Timor Leste

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A Preguiça tem amigos em todo o mundo. Joana Oliveira e Nuno Pedrosa estão a fazer uma viagem de uma vida, da Nova Zelândia a Portugal em bicicleta.  Como se de um manual de instruções para vidas bestiais se tratasse, este magazine recebeu na volta do correio este postal ilustrado. Tinha carimbo do Camboja.

Porquê? Porque é que se escolhe viajar como forma de vida? Existem muitas respostas e razões possíveis e, no entanto, todas somadas não explicam o todo. E é bom assim, porque as coisas que vêm de dentro não se explicam. Sonham-se, concretizam-se e depois sente-se que fazem apenas sentido, como se a própria vida assentisse: Vês? Seguiste o teu sonho, saboreia lá a tua parte da felicidade.

Mas insistamos no exercício do porquê. Nasci rodeada de livros. Livros que a minha mãe comprava quando sobrava dinheiro ao fim do mês, ou que nos ofereciam (a mim e ao meu irmão) nos aniversários ou no Natal, mais todos os outros livros que havia lá por casa pelas prateleiras. Por causa deles, dos livros, cresci com a cabeça cheia de imagens e estórias de outras terras, e essas foram as minhas primeiras viagens, aquelas que plantaram a semente.

Depois houve também as férias no campismo de São Pedro de Moel, da Figueira da Foz, de Lagos, de Sesimbra, de Idanha-a-Nova, e outros tantos em parte incerta, meio selvagem, e estes sempre com o meu pai. E vieram as colónias de férias, os escuteiros, os intercâmbios, as viagens curtas à Europa e, no final do curso de Turismo, a ida para Inglaterra. Aos 23 anos, as férias já não saciavam a minha sede de mundo e Leiria, depois de lá ter vivido aquele tempo, parecia-me uma casa de quatro paredes com janelas pequeninas.

Quando saí, foi como se me tivessem nascido umas asas, como se o vidro da redoma em que vivia se tivesse quebrado, como se não houvesse impossíveis e as vozes do agouro falassem longe demais para serem ouvidas.

Salar de Uyni, Bolívia: a maior planície salgada do mundo

Salar de Uyni, Bolívia: a maior planície salgada do mundo

Uma aventura de dois ciclonautas em quatro rodas

Londres afastou-me fisicamente da família e de alguns amigos, mas aproximou-me do mundo e da coexistência com gente de todas as partes. Aproximou-me também do Nuno, que – por ironia dos encontros e desencontros da vida – também era de Leiria. Conheci-o no primeiro dia que ali cheguei, poucos dias após o seu regresso de uma viagem de seis meses de mota na Índia. Nessa altura, tinha já palmilhado muita terra e regressava, não cansado, mas com sonhos para a próxima – a de atravessar o continente americano de norte a sul em bicicleta.

A Pan-americana de bicicleta aconteceu passados quase cinco anos de gestação. Para o Nuno foram 42 mil quilómetros pedalados. Para nós foram 7000 quilómetros que nos uniram e nos tornaram companheiros, permitindo-nos partilhar um ano na estrada – quantas vezes sem estrada, se formos exactos, e sonhar a próxima. A melhor forma de terminar uma viagem é ter outra na manga. E a viagem actual surgiu com a ideia de chegar aos antípodas de Portugal, ao ponto diametralmente oposto – a Nova Zelândia –, em bicicleta. Estamos agora no Camboja, depois de um ano e um mês na estrada. Quatro anos após o nosso regresso das Américas. É engraçado pensar no tempo que passou desde que a ideia nasceu até à altura em que se concretizou, mas esta é a matemática dos sonhos.

É fácil encontrar pretextos para passar a vida a viajar, mas nós percebemos sobretudo que o mundo laboral não nos preenchia, que a vida não podia ser só aquilo: acordar, tomar banho, passar uma hora dentro de um autocarro ou de um comboio para chegar ao trabalho, trabalhar grande parte do dia, depois regressar a casa cansado, comer, dormir. No dia seguinte, voltar a fazer tudo outra vez, como se a vida fosse um disco riscado sempre a tocar a mesma música. A viver com uma sede insaciável de fim-de-semana, de férias, de tempo para se fazer aquilo de que realmente se gosta. Decidimos inverter a ordem das coisas e, em vez de viver para trabalhar, passámos a trabalhar para viver, que é o mesmo que dizer: trabalhar para juntar dinheiro e viajar. Deixar que cada dia seja diferente e imprevisível, não por acaso, mas porque conscientemente queremos expor-nos a essa imprevisibilidade, à surpresa que é a vida.

