Lembram-se dos tempos em que ter uma bicicleta era um luxo? E que para aprender a andar numa só alugando? Nós também não, mas António Pereira lembra-se como se fosse ontem. Ele próprio deu as primeiras pedaladas em bicicletas alugadas e depois fez disso negócio.
Há 60 anos montou uma oficina no centro histórico de Leiria, onde vendia também motorizadas e é lá que ainda passa os seus dias, mas agora longe da azáfama de outros tempos.
Por ali o tempo parece ter parado e ao entrar somos como que teletransportados para outra dimensão. Consegue-se viajar no tempo, quer por sugestão do próprio cenário, composto por sucata amontoada e ferramentas há muito em descanso, quer pelas histórias dos tempos áureos de trabalho que o senhor António não esquece.
Do alto dos seus quase 80 anos e com uma juventude invejável contou à Preguiça que aquela casa foi também durante muitos anos um stand de vendas de motorizadas da marca Casal. E ainda por lá há alguns exemplares que “por não terem documentos não se conseguem vender”, explica o proprietário. Chegou a fazer stock de 50 motas e “trabalhava-se dia e noite”.
Confessa-nos que sempre teve uma grande paixão por motas velhas. Curiosamente nunca foi de fazer colecção ou de ganhar apego às máquinas. Mora ao pé do castelo e todos os dias se desloca à oficina, na Rua Direita, numa relíquia de 1985, marca Casal, de duas velocidades, mas não lhe atribui grande valor.
Lamenta que as bicicletas tenham perdido a pedalada de outros tempos, assim como lamenta que os jovens já não usem motorizadas. “Agora têm todos carro aos 18 anos e os velhos que davam valor às motas foram morrendo.”
A clientela é rara e já só se fazem pequenas reparações. “Aparecem para desempenar umas rodas, arranjar travões ou comprar câmaras-de-ar e pouco mais”, confessa com alguma pena. Mas quando lhe perguntamos até quando terá as portas abertas responde prontamente: “Enquanto houver saúde.”
O local de trabalho transformou-se no local de lazer. “Já aqui trabalhei muito, agora venho para descansar. Mesmo quando não há serviço arranjo sempre com que me entreter.” E acrescenta: “Se eu sair daqui, deixo de ver as pessoas. Quando precisam de mim sabem que é aqui que me encontram e não é preciso telefones.”
“Os jovens acham muita piada a isto e sobretudo os estrangeiros, gostam de espreitar e pedem para entrar. Tiram fotografias e vão-se embora. Não sei que graça vêem nisto mas eu deixo entrar toda a gente.”
Nota: se passar pelas 18 horas e a porta estiver fechada é porque é hora de petisco com os amigos. Dê um saltinho ao Porto Artur, que lá encontra o senhor António.
Texto de Paula Lagoa
Foto de Ricardo Graça
Vídeo de Bruno Santos
(Publicado em 7 Fevereiro 2013)
Adorei!
Speechless… Adorei tanto o texto como o vídeo! Toda esta reportagem alimenta o “saudosismo” inerente à nossa cultura!
preciosidades da minha cidade. bom trabalho, aos 3
é por isto que eu vos leio todos os dias! excelente trabalho! abraço aos 3!
Adorei!!! Parabéns pelo excelente trabalho… Ainda gostei mais por se tratar do meu avô… (deu para ficar com a lagrima no olho)