escolhidos para participar na colectânea Novos Talentos Fnac 2012 e foi também um dos vencedores da Mostra Jovens Criadores 2012.

Não querendo ser muito místico, parece que há aqui um padrão, um certo toque de Midas: o tal que, tudo onde tocava, transformava em ouro. Assim sendo, e apesar das perguntas por parte da Preguiça – aqui me penalizo – serem fraquinhas (três porquês lá no meio, tipo criança a fazer birra), mas também quando o entrevistado é interessante a coisa flui, nada melhor do que terminar a entrevista com o supra-sumo de todos os clichés. Sim, já adivinharam: “E planos para o futuro?”

Pedro Augusto diz que não sabe. “Há sempre muita coisa nova a sair no mercado, e eu não sei como é que eles conseguem. Eu bato às portas e não acontece nada. Mas se calhar é culpa minha pois, como disse há pouco, também não me esforço muito, porque me farto. O último disco já passou. Estou agora a pensar no próximo.”

A Preguiça quer só fazer um aviso à navegação. O projecto Yesterday, de Pedro Augusto, é um dos tesouros nacionais mais bem guardados. No fim da entrevista foi gravado o vídeo para o Palco Preguiça, com a canção “September”, que faz já parte do próximo disco. Quando a escutarem, vão perceber o que este magazine quer dizer com a palavra tesouro. É um trajecto que começou no passado, merece um presente, mas sobretudo, um futuro.

Texto de Pedro Miguel
Foto de Ricardo Graça


The Movement, disco: You Are The Harvest.

Discografia:
WARning (2001)
Once Upon a Forest (2002)
Colder Hands (2004)
Eu Já Cá Estive Antes (2009)
You Are The Harvest (2011)

Veja também a secção do Palco Preguiça: http://preguicamagazine.com/palco-preguica/

(Publicado em 17 Janeiro 2013)