Andes, Norte do Peru

Andes, Norte do Peru

Liberdade ou preguiça?

E não será preguiça? Preguiça de viver uma vida convencional. Sim, isso admitimos, temos muita. E chamem-lhe o que quiserem. Embora gerir o tempo a nosso bel-prazer, não estando enclausurados pelo gradeamento dos calendários e dos relógios, ficar num sítio por mais tempo do que o planeado porque gostamos dele, porque fizemos novos amigos, e deixar outros porque já não nos preenchem, ou porque há muitos outros mais para ir, seja uma das maiores sensações de liberdade que podem existir. E viajar de bicicleta, tendo mais de 40 mil quilómetros de distância entre o ponto de partida e o ponto de chegada, e com fundos limitados, não nos permite muitos devaneios ociosos. Mas eles vão ocorrendo, e a liberdade de poder usufruir deles sem sentimento de culpa é indescritível.

O mundo é fascinante quando experienciado na primeira pessoa. Muito mais rico, muito mais diverso, muito mais complexo do que aquele que nos é dado a ver na bidimensionalidade das descrições dos outros, do que vem nos jornais, nas revistas, nos livros, nos documentários, nos filmes. Mas o mais curioso é o processo de mudança pessoal que se verifica quase automaticamente assim que se põe o pé na estrada. Os sentidos despertam porque algo no nosso cérebro reconhece que não estamos no nosso ambiente familiar. Ao estarmos expostos ficamos estranhamente mais receptivos. A vida simplifica-se porque passa a ser feita de escolhas simples como onde acampar, o que comer, quantos quilómetros pedalar, qual a melhor estrada, ficar mais um dia ou não, aprender palavras novas. Existe também um reaproximar com a Natureza e com a Humanidade. O deixar de ignorar o que nos rodeia. E a filosofia e o pensamento são-te dados numa bandeja.

Nova Zelândia

Nova Zelândia

Descobrir mundos lá fora e cá dentro

Quem passa muito tempo em cima de uma bicicleta tem tempo de sobra para pensar, sonhar, organizar, desorganizar, construir e desconstruir ideias e certezas. Tem tempo para a auto-análise. E volta-se a sentir que existe tempo. Que os dias não são grandes nem pequenos, são do tamanho certo. E quando se ultrapassam desafios – uns previstos, outros nem tanto, mas que ocorrem quase ao ritmo dos dias –, descobrem-se outros eus que não conhecíamos. Eus mais seguros, mais conscientes, mais fortes, mas também mais simples e mais flexíveis. E valoriza-se de uma forma quase poética as coisas simples e óbvias da vida, como um duche de água quente, quando lá fora chove e faz frio. Ou uma cama, quando se passam semanas a dormir dentro de uma tenda. Ou o sabor do pão, quando se come arroz dia após dia.

Passo o exercício ao Nuno e pergunto-lhe: porquê? A sua resposta é simples e desarmante: Que não faz ideia, que tão pouco se debate muito sobre o assunto. Faz-se uma viagem, depois faz-se outra e, quando se dá por ela, não apetece fazer outra coisa.

Tudo isso não podia ser mais verdadeiro. Mas viajar também é regressar. Ainda falta cerca de ano e meio, mais coisa menos coisa, para esse momento, mas imagino a emoção que será quando chegarmos de bicicleta, depois destes anos todos sem ver a família, os amigos, e o castelo de Leiria se assomar da sua fraga no meio da cidade. Isso significa, como sempre significou, que regressámos. Que as coisas estarão como sempre foram, mesmo com todas as mudanças. Que a casa de quatro paredes com janelas pequeninas já não existe porque essa casa, afinal, era eu. E a cidade ali estará como o porto seguro, a parte certa, como a certeza de que pelo menos por algum tempo, não vai ser necessário ir a lado nenhum.

Texto de Joana Oliveira
Fotos de Nuno Pedrosa
Camboja, Fevereiro de 2013.

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(Publicado a 7 Fevereiro 2013)