mulher num tunel

Capítulo quarto, por Simão Vieira, de uma colaboração entre diversos escritores, em fascículos semanais, a fazer lembrar os velhos folhetins que eram publicados nos jornais. Pretende-se, basicamente, contar uma estória a várias vozes. O ponto de partida é a fotografia aqui apresentada.

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL: UM FOLHETIM

Capítulo IV – Faneca, o alquimista, conta das vidas de Jorge, seguido da apresentação de Aldo Berengário

Texto de Simão Vieira

1. Ditos de Jorge dos Santos Rocha anotados por Faneca, o alquimista

“O que me tirou o sono? Quando era miúdo, os romances de cavalaria. Depois, a cavalaria dos romances. E alguns filmes americanos velhinhos, em sessão contínua, cá dentro. Assim me fugiu o coração para a noite, mas sempre com as palavras. Sobretudo a fixação pelos nomes. Inventava-me detective particular, o que até poderia explicar o caderninho organizado pelo alfabeto (nomes e contactos femininos, seguidos de notas libertinas). A páginas tantas, experimentei apresentar um cartão – e o serviço foi aparecendo.”

Grau de rigor: 7 na escala de Jameson (1 a 10).
Restaurante Solar do Sistema, Setembro de 2002.

“Conheci Maria Adelaide e imaginei-me num filme do Hawks, mas ela era mais uma Nancy Guild – e Nancy Guild é com o George Montgomery, dirigidos por John Brahm, o que está muito bem, porque eu dou ares do Montgomery, embora, peneiras à parte, eu tenha um mood mais de Bogart em The Big Sleep. Funcionária de uma repartição de finanças, tratou-me da papelada que faltava para me resolver como Detective Particular. Linda e metódica, a Maria Adelaide.”

Grau de rigor: 2 na escala de Grouse (1 a 10).
Clube Undress Code, Maio de 2003.

“Seria ridículo ter outra Maria Adelaide. Seria proibitivo ter uma Dina, Dinamene ou, até, Eva. Mas tornar-se-ia sistémico ter ainda uma Adelina e uma Adèle. Os nomes, pois. Ateou-me todo saber que aquela nova fulguração de Nancy Guild se chamava Adelina. Optometrista vagamente casada (coisa superada em menos de um mês); boa de ver ao longe, muito boa de ver ao perto.”

Grau de rigor: 1 na escala de Morgan (1 a 3).
Bar Rumo ao Rum, Fevereiro de 2013.

 “Quase trinta anos mais nova do que eu, vinte e cinco anos mais nova do que Maria Adelaide e vinte anos mais nova do que Adelina: Adèle, estudante de cinema. E a subtileza francófona: ‘Porque escrevem o meu nome com o acento ao contrário? Que mania de bouleverser o meu acento!’ e ‘Faz atenção, Georges’. Ah, Adèle. Sabes, dei-lhe o colar de ouro que pertenceu à minha avó Gertrudes, que também lembrava Nancy Guild – mas com um não-sei-quê predatório de Ava Gardner.”

Grau de rigor: 10 na escala de Vimeiro (1 a 10).
No regresso do funeral do Magalhães “Caganeiras”, Novembro de 2012.

“Faneca, alquimista… Que foi?! Para mim és um alquimista: um sábio que percebe de misturas… Lembras-te daquela coisa especial que te encomendei, até lhe chamaste Pílula do Sono Perfeito? Olha, neste chavascal do caso Aldo Berengário, resolvi guardá-la no meu frasquinho para eventualidades, como a de ir parar a uma câmara de tortura. Todavia, é mais provável do que um lacaio do Berengário me dê uma castanhada seguida de injecção de substância letal e indetectável.”

Grau de rigor: 3 na escala de Barcamanca (1 a 10).
Adega Peravelha, Fevereiro de 2013.

2. Parece um filme – Faneca descreve a cena da estação de correios

Respeitando uma vontade do Jorge, vigio a estação de correios onde ele sempre fez entregas e levantamentos do serviço. Batem as cinco da tarde. Surgem as mulheres, cada uma saída do respectivo carro preto com motorista (detalhe previsto para a ocasião em nota do testamento). À entrada, apresenta-se um estagiário do escritório de Pedro Leôncio, com carinha de bufa. Tudo tão rápido. Tch. O miúdo cumpre o papel, faz momices e entrega a Maria Adelaide, Adelina e Adèle chaves de caixa postal. Elas averiguam os números. Num olhar periférico, descobrem-se avançando para pontos espaçados: torna-se menos constrangedor (Jorge pensou em tudo). Abrem as caixas. Sei que nenhuma olhará directamente para qualquer das outras. Elas que são todas outras e todas a mesma. Nancy Guild, pois. É estranho, mas muito bonito. Das caixas, recolhem um dossiê. Suspendem-se, por um instante, a entender. Atrapalham-se na entrega das chaves ao carinha de bufa. E desaparecem, de volta aos carros pretos. Fade out.

3. Mais uma declaração de Jorge dos Santos Rocha anotada por Faneca

“Caso tudo se desenvolva como imagino, as minhas três mulheres receberão cópias com o que importa sobre o caso Aldo Berengário, incluindo elementos que poderão revelar a verdadeira causa da minha morte e a estratégia para obter uma grande soma. Sim, Faneca: deixo o serviço com elas. Desafiar mulheres nestas condições é invocar uma força do tamanho do mundo. De resto, se elas fizerem tudo bem, também te deverá calhar algum. Porquê? Porque te apresento como um importante consultor e, na papelada, segue o teu endereço electrónico. Deves responder. Dei-me ao trabalho de coligir os teus dados, prevendo uma transferência interbancária no valor de dez por cento do montante. E acho um piadão descobrir ao fim de tantos anos que te chamas mesmo Faneca. Julgava que era alcunha. Ahn? Porquê?! A sério, tu estuda-me bem as fanecas e diz lá que não.”

Grau de rigor: 8 na escala de Haddock (1 a 10).
Bar Ouisky, Janeiro de 2013.

4. A normalidade, coisa feita sobre o escuro

Aldo Berengário apaga a luz. Esforça-se para acreditar que a sua respiração é a de outro corpo, uma fera que nasça do escuro. Acende a luz: aquela impressão de ordem suspeita, como se um monstro se tivesse escondido no limite, mesmo antes de a atenção rolar para lá. Aldo aperta a gravata para ficar mais amarrado à normalidade. O conjunto funciona em tons metálicos e científicos, que realçam o escanhoado perfeito. E os dentes. Continua a parecer-lhe inteligente a decisão de não ter mandado ajustar por completo um canino. No seu entender, importa conservar um detalhe que evoque a vida selvagem, a sucessão de vitórias sangrentas que permitiram o contrato social e os gordos frutos da civilização. Sente-se pronto. O vestiário no gabinete foi uma óptima ideia. Antes de aparições importantes faz sempre este jogo: desliga a luz, imagina coisas, redescobre a força descomunal dentro de si, e volta a acender a luz para testar a figura. A noite é de Grande Entrevista no canal de maior audiência.

(Publicado em 7 Março 2013)