Pedro Rastilho_preguiça 1

Pedro Vindeirinho anda nisto há uns anos largos. Sempre frontal, por vezes polémico, uma coisa é certa: nunca fica nada por dizer. Num país onde as conversas de café raramente passam para a prática, foi com gosto que a Preguiça falou com o mentor do universo Rastilho, editora e distribuidora de Leiria, com um passado e presente de perseverança, luta e doses épicas de amor à música.

A Rastilho Distribution está hoje online, mas em 1996 como era? Como é que funcionava e como é que tudo surgiu?

Surgiu sob a forma de flyer, um bocado por acaso. Colecciono discos desde os meus 16 anos, e na altura comprava por correio, e houve uma altura em que decidi comprar uns discos a mais para vender aos amigos. Em Maio de 1996 decidi fazer um catálogo, que era simplesmente uma folha A4 fotocopiada, e basicamente começou assim. Estamos a falar numa altura em que a internet estava a começar a dar os primeiros passos.

Funcionava tudo por correio, então.

Sim, por correio (mail order) mas também nos concertos. Andava com os Alien Squad e os Injusticed League, eles iam tocar e eu montava a minha banca com meia dúzia de CD. Era o que havia na altura… Mas, sim, basicamente era por mail order.

E quanto à Rastilho Records, quando é que começaste a editar?

Foi em 99, com uma banda punk de Aveiro, os Intervenzione, com pessoal ligado aos Inkizição. Foi uma sequência natural: na altura, não havia muitas editoras ligadas ao punk. A Rastilho começou mais ligada ao punk.

Quantos discos tens editados actualmente?

São 88 discos editados.

E as edições de vinil? Tens inclusivamente algumas edições de bandas ditas de primeira linha…

Sim, acho que o ponto de viragem foi quando o Legendary Tiger Man me convidou para fazer o Masquerade. Na altura já tinha feito umas edições em vinil, com os Parkinsons e os Mata Ratos também, mas o nome mais sonante foi o Tiger Man, em 2006. Aí eu percebi que havia uma falha grande nas edições de vinil em Portugal: comecei a apostar em nomes um pouco mais sonantes e a editora começou a ter uma visibilidade maior.

Xutos, Dead Combo…

Sim, mas isso foi numa fase posterior. Comecei por Linda Martini, Mão Morta, enfim, uma série de bandas.

E editas agora o primeiro DVD.

Sim, dos Switchtense, uma banda de metal. É uma coisa curiosa, mas dá muito trabalho em termos de burocracia e dos licenciamentos.

Por falar em metal, acabaste por criar um selo da Rastilho só para o metal.

Sim, surgiu como uma necessidade. Na altura, percebi que havia muita gente confundida. Porque eu sempre fiz um pouco de tudo, tanto lanço um disco em vinil do David Fonseca como a seguir lanço os Switchtense. E então havia alguns jornalistas um bocado confusos. Acho que essa confusão continua de certa forma, porque o nome da Rastilho está lá. Se eu soubesse o que sei hoje, provavelmente teria arranjado um nome diferente. Nos últimos anos, a Rastilho Metal Records tem crescido, sobretudo lá fora, e eu acho que este anos vai ser quase um turning point porque estou a notar que há um interesse muito grande em relação àquilo que eu faço, a nível europeu. Porque há cada vez mais bandas portuguesas a ir tocar lá fora, e as coisas vão começando a acontecer. Ao contrário da Rastilho Records, que tem apostado cada vez menos em bandas novas, tenho feito praticamente só discos em vinil.
Estou aí com um projecto dos Mão Morta para editar a discografia antiga deles: ainda vai demorar alguns meses, mas estou agora a trabalhar nisso. Penso que este ano vai ser a consolidação da Rastilho Metal Records.

Acho que a Alemanha é o país fulcral e essencial para a actividade que eu tenho.

