Leiria: sempre a rock’n’rollar

leiria on the rocks 2Leiria tem-se revelado ao longo dos anos uma cidade voltada para o rock e para a música alternativa. Foram alguns os bares que fizeram história, mas até à data não havia memória de tantos a funcionar em simultâneo.

Leiria é uma cidade de gente que gosta de borga e que tem algum orgulho nisso. De gente que gosta de música, de diversão e que procura e consome aquilo que gosta. Não há bar nenhum em Leiria onde a música esteja em segundo plano. Há uma consciência generalizada de que ela é, a par de outros factores relevantes, realmente importante para o cliente. Ela é determinante para a definição da identidade de cada espaço.

E de que gosta o cliente? Há na cidade bares e discotecas com uma oferta que passa por diversos estilos de música, mas pode dizer-se, com curta margem de erro, que há um espírito underground-rockeiro em cada leiriense.

Há algumas décadas que a chamada música alternativa - entenda-se, a que não é consumida pelas massas - tem grande peso por estas bandas e os bares reflectem essa preferência.

Passamos actualmente por uma fase a que talvez possamos chamar fenómeno. Depois de um jejum considerável com o encerramento do bar Cinema Paraíso, assumidamente alternativo, eis que agora há pelo menos cinco bares, só na zona histórica, com uma oferta voltada para estes melómanos.

As diferentes gerências dos bares de que falamos admitem que Leiria tem essa identidade alternativa e não escondem que há vontade de ir ao encontro deste público que até gosta de beber uns copos valentes, o que é bom para o negócio.

Carlos Matos, programador e DJ da oferta musical do The Club e do Beat Club diz mesmo que este “é um fenómeno cuja explicação não é fácil de aferir”, mas arrisca que poderá existir uma relação com “o facto de haver há muitos anos em Leiria lojas, bandas e festivais de características alternativas, que contribuíram para que esta fosse uma cidade muito particular”.

Para Mário Brilhante, um dos mais antigos empresários da noite leiriense, não há dúvida de que este é um público importante. Actualmente dedica as noites de sexta-feira do bar Anubis à música alternativa e o seu percurso andou sempre ligado a este ambiente musical. “Faço-o desde o início do meu trabalho na noite de Leiria, por influência do meu gosto pessoal. Considero-me parte desse público”, salienta. O Anubis começou por ser um bar de música alternativa, posteriormente tornou-se mais abrangente em termos musicais. Nessa altura, finais dos anos 90, o empresário abria o Arts Club, que foi um dos bares mais marcantes de espírito underground em Leiria.

Com sangue na guelra e atento à vida nocturna, Vasco Ferreira, jovem empresário com um bar um restaurante em funcionamento, foi o último a lançar-se também ao público deixado à deriva com o encerramento do Cinema Paraíso. Abriu um terceiro negócio, o Arko Anoid, onde a oferta musical é feita por amigos e DJs convidados. Sobre a aposta admite ser “um projecto que aparece para dar continuidade ao conceito Lobo Mau (bar do qual era sócio, com a mesma orientação musical e actualmente fechado) e preencher a vaga deixada pelo excelente trabalho desenvolvido no Cinema Paraíso”, do qual confessa ter sido fã, embora com pouca disponibilidade para frequentar.

Sábados no Beat fazem história

O Beat Club já conta com 300 sábados consecutivos de Unknown Pleasure Nights. Noites de música alternativa onde se ouve rock, folk, gothic, indie, electrónica, metal, hip-hop… Casa cheia é o costume, naquele espaço que tem recebido também muitas bandas em concerto. Quem vem de fora não poupa nos elogios. Por ali bebe-se à grande, dança-se dessincronizadamente, há mosh na pista, engolem-se shots de whisky e a coisa corre habitualmente à boa moda de um clube underground. Sim, é em Leiria!

É para quem gosta, é certo. Convém levar sapatos velhos e fazer aquecimento ao pescoço porque no Beat abana-se o capacete como se não houvesse amanhã.

Carlos Dinis, sócio do Praça Caffée, que aos sábados entrega a cabine de som a DJs convidados que passam diferentes estilos de música dentro do cenário alternativo, acredita que “o espírito rock’n’ roller vai sempre existir em Leiria” e que “basta ir ao Beat ao sábado para o constatar”. Salvaguarda, no entanto, que “como em tudo houve uma evolução, uma transformação dos estilos musicais”. “Hoje, com os meios que existem, há uma miscelânea de estilos, artistas de rock a brincar com dubstep ou com a electrónica, por exemplo. Acho que o espírito se encontra vivo e de boa saúde, mas diferente como tudo o resto.”

Isto não é só Leiria

Com toda esta oferta na cidade, este público consegue ainda dar umas escapadinhas ali ao lado a Amor, à Maceira e à Marinha Grande. Texas Bar, Alfa Bar e Ovelha Negra, respectivamente, são bares que apostam na música ao vivo, no rock e nas suas diversas variantes.

Luís Filipe acredita que “o rock’n’roll é imortal” e por isso abre as portas do Texas Bar, nos Barreiros – Amor, “à divulgação do melhor que se faz em território nacional”, fazendo um balanço positivo da actividade do bar.

Na Marinha grande, o Ovelha Negra também recebe bandas e vocaciona a sua oferta para o rock, hard rock, punk e metal. A gerência queixa-se da quebra de assiduidade do público, consequência da crise, mas considera que ainda assim vale a pena e que “o bar já começa a ser uma referência também a nível nacional”, garante.

Carlos Silva também lamenta que o público se deixe levar pelo que os media impõem, mas acredita que “haverá sempre continuidade do espírito rock”.

Texto de Paula Lagoa
Foto de Ricardo Graça

(Publicado em 31 Janeiro 2013)

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