mulher num tunelCapítulo terceiro, por Elsa Rodrigues, de uma colaboração entre diversos escritores, em fascículos semanais, a fazer lembrar os velhos folhetins que eram publicados nos jornais. Pretende-se, basicamente, contar uma estória a várias vozes. O ponto de partida é a fotografia aqui apresentada.

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL: UM FOLHETIM

Capítulo III – Uma morte, três vidas

Texto de Elsa Rodrigues

Maria Adelaide sentia-se anestesiada. Dormente. As coisas aconteciam à sua volta em câmara lenta. Desfocadas, como um filme mal projetado.

Passo então a ler os desejos do senhor Jorge dos Santos Rocha, expressos neste testamento. Aos vinte e sete dias do mês de ..

As palavras chegavam-lhe distantes. Uma espécie de eco que acompanhava as imagens em câmara lenta. Parecia que tinha perdido um membro. Ou um sentido. Mas só tinha perdido Jorge, e Jorge não era parte de si. Ou seria? Jorge o maricas. Jorge o banana. Jorge que não levava o lixo.

…eu, Jorge dos Santos Rocha, na posse das minhas faculdades, redigi o presente testamento, nomeando como testemunha e executor o doutor…

Jorge que cheirava a colónia barata. Jorge que usava roupa coçada. Jorge que via filmes americanos e imitava poses no espelho da casa de banho. Devia haver engano. Olhou para as outras mulheres. Jorge o mal amado. Jorge a quem ela negava sexo. De repente ficou claro. A realidade voltou a estar focada: era engano! Uma estranha coincidência. Só podia ser. Aquele que falava por intermédio do advogado não era o seu Jorge. Tinha de interromper a leitura, avisar que aquele testamento não era para ela. Tinha de dizer…

…à minha legítima mulher, Maria Adelaide Gonçalves Rocha…

Hã?!

…na ausência de descendentes, deixo a casa da Rua da Alegria….

O quê? Afinal não era engano. Era ela. A casa dela. Era Jorge, o incapaz, que nem soubera fazer-lhe um filho. A luz apagou-se e tudo voltou a desfocar-se. Ou era ela que estava desfocada. As outras mulheres, versões mais novas de si, morenas vistosas, como ela se lembrava de ter sido, continuavam ali, atentas às palavras que Jorge dizia com a voz do advogado. Adelaide. Adelina. Adéle. Raio de fixação por Adês!

…quero que saiba que sempre a amei.

Os olhares pousaram sobre ela. Focados, de certeza. Expectantes. Estão a gozar! Jorge o imbecil tinha a distinta lata de lhe dizer, depois de morto, por interposta pessoa e na presença das amantes, que a amava. Jorge o filho da mãe!

À minha querida Adelina Carvalho Neves, minha companheira de tantos anos…

Os olhares voltaram-se para Adelina que ajeitou sem jeito a saia justa sobre as pernas generosas. Pernas que durante anos haviam envolvido Jorge. Jorge que Adelina esperara noite fora, fora de horas. Jorge o desejado. Jorge o bem amado.

…deixo o montante do seguro de vida cuja apólice será entregue no final da leitura deste testamento. O valor é modesto, de modo nenhum comparável ao meu amor por ela.

Adelina chorava silenciosamente. Adelaide interrogou-se se também veria a realidade desfocada. Se reconhecia o Jorge que lhes falava de além túmulo. Um Jorge nada parecido com o seu Jorge olheirento e sombrio. Ou teria sido ela que escurecera e se tornara incapaz de ver brilho nos outros?

À minha amada Adéle…

Foi impressão sua ou o colar de Adéle brilhou?

…o meu último amor,

Quantos amores teria tido? Jorge que se encostava fortuitamente a ela, de ereção envergonhada, a obrigá-la a justificar as ausências de desejo com dores avulsas.

….a minha grande paixão, a quem não poderei deixar mais do que…

Jorge o amante. Jorge o apaixonado. Jorge que amara três mulheres. Jorge que nunca deixara de amar. Jorge o bem amado.

…. o seguro que fiz em seu nome, cuja apólice será entregue no final…

Quantas vidas teriam cabido na vida de Jorge? Quantas histórias vivera? Quantos segredos teria?

…às três, que tanto amei, faço um pedido. A cada uma será entregue a chave de uma caixa postal. As três caixas deverão ser abertas no mesmo dia, à mesma hora e na presença de todas. Com o seu conteúdo poderão desvendar o mistério que envolve a minha morte e obter aquilo que verdadeiramente vos pretendo deixar.

Jorge o cabrão!