É curioso, dada a conjuntura económica…

Sim. Não vou pintar um cenário cor-de-rosa, mas [digo-o] sbretudo por causa de algumas bandas que estão cada vez a tocar mais lá fora, e não estou a falar de uma digressão só com duas ou três datas de ir a Espanha e voltar. Acabei de fechar na Alemanha um acordo de distribuição e promoção, em que eu acredito imenso. Acho que a Alemanha é, neste caso, o país fulcral e essencial para a actividade que eu tenho.

Neste momento, na loja online, a Rastilho Distribution vende mais para onde?

Estou a vender mais para fora, muito por “culpa” dos Moonspell. Decidi fazer há precisamente um ano a loja online deles, e tem sido um sucesso retumbante, porque é uma banda com uma projecção imensa lá fora. Mas, de uma maneira geral, estou a vender cada vez mais para o estrangeiro.

Para portugueses de cá que emigraram?

Também, mas não só. Neste momento vendo muito para a Alemanha, Holanda e Bélgica, na parte do metal; para a Rastilho Records, os Dead Combo vieram balançar a coisa. Desde que eles apareceram no programa do Anthony Bourdain tem sido uma coisa por demais. Tanto que vou reeditar o Lisboa Mulata porque a procura tem sido imensa. E eu, por causa deles, tenho feito quase o mapa-mundo. É incrível a quantidade de países para os quais eu tenho vendido os vinis de Dead Combo!

Se tivesse de formar hoje uma editora, provavelmente não o faria, porque é uma coisa de loucos

Quanto ao negócio, de uma maneira geral, quando começaste ainda não se falava muito dos downloads ilegais. Se fosse hoje, avançavas na mesma com a Rastilho?

Não. As bandas que se têm aguentado, mesmo a nível de Portugal, são as bandas que surgiram numa dada altura e que se conseguiram aguentar. É muito difícil encontrar um exemplo de uma banda que tenha surgido nos últimos cinco anos e tenha conseguido furar. E não estou a falar de ter um tema a passar na Antena 3: estou a falar de uma forma mesmo consolidada em termos de carreira.

Se tivesse de formar hoje uma editora, provavelmente não o faria, porque é uma coisa de loucos. Não é só a crise financeira: é o problema dos downloads, realmente. Estamos a chegar agora a um momento, com um site novo, onde vamos começar a disponibilizar às pessoas o álbum por inteiro. Não vale a pena o disco estar em sites russos manhosos com qualidade muito má: mais vale sermos nós a disponibilizá-lo às pessoas com qualidade e depois elas decidem se compram ou não. Estou convencido de que se as pessoas gostarem realmente do disco, acabam por comprá-lo.

Não lhe quero chamar derrota, mas sentiste que tiveste de te adaptar?

Cheguei à conclusão que o mal está feito. As editoras serão provavelmente as principais culpadas de tudo isto, para além de toda a revolução tecnológica, que é uma coisa inevitável, e neste momento ou te tentas adaptar, ou estás condenado à extinção. As editoras sempre tiveram um papel demasiado arrogante e mercantilista face à indústria, e realmente nos anos 90 viveu-se uma época dourada. Bandas mesmo underground a vender 10 mil ou 20 mil discos. Esses tempos acabaram, e temos de ser humildes o suficiente para perceber isso. As próprias bandas também já entenderam: há cada vez mais bandas com edição de autor, e o papel reservado às editoras não é assim tão relevante. Eu próprio aconselho as bandas, quando têm qualidade, a avançarem. Já ninguém lhes vai acenar com um contracto milionário, isso já não existe.

Estamos a falar de uma onda mais pesada ligada ao metal e ao hardcore: logo, não chega a toda a gente. Mas, de facto, o que é curioso é que tens a imprensa nacional a ignorar esse tipo de bandas, só que elas acabam por ter muito mais visibilidade e vender muito mais discos do que outras que estão neste momento a passar na Antena 3

Bandas portuguesas como os Devil In Me ou More Than a Thousand estão a ter muito sucesso fora de portas. E cá também? Qual é a tua percepção?

