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Não é um sofá nem um divã, é uma espreguiçadeira. Uma vez por mês, a Preguiça convida alguém a pôr-se confortável e responder a 12 perguntas sobre livros. Desta vez foi o actor Jorge Mourato a sentar-se, para nos contar o que lhe vai na alma… e nas estantes, claro.

1. O que estás a ler neste momento? Recomendas ou nem por isso?
Estou a ler duas coisas: Breve História da Humanidade, de Cyril Aydon e O Grande Livro do Poker, de Dario de Toffoli. Recomendo os dois, para uma compreensão das nossas origens e desse jogo fantástico que é o Texas Hold’em Poker.

2. O que mais facilmente te leva a pegar num livro: a capa, o título, o autor, os amigos ou os desconhecidos?
O título e os amigos. Nunca julgues um livro pela capa nem um vinho pelo rótulo, já diziam os antigos.

3. Diz-nos um autor que descobriste ultimamente e tens pena de não ter descoberto mais cedo.
Sándor Marai [autor de As Velas Ardem Até ao Fim ou A Ilha]. Descobri este autor húngaro há uns anos e gostava de o ter lido quando era mais novo. Teria mais coisas para descobrir. A idade com que lemos certos livros influencia muito as várias camadas de leitura dos mesmos.

4. Se houvesse um incêndio na casa do teu vizinho, que livro aproveitavas para atirar para a confusão?
Sou contra a queima de livros, associo-a sempre à Inquisição e ao regime nazi, instituição e movimento que abomino. Mas… confesso que abria uma excepção para alguma literatura cor-de-rosa, tipo Margaridas Rebelos Pintos e Companhia.

5. O bichinho dos livros passa de pais para filhos? Conseguiste contagiar a tua filha ou parece-te que é imune?
Passa, pois! A Leonor adora livros, ainda não os sabe ler, mas devora os desenhos, as fotografias e as gravuras e pede para lhe contarmos estórias. É fantástico ver a alegria dela a correr para nós com um livro na mão!

6. Se fosses uma personagem do Farenheit 451 (Ray Bradbury/ François Truffaut), que livro gostarias de memorizar para garantir que sobrevivia à passagem do tempo?
Ui, tantos… Se só pudesse ser um, teria de ser um autor português. A obra completa do Pessoa valeria a pena.

7. Já te rendeste ao tablet? Ou és fiel ao papel em toda e qualquer circunstância?
Papel, sempre!

8. Há algum livro que queiras ler há muito tempo, mas ficas sempre pela intenção?
Em Busca do Tempo Perdido, do Marcel Proust.

9. A partir de quantas páginas um livro te desmotiva a pegar-lhe? E qual foi o maior calhamaço a que já te aventuraste?
Não me desmotiva o número de páginas… desmotiva-me o conteúdo delas. Tenho para ler o 2666, do Roberto Bolaño. Não é um calhamaço, mas se interrompes a leitura por alguns dias, tens de começar de novo, não admite interrupções, pelo menos comigo não funciona.

10. “Não negue à partida um género que desconhece” podia ser o teu lema? És transversal, quanto a géneros e estilos de escrita, ou tens claramente favoritos e suspeitos?
Leio de tudo, desde biografias a romances históricos.

11. O que é preciso para se ser um leitor com L grande? Isso é uma espécie em vias de extinção?
Basta ter o prazer da leitura, ser curioso e amar a Língua Portuguesa. Grande parte daquilo que sou, devo-o aos livros e ao facto de ter vivido a cem metros da Biblioteca Municipal da Marinha Grande. Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, foi o livro que me despertou a sede da leitura e os meus pais sempre me incentivaram a ler. É muito importante o papel dos pais para se ser um bom leitor.

12. O que achas verdadeiramente de alguém que tem uma casa sem livros?
Excluindo a hipótese de não ter posses para os ter, diria que é uma pessoa pobre de espírito. Os livros são como halteres para o cérebro, são bilhetes de avião para sítios fantásticos, sem termos de levantar os pés do chão, são janelas para mundos maiores que o nosso, são alavancas da imaginação. Triste e vazia casa será.

Questionário de Catarina Sacramento
Ilustração de Rui Cardoso

Foto: Just.pt

Foto: Just.pt

  • Jorge Mourato nasceu na Marinha Grande em 1974. Licenciou-se em Ciência Política, mas seria o Curso de Formação de Actores a abrir-lhe as portas do teatro e da televisão, tornando-se conhecido sobretudo pelos papéis cómicos e pela veia humorística. Em TV participou em Residencial Tejo (1999-2002), Noites Marcianas (2001), Não Há Pai (2002), Levanta-te e Ri (2004-2006), Floribella (2007), Liberdade 21 (2009) ou, mais recentemente, Laços de Sangue (2010-11), Maternidade (2011) e Gosto Disto (2012). Em teatro, estreou-se em 1999 com A Relíquia (enc. de Maria do Céu Guerra). Subiu ao palco em O Jantar de Idiotas (2004) e Os Melhores Sketches dos Monty Pyhton (2007-08), encenadas por António Feio. Foi o protagonista de Caveman – Mim Caçar, Tu Colher (2009-10, enc. de António Pires) e entrou n’A Fuga (2011-12, enc. de Fernando Gomes

(Publicado em 21 Fevereiro 2013)