Paulo Tojeira, professor e fundador do Tocándar

Paulo Tojeira, professor e fundador do Tocándar

Formada por 60 jovens, a orquestra de percussão da Marinha Grande soma colaborações com Ana Moura, os Paus e o ministro da Cultura de Cabo Verde.

Um tocador encontra outro e pergunta: com quantos paus se faz uma família? Resposta: todos os que forem necessários. No Tocándar é assim há 13 anos. Eles não são os bombos da festa, são a festa dos bombos, a alegria que contagia. Nas arruadas à portuguesa ou nos espectáculos de palco baseados em ritmos tradicionais. Há bombos e caixas, gaiteiros e gigantones, há vida em cada som que as baquetas tiram, há a cumplicidade e energia de uma orquestra de jovens que já actuou em Espanha, França e Itália e soma colaborações com músicos de renome, tanto portugueses como estrangeiros.

Não há festa sem bombos, dizem eles. E até os Paus já descobriram. A banda que junta elementos de Linda Martini e If Lucy Fell, conhecida por utilizar uma bateria siamesa, esteve dois dias a ensaiar na Marinha Grande. No antigo quartel da GNR, actualmente a casa dos Tocándar, ali bem perto da extinta Fábrica Escola Irmãos Stephens. A fusão ficou plasmada num disco de 2011. Também a fadista Ana Moura partilhou a sua voz com a percussão à vidreiro. E os nomes continuam: La Raitana (Astúrias), Xarabal (Galiza), Paulo Abelho (Sétima Legião), Custódio Castela (guitarrista de Ana Moura) e o ministro da Cultura de Cabo Verde, Mário Lúcio, entre outros.

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Ana Margarida Castanheiro, futura veterinária

Diogo Ferreira

Diogo Ferreira, licenciado em Protecção Civil

Tum, tá rá tum tum – o som do Tocándar “é uma escola de vida”, diz Diogo Ferreira, 24 anos, um dos elementos mais antigos do grupo. “Dá-nos bagagem e experiência. Cá dentro sentimo-nos valorizados porque nos são atribuídas responsabilidades”, explica. O fundador e mentor da orquestra é Paulo Tojeira, professor no ensino público, para quem este projecto, totalmente gratuito, é “pedagógico e artístico”, mas também traduz “uma intervenção social importante”. E porquê? Porque “o Tocándar não é só palco, são pessoas com os seus problemas, são jovens que trazem a sua vida para aqui e que ajudamos a serem pessoas diferentes, se possível para melhor”, argumenta.

Claro, mesmo Paulo Tojeira conhece o fascínio das viagens. E sabe que é por aí que a maioria entra. “Uma grande família”, descreve Ana Margarida Castanheiro, 21 anos. O convívio abre a porta, os laços crescem através da prática e do contacto com realidades musicais diferentes, como os Gaiteiros de Lisboa, de quem a futura veterinária aprendeu a gostar e que agora tem na lista de reprodução ao lado das bandas de rock alternativo. Para o Diogo, nove anos de idade, baterista fã de Nirvana e AC/DC, a motivação foi outra: “Achei que podia aprender para evoluir na bateria”, afirma, muito sério.

Diogo, 9 anos, baterista e fã dos AC/DC

Diogo, 9 anos, fã dos AC/DC

No ano passado, o Tocándar fez mais de 40 viagens. Já choveram convites da China e do México. Para 2013 estão agendadas datas em Sintra, Mealhada e Marinha Grande, e aguardam confirmação dois espectáculos em Espanha. Respeito pelo outro, disciplina e dedicação são indispensáveis. Dar o litro e fazer das fraquezas forças, avisa Paulo Tojeira. Os 60 elementos, a maioria na adolescência, estão distribuídos por grupos de aprendizagem (níveis 1, 2 e 3) e orquestras (A e B). Até hoje, mais de 700 jovens passaram por ali e cerca de 200 chegaram à orquestra principal.

Tudo começou no ano 2000 com a chula e o baile mandado, ritmos tradicionais portugueses. A inspiração era o primeiro álbum de Fausto, Por Este Rio Acima. Depois vieram os ritmos próprios e a modificação de ritmos já existentes, as composições criadas internamente, pelos irrequietos músicos que alimentam o projecto. “Nós estilizamos a partir dos ritmos tradicionais e quando estilizamos é evidente que entra a cultura musical deles”, salienta Paulo Tojeira. O espectáculo que levam ao palco, uma hora e um quarto sempre a bombar, transporta para a actualidade a festa dos Zés Pereiras. Uma grande caldeirada de bombos, caixas, timbalões, djembés, didgeridos, espanta espíritos, estruturas metálicas, bidões, caretos, cabeçudos, gigantones, tamborileiros e gaiteiros, ambientes rítmicos tradicionais e contemporâneos, energia juvenil.

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A casa de ensaios do Tocándar, no antigo quartel da GNR

Com uma despesa de 500 euros mensais, a associação envolve alunos de diferentes escolas da Marinha Grande, mas grande parte do trabalho é desenvolvido na Calazans Duarte.

Tal como na música, nenhum detalhe é deixado ao acaso. E até a indumentária do Tocándar tem um sentido. É uma homenagem aos operários da histórica indústria vidreira. Jardineira azul, camisa de estamanhinha cinzenta ou branca, t-shirt branca e boné azul. Os instrumentos são decorados com um lenço vermelho, uma referência aos lenços que os vidreiros usavam à boca do forno para rejeitarem o suor.

Texto de Cláudio Garcia
Fotografias de Ricardo Graça

(Publicado em 21 Fevereiro 2013)