Estamos a falar de uma onda mais pesada ligada ao metal e ao hardcore: logo, não chega a toda a gente. Mas, de facto, o que é curioso é que tens a imprensa nacional a ignorar esse tipo de bandas, só que elas acabam por ter muito mais visibilidade e vender muito mais discos do que outras que estão neste momento a passar na Antena 3. O papel reservado para alguns jornais e rádios banalizou-se um bocado. Eu não queria estar a referir nomes, mas desde que vês as Pega Monstro na capa do Ípsilon, acho que tudo é possível. Até eu próprio qualquer dia formo uma banda, e se calhar consigo ser capa do Público, não sei. E é pena porque os jornalistas já tiveram um papel importante, e agora já não têm – e as próprias bandas acabam por trilhar um caminho diferente, alternativo, mas de uma forma consciente, e assim têm construído carreira.

Mas não será uma questão de enquadramento? A própria génese da banda do underground não se querer alinhar com o mainstream?

Em relação aos More Than a Thousand, estamos a falar de uma banda que se enquadra no hardcore, mas eles têm músicas que não são tão pesadas quanto isso. E as próprias não se querem fechar: estou convencido de que se surgisse a possibilidade de ser capa da Blitz ou os convidassem para fazer um spot publicitário, provavelmente fariam-no. Não há aquela atitude de estarem fechados, numa espécie de redoma, e só tocarem para os amigos. Não é isso que se passa.

Há uma banda, os Jigsaw, de Coimbra: não entendo o que é que se passa com ela. Têm um som altamente acessível, um disco fabuloso, e são praticamente ignorados em Portugal

E quanto ao facto de não se ser de Lisboa?

Há uma banda, os Jigsaw, de Coimbra: não entendo o que é que se passa com ela. Têm um som altamente acessível, um disco fabuloso, e são praticamente ignorados em Portugal. Ainda agora estiveram em Espanha a tocar, e conseguem ter mais sucesso lá fora. Eu não queria falar nisto, mas de facto existe: o facto de não seres de Lisboa! Uma pessoa conhecida contou-me algumas estórias de rádios, que são de ficar de boca aberta… como se fosse assim tão importante a localização geográfica de uma banda. Eu acho que não é. Se eu fosse de Bragança, era capaz de ser mais complicado, mas somos de Leiria, que é uma cidade com tradição musical e com uma localização geográfica central: não entendo o que se passa. Se fores de Lisboa e frequentares os sítios certos estás safo. Se estivesse aqui ao nosso lado um jornalista, ele diria que não isso não é verdade, mas é.

Tu perante isto tens duas atitudes: ou baixas os braços e desistes, ou continuas o teu caminho. E se houver qualidade, serás reconhecido mais cedo ou mais tarde. Agora, que o caminho vai ser mais difícil do que para outras bandas da capital, vai. Mas tens de estar preparado para isso.

O centralismo existe, mas há outro factor que é o de nós, agentes culturais, raramente nos encontrarmos para debater isto. As editoras não se juntam para conversar, para criarem uma estratégia comum. O lobby, chamemos-lhe assim, do mercado livreiro é um mercado com um peso forte: as pessoas juntam-se e conversam. Há, de facto, associações que defendem os interesses comuns. Relativamente à música, está cada um no seu canto, e eu contra mim falo: faço aqui quase um mea culpa, porque de facto nós não conversamos sobre isto. E é pena, porque todos juntos teríamos uma voz mais forte e acutilante.

Mas há uma associação já formada, não há?

Sim, há a AMAEI (Associação de Músicos Artistas e Editoras Independentes) presidida pelo Nuno Saraiva. Em teoria, eu sou o vice-presidente, mas aquilo está a demorar a arrancar. Engloba editoras de norte a sul, agentes culturais, promotores, e é difícil estabelecer pontos de comunicação. É incrível como é que estas coisas acontecem, com toda a tecnologia que temos ao nosso dispor. Mas vamos ver o que vai acontecer: a associação juntou-se para combater esta lacuna que existe, mesmo em relação a criar uma alternativa à Associação Fonográfica Portuguesa, porque não há ninguém que represente as editoras independentes. Estou convencido de que este ano o projecto arranca em definitivo. Ele está criado, legalizado, vamos ver.

