mulher num tunelCapítulo quinto, por Carmen Zita Ferreira, de uma colaboração entre diversos escritores, em fascículos semanais, a fazer lembrar os velhos folhetins que eram publicados nos jornais. Pretende-se, basicamente, contar uma estória a várias vozes. O ponto de partida é a fotografia aqui apresentada.

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL: UM FOLHETIM

Capítulo V – Ténue luz no meio da estrada

Texto de Carmen Zita Ferreira

Maria Adelaide volta ao apartamento na Rua da Alegria depois de ter recolhido o dossier que lhe coube em herança. Antes de entrar detém-se na placa com o nome da rua na esquina do prédio. “Há quem chame a isto ironia”, pensa.

Desde o último dia dos namorados, em que receara receber uma surpresa idiota do Jorge, que não tem parado de receber surpresas obtusas do mundo inteiro. Do mundo do Jorge, esse ilustre desconhecido.

Entra no apartamento e fica quieta, encostada à porta da sala, a observar o espaço. “O apartamento está mais pequeno. Seria de esperar que ficasse mais espaçoso, com a ausência do Jorge. Mas não.” Maria Adelaide sente que os objectos que Jorge lhe deixou estão a duplicar de tamanho e que a herança lhe está a entrar pelos olhos dentro, até contaminar a alma. “Isto deve estar a acontecer por eu não ter vertido uma única lágrima. Só pode ser.”

Lembra-se depois de não ter ainda aberto o dossier que segurava junto ao peito. Veste o pijama vermelho, calça as pantufas azuis e senta-se no sofá da sala, com o dossier preto no regaço.

Começa a ler cópias de um caso que Jorge Rocha investigara nos últimos meses. Aldo Berengário era o nome a reter.

Maria Adelaide nunca se interessara pelo trabalho do marido. Os únicos aspectos positivos desse trabalho inútil eram as horas do dia que ele passava fora de casa e as noites em que nem voltava, para não perder uma pitada da vida das pessoas que investigava. Agora que conhecera Adelina e Adéle começava a compreender o motivo de tão longas ausências.

“Aldo Berengário. Este nome diz-me alguma coisa.” Maria Adelaide tenta encontrar no longo labirinto da memória um rosto para juntar ao nome. Desvia o olhar em jeito de concentração e encontra a capa da Revista Faces. Ali estava ele. Conjunto em tons cinza, cabelo curto e bem penteado, sorriso perfeito, à excepção de um canino, levemente desajustado. “Mas porque foi o Jorge investigar peixe graúdo?”

Mulher independente e soberana nos destinos da sua vida sentia agora que tudo lhe escapava, a si e ao seu controlo. Esta era uma sensação desconfortável, que sabia que não ia suportar por muito tempo.

Num ápice, lembra-se de ter apontado a morada de Adelina e Adéle na agenda depois de ter saído do consultório do advogado. Seria a primeira a tentar contactar com as outras. Seria talvez