leiria vs marrazes 2Frente-a-frente, Leiria e Marrazes contra União de Leiria. Duas equipas de jogadores fenomenais? Nem por isso. Uma competição importantíssima? Nem pensar. Quando na cidade mais de duas mil pessoas decidem ir assistir a um espectáculo sem a presença de nenhuma estrela holliwoodesca, seja da área da cultura ou do desporto, estamos perante uma boa notícia. O derby leiriense fez mover multidões. E porquê?

Texto de Miguel Sampaio
Fotografia de Ricardo Graça

Um, dois, três, cinco, dez, cem, mil, dois mil e quinhentos. Sábado, a lenta entrada dos adeptos no jogo da segunda eliminatória da Taça Distrital não fazia prever nada assim. Ao contrário do que muitos profetizavam, o povo aderiu a um evento pago. É verdade que era a partida entre a União de Leiria e o Marrazes, a três décadas e meia de distância da última encenação, mas este é um clássico cuja história não tem mais de uma dezena de episódios.

Reportagem à volta do jogo por António Cova

Depois de duas décadas de futebol ao mais alto nível, a União de Leiria teve de passar a suprema das vergonhas no final da temporada passada. Começar um jogo com oito atletas não foi mais do que a gota que fez transbordar o copo. Fartos de humilhações, os dirigentes do clube resolveram quebrar com o passado e avançar com um onze paralelo. Se João Bartolomeu queria continuar com a equipa da sociedade anónima desportiva, isso era lá com ele; eles também queriam ter um onze. Para a missão de liderar esse plantel escolheram Luís Bilro, o homem com mais jogos na 1.ª Liga com a camisola branca da União.

No clube, a história ia ser outra. Começaram do zero, na última das divisões, com o objectivo de chegar rapidamente a patamares superiores e, mais importante, voltar a contar com o apoio dos cidadãos de Leiria. Sábado ficou provado: os adeptos do Marrazes estão sempre com os homens que vestem de negro; os apoiantes da União de Leiria voltaram a estar com os jogadores que equipam de branco. Vitórias em todos os jogos também é forte atractivo…

Às 15 horas de sábado, quando o árbitro deu o apito inicial, estavam na bancada imensos dos adeptos do antigamente, como já tinham estado na taberna Lagoa muitos que há anos e anos não andavam por aquelas paragens. E como um copinho de tinto sabe tão bem a acompanhar a isca e a saladinha de polvo…
No estádio, a Frente Leiria entoava, ao som da música dos Da Vinci, o cântico feito propositadamente para o jogo com o Marrazes:

“Já fui à UEFA
já fui ao Jamor
1.ª Divisão
e vocês não!
Ficaram em casa
a ver-nos na televisão!”

Uma pequena provocação feita pelos madurões membros da claque da União de Leiria. Na bancada impressionava a moldura humana que enchia totalmente a bancada central, algo que não acontecia há anos, exceptuando jogos da Selecção e as visitas do Benfica. Os adeptos mostravam sede de futebol e não só, pois os stocks de cerveja foram bebidos até à última gota.

O jogo foi limpo. Os jogadores deram tudo. Os treinadores procuraram as melhores tácticas. O árbitro ajuizou sempre bem. O público mostrou total respeito como, de resto, parece haver entre os responsáveis pelo emblema. A festa foi inesquecícel. Ah! E a União de Leiria ganhou por 4-0. Como diz a Frente Leiria, “a União voltou”.

(Publicado em 14 Fevereiro 2013)