E para fechar, que música andas a ouvir e o que é que aconselhas aos leitores da Preguiça? O que é que nos anda a escapar?

Isto pode parecer um lugar comum, mas tenho andado a ouvir o álbum novo dos My Bloody Valentine [M B V, editado em 2013]. No entanto, creio que não constitui novidade para os leitores da Preguiça.

No ano passado editei um disco de que gosto muito, de Sam Alone & The Gravediggers [intitulado Youth In the Dark]. É um óptimo disco de blues, rock, folk e indie, e que passou ao lado de muita gente

Qual e edição que te deu mais gozo fazer?

Não sei… a edição do Masquerade do Tiger Man revelou-se importante, porque foi um início e eu senti que a editora começou a crescer, em 2006. Estive envolvido na reedição dos Ornatos Violeta em vinil, que me deu muito prazer, o projecto dos Xutos & Pontapés, o que estou agora a fazer com os Mão Morta… Não sei, são coisas que demoram alguns meses a criar, mas vamos acompanhando o processo: ouvir os masters todos, o artwork, enviar para a fábrica… Também tive alguns erros de casting. Acho que toda a editora que tenha mais de 10 ou 20 discos os tem…

Em vésperas de uma banda que referiste há pouco, os Switchtense, tocar em Leiria, o que é que podes dizer a respeito deles?

É uma história curiosa. Eu editei Switchtense porque o Helder da loja de BD, Chop Suey, foi vê-los a Grândola há quatro anos. Veio de lá extasiado, disse que eu tinha de os ouvir e eu assim fiz. Há algo de muito especial no meio do metal. A sinceridade, a frontalidade das pessoas deste meio é diferente. É diferente dos meios mais ligados ao indie rock, onde há aspectos visuais e perfeitamente laterais à música, com certos toques de vedetismo, que por vezes é difícil de suportar. Em relação a Switchtense, é uma banda com quem tenho um grande orgulho em trabalhar. Espero mais um concerto avassalador. Eles têm conseguido construir uma carreira interessante em Portugal e são pessoas que têm um projecto para a banda. Um dos pontos altos, no ano passado, foi terem feito nove datas em Espanha como banda suporte de Sepultura. Cada concerto é uma festa, uma celebração, e basta ver o DVD para se perceber isso mesmo. Apareçam!

A Rastilho na nuvem:
Rastilho Distribution – http://www.rastilho.com/
Rastilho Records – http://www.rastilhorecords.com/
Rastilho Metal Records – https://www.facebook.com/rastilhometalrecords
Moonspell – http://www.moonspell.rastilho.com/

Bandas na rede social:
The Legendary Tiger Man – https://www.facebook.com/thelegendarytigerman
The Parkinsons – https://www.facebook.com/officialtheparkinsons
Mata-Ratos – https://www.facebook.com/infamesmr
Linda Martini – https://www.facebook.com/lindamartinirock
Mão Morta – https://www.facebook.com/maomorta
Moonspell – https://www.facebook.com/moonspellband
Dead Combo – https://www.facebook.com/deadcombo
Devil In Me – https://www.facebook.com/devilinmeband
More Than A Thousand – https://www.facebook.com/morethanathousand
a Jigsaw – https://www.facebook.com/ajigsaw
Sam Alone & The Grave Diggers – https://www.facebook.com/SamAloneMusic
Ornatos Violeta – https://www.facebook.com/ornatos
Xutos & Pontapés – https://www.facebook.com/xutosrock78
Switchtense – https://www.facebook.com/SWITCHTENSE

Entrevista de Pedro Miguel
Foto de Ricardo Graça

(Publicado em 14 Fevereiro 2013)