mulher num tunelCapítulo segundo, por Fernando José Rodrigues, de uma colaboração entre diversos escritores, em fascículos semanais, a fazer lembrar os velhos folhetins que eram publicados nos jornais. Pretende-se, basicamente, contar uma estória a várias vozes. O ponto de partida é a fotografia aqui apresentada.

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL: UM FOLHETIM

Capítulo II – Distribuir imortalidade

Texto de Fernando José Rodrigues

Leva o lixo!,
foram estas as últimas palavras que lhe dirigira, de longe, pela porta do quarto entreaberta, com a certeza de que ele, já a fechar a da entrada, não a ouviria,

O telefone toca, alguém a dar os sentimentos, os chatos dos costume,

às vezes corria para a janela a vê-lo percorrer o espaço do jardinzito mal amanhado até ao portão verde-ferrugem, ele sem o saco fétido, mais tarde poderia atirar-lhe à cara a negligência,

a mão de Adelaide vai a contragosto para o aparelho, hoje seria assim o dia todo, Coitada! E como foi?, um rol interminável de suspiros e ela a querer apenas um dia
tranquilo,

e seguia-o, de pés arrastados e ombros curvados até o perder silenciosamente na curva do passeio, às vezes um vizinho passava e cumprimentava, Bom dia Senhor Rocha!, e o Rocha, detective privado, de gabardine coçada e sapatos gastos pelos dias e noites de vigilâncias, sabe-se lá onde, murmuraria respostas olheirentas,

O toque do “Viva la Vida” não parava, poderia ser outra vez a mulher a dar-lhe mais indicações, ou uma funerária a oferecer-lhe os serviços, o que faço agora? Eu que nunca fui viúva, eu, que só queria ver uma luz ao fundo do túnel, não vislumbro sequer
uma única centelha,

tinha pena dele, imaginava-o em noites contínuas dentro do carro velho, cheio de frio, o café num termo, as sandes a desfazerem-se, o cabecear na madrugada, os vigiados não chegavam, isto não é nada como no CSI, o Rocha matutava porque se tinha esquecido do saco, sabia que numa outra noite ou princípio de manhã qualquer, quando se preparasse para estender os ossos na cama, ela lhe diria, Nunca levas o lixo!, ele a querer fechar os olhos, És sempre a mesma coisa!, ele a querer tapar os ouvidos, Não ligas nada ao que eu digo!, ele a querer desejar morrer para recuperar o silêncio,

Pegou no telefone, afinal só queria ter sido feliz ao lado dele, sentir-lhe o perfume,
Sim?,

Perfume?, Não! Quando se encostava quase clandestinamente ao corpo esfalfado e lhe sentia os odores, era mais uma colónia que se lhe colava ao nariz, daquelas de supermercado, misturada com o suor do corpo, era esse o seu Jorge, aquele a quem nunca mais gritaria pelo saco do lixo, aquele a quem nunca mais deitaria fora a roupa velha que ele teimava em usar, aquele a quem nunca mais diria, Não sejas maricas! Dor de cabeça? Se fosses mulher! nunca mais!, aquele que nunca mais tomaria os seus comprimidos coloridos, de que serve uma luz ao fundo do túnel, se nunca mais a conseguirei alcançar?

D.ª Adelaide? Sim, a própria.
Era a voz trémula de uma mulher, D.ª Adelaide Rocha?, Sim, já lhe disse que sim. Quem fala desse lado?
Silêncio no túnel, como se houvesse uma cegueira no meio da escuridão, Sim?, repetiu Adelaide, sim? Quem é?,
A voz afirmou-se, quase sem forças,
Sou a mulher de Jorge Rocha!

Foi como se o túnel se tivesse esboroado e os destroços lhe golpeassem a alma, ela, ela, ela que só queria um dia tranquilo.

Até ao funeral, Adelaide teve a curiosidade (a necessidade?) de conhecer Adelina, 5 anos mais nova e de querer saber se também ela andara enredeada em sacos de lixo, em tampas de sanitas levantadas, em roupa espalhada a esmo pelo chão e outras querelas. Ou se…

Dias depois de o terem acompanhado ao cemitério, Adelaide, sem saber como e porquê, foi chamada ao consultório de um advogado famoso, Ainda vou ter chatices, sei lá, suspirou, eu que só queria um dia, um dia! Tranquilo!,

Estamos aqui para a leitura do testamento do Dr. Jorge Rocha,
e os olhos de rolex do advogado percorreram a sala inteira e soberba,
convidei, como indicado expressamente pelo Dr. Rocha, a D.ª Adelaide, a D.ª Adelina e
também, pigarreou e fez um silêncio apontado, a Menina Adéle.

Adelaide e Adelina olharam, atónitas, para um corpo vinte anos mais jovem, num vestido preto colado ao corpo e um colar em ouro a cobrir-lhe o colo.

Durante toda uma manhã desconfortável ouviram, incrédulas, a leitura de um longo testamento, Jorge, o desconhecido, a distribuir imortalidade.

(Publicado em 21 de Fevereiro de 2013)