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Emília Gordo

As estórias da equipa de 26 pessoas que dá vida à principal sala de espectáculos de Leiria.

Decorria o concerto da orquestra Fernández Fierro em Leiria, no Verão de 2009, quando o cabelo de um músico pegou fogo devido ao calor gerado pelo projector de luz. Sem interromper o espectáculo, o próprio rapidamente resolveu o imprevisto com uma toalha, o que lhe permitiu salvar o penteado e continuar a tocar, no melhor estilo da máxima the show must go on.

Em matéria de incêndios no palco, não é caso único no Teatro José Lúcio da Silva (TJLS). Noutra noite, durante uma peça de teatro com procissão e velas, um dos adereços entrou em chamas, mas um técnico surgiu em cena de extintor nas mãos, debelou o sinistro e a coisa prosseguiu como se nada tivesse acontecido.

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Vera Caetano, Carolina Pombeiro e Helena Mesquita

Nas entrelinhas de uma casa de espectáculos, parece que as estórias se acumulam. O jogo de sombras nos bastidores guarda episódios mais ou menos insólitos, de que a plateia pode nem se aperceber, mas que ficam na memória do edifício e das pessoas que lá trabalham. A equipa do TJLS não foge à regra e não é preciso puxar-lhes pela língua para escutar autênticos tesourinhos. Os caprichos de Xana Toc Toc, a bebedeira de Jorge Palma, os atrasos da cantora Maria João, que esteve perdida à saída da A8 enquanto o público já esperava nas cadeiras, os cortes de luz em pleno concerto de ano novo e os desejos do maestro Victorino d’Almeida, que pediu queijo momentos antes de subir ao palco.

Noutros dias, são os próprios espectadores os protagonistas. “Aquela meia-hora em que as pessoas estão a entrar é sempre stressante porque às vezes não compreendem as regras”, explica Vera Caetano, que desempenha a função de frente de sala no TJLS. É ela que dá a cara. E quanto não é mesmo possível chegar depois da hora, as coisas podem complicar-se. Certa noite, um dos ‘clientes’ invadiu a plateia e só saiu arrastado pela polícia.

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Célia Neto, Eva Pereira e Carolina Guerra

Em 2011, último ano com estatísticas actualizadas, o TJLS acolheu 178 espectáculos, entre concertos, teatro, dança, novo circo, cinema, congressos e outros eventos. Os mais vistos são as produções musicais e de dança clássica e os teatros infantis de cariz comercial.

Nos bastidores, trabalha uma equipa de 26 pessoas, umas a tempo inteiro, outras a tempo parcial ou sem vínculo. Toda a contratação de eventos e gestão passa por José Pires, que responde ao vereador da Cultura, Gonçalo Lopes. Na fase de preparação do espectáculo age Carolina Pombeiro, responsável pelo marketing, relações públicas, comunicação e relacionamento com a produção e artistas. A designer é a colaboradora externa Frederica Biel. O apoio administrativo é assegurado por Helena Mesquita, Elisa Braceiro e Vera Caetano, que coordena os quatro assistentes de sala: Ana Silva, Patrícia Baptista, João Alexandre e Ricardo Boavida, além de seis colaboradores externos que podem ser chamados para completar o serviço, conforme a afluência de público (Catarina Domingues, Juliana Oliveira, Eva Pereira, Célia Neto, Sérgio Proença e Carolina Guerra). Na bilheteira estão principalmente Sandra Santos e Emília Gordo, esta uma das funcionárias mais antigas.

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Nesta, os técnicos de bastidores quiseram mesmo ficar nos bastidores

A área técnica (luz, som, maquinação de cena) é dirigida por Sérgio Roberto, com assistência de José Paulo e Amílcar Justino. Os projeccionistas de cinema (no Teatro Miguel Franco e em Monte Real) são Élio Santos e João Paulo. E depois há a equipa de limpeza – Isabel Gomes, Madalena Duque e Isabel Sousa – que o director José Pires considera embaixadoras. “Sabem todos os meses a programação que vamos ter e são também embaixadoras da divulgação daquilo que se passa no teatro”, afirma.

Emília Gordo, que todos conhecem por Mila, está há 23 anos na bilheteira e lembra-se bem da febre do cinema, das filas que quase davam a volta ao edifício e dos namoricos na plateia. “Houve pelo menos um casamento que nasceu aqui”, garante. As funcionárias tinham o curioso hábito de sentar meninas bonitas ao lado de meninos bonitos, sempre que os apanhavam a comprar bilhetes sozinhos. Era o tempo em que se tratavam os espectadores pelo nome e em que Emília Gordo via os filmes de pé, depois de fechar a loja, apanhando o fio à meada já com o comboio em andamento. Só uma excepção para o Titanic: “Fomos à matiné e abrimos a bilheteira mais tarde.”

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José Pires

A quinta-feira é hoje o dia forte na agenda do TJLS, que somou 56 mil espectadores em 2011. “Neste momento, não dá para fazermos a programação desejável, mas sim a possível”, refere o director José Pires, aludindo aos constrangimentos orçamentais que afectam o município e o país. “Por exemplo, em 2007, ano da reabertura do Teatro, a programação foi apoiada com 635 mil euros. É uma programação que nunca mais vamos voltar a ter. Actualmente, a estimativa para 2013 é de 228 mil euros e inclui receitas de bilheteira ainda não realizadas”, descreve.

Ainda assim, dá para alguns brilharetes. Em 2013, Rodrigo Leão começou em Leiria a sua nova digressão, Deolinda e Adriana Calcanhoto estão confirmados, além de um inédito local: a Orquestra de Jazz de Leiria vai actuar com David Fonseca, a 21 de Maio, véspera do dia da cidade. “Este é um teatro municipal. Não nos podemos sujeitar a tudo, mas temos de ter uma programação eclética, no sentido de contentar todos os públicos”, afirma José Pires, crente que “o teatro tem tido uma dinâmica na cidade que às vezes passa despercebida”.

A história do TJLS em: www.teatrojlsilva.pt/#/tjls

Texto de Cláudio Garcia
Fotografias de Ricardo Graça

(Publicado em 28 Fevereiro 2013)