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O fotógrafo leiriense, que se diz fascinado pela beleza, fala do corpo e das fronteiras artísticas que teima em desafiar.

Esta e as próximas linhas de texto são apenas uma desculpa para vos mostrar fotografias bonitas de mulheres bonitas. O autor é o leiriense Sal, rapaz com raízes na Marinha Grande, que se tornou Nunkachov no dia em que o Facebook lhe perguntou pelo sobrenome.

Quase com a mesma leveza com que escolhe apelidos, também espalha pequenos chapéus de chuva através das suas criações artísticas. Uma espécie de marca de nascença, como a que liga as personagens de Cloud Atlas. Nada é fruto do acaso. E as imagens falam, apesar do silêncio. As de Sal não são perfeitas, porque estão contaminadas de beleza – a dúvida, a coragem, a felicidade, o vazio. Somos sempre o que parecemos, mesmo quando não queremos.

salnunkachov.tumblr.com

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Claro, estas linhas por diante também são uma desculpa para o título do artigo. Tínhamos as fotos e o título, faltava o texto. Felizmente, o texto não serve para nada e o mesmo se pode dizer da alta costura, pelo menos na opinião de Nunkachov. “Ninguém diz: quem é que vai usar este Picasso? A arte não serve para nada, isso já está respondido há algum tempo”, afirma. Desprendimento, provocação: Sal faz questão de viver na fronteira. “Não sei se é fotografia de moda. Não tem uma lógica comercial. É como os Abaixonado. É música ou é teatro? Pode ser as duas coisas. Eu gosto disso, de causar perplexidade.”

Há milhares de anos que a filosofia procura racionalizar o belo. Quantos pensadores não perderam a cabeça por um palminho de cara enquanto reflectiam profundamente sobre o belo natural e o belo artístico produzido pelo ser humano? Sal é só mais um de nós, que existimos através dos sentidos. “Sou um gajo altamente fascinado pela beleza”, sublinha. “E a beleza não é só o físico. O belo e o grotesco estão intimamente ligados.”

As fotografias neste género começaram em 2011, quando se ofereceu para documentar o trabalho de uma designer. Palavra puxa palavra e hoje o seu portefólio inclui colaborações com diversas agências, os bastidores da Moda Lisboa e uma página fixa no Jornal de Leiria. No semanário, Sal tanto destaca lugares da cidade como faz produções assistidas ou pede às modelos para usarem roupa que tenham efectivamente comprado.

Em qualquer caso, é sempre a pessoa que está no centro da atenção, nunca aquilo que veste. “A única coisa que temos é o corpo. É a expressão mais viva de quem somos”, acredita o fotógrafo leiriense.

Texto de Cláudio Garcia
Fotografia de Ricardo Graça

(Publicado em 14 Fevereiro 2013)