mulher num tunel

A Preguiça queria uma secção de ficção com textos originais, e convidou o escritor Paulo Kellerman para coordenar a empreitada. Publicamos hoje o primeiro capítulo. Trata-se de uma colaboração entre diversos escritores, em fascículos semanais, a fazer lembrar os velhos folhetins que eram publicados nos jornais. Pretende-se, basicamente, contar uma estória a várias vozes. O ponto de partida é a fotografia aqui apresentada.

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL: UM FOLHETIM

Capítulo I – Oh carago

Texto de Paulo Kellerman

Maria Adelaide sente-se nervosa quando entra no apartamento. É o dia dos namorados e receia que o marido lhe tenha preparado alguma surpresa idiota; está cansada e deseja tranquilidade, apenas tranquilidade; não lhe apetecem massagens mal feitas aprendidas à pressa na internet ou jantares à luz de velas com cheiro exótico. Está tudo muito silencioso, o que é mau sinal; mas faz-se forte e atira-se para sofá, pronta a enfrentar o seu destino; vai esperando, enquanto pensa: que bem que se está sozinha.

É então que toca o telemóvel. Número desconhecido. Maria Adelaide pensa: oh carago. Mas atende.

Terça-feira o marido acordara com uma dor de cabeça; tomou o primeiro remédio que apanhou à mão, que por acaso era daqueles comprimidos que ela usa para as dores do período e de que ele gosta porque parecem pintarolas. A dor passou, mas no dia seguinte Jorge voltou a acordar com dores de cabeça; suspirou e tomou outra pintarola. Quando voltara a acontecer o mesmo nessa manhã, ela aconselhou-o a ir ao médico; não estava assim muito preocupada com as dores de cabeça dele (deviam ser causadas pela fadiga ou algo do género; ou se calhar andava a pensar demasiado em planos e surpresas e a porra) mas parecera-lhe que uma ida ao médico talvez lhe refreasse os entusiasmos para o dia dos namorados. Ele concordara e despediram-se com um beijo rápido, daqueles que significam menos do que um aperto de mão.

Maria Adelaide não voltara a pensar no assunto até ao momento em que o telemóvel toca. Uma senhora, apressada e com voz estridente, diz que fala do hospital e que o senhor Jorge tinha acabado de falecer, lamenta imenso mas não há nada a fazer; depois de lamentar, respira fundo e acrescenta que há papelada a tratar, se fazia o favor de passar por lá. Maria Adelaide não responde porque está a pensar que aquela é a surpresa mais absurda que o marido alguma vez se lembrara de lhe preparar. Depois, a mulher lá do outro lado volta a lamentar, diz “boa tarde” e depois “boa continuação”.

Senta-se no sofá sem saber o que pensar. Pergunta-se porque não está a chorar, pergunta-se se conhece alguma viúva a quem poderá pedir indicações (indicações para quê?), pergunta-se como se tratará de um funeral, pergunta-se porque dizem as pessoas “boa continuação”, pergunta-se qual terá sido a última coisa que disse ao Jorge. Doem-lhe as costas, sente-se cansada. Sempre detestou o dia dos namorados. Continua a desejar tranquilidade, apenas tranquilidade. Sente de novo aquela sensação estranha e desagradável que a tem acompanhado nos últimos tempos: a imagem de si própria a caminhar num túnel escuro e apertado, um túnel em que parece haver luz ao fundo, mas uma luz que ela nunca consegue alcançar, por mais que se esforce.

Anoitece lentamente e todo o prédio está sossegado, como se não houvesse pressa ou confusão ou solidão ou dor no mundo. O crepúsculo é acolhedor, faz companhia. Maria Adelaide sente subitamente a presença do cheiro de Jorge, entranhado no sofá (ou entranhado nela?); toma consciência dele (do cheiro, da presença) e sente-se sobressaltada, sente-se agredida. Mas não há como fugir.

Ainda continua sem saber o que pensar quando o telemóvel volta a tocar. Pergunta-se, enquanto atende: de que serve ver luz ao fundo do túnel, se nunca a consigo alcançar?

(Publicado em 14 Fevereiro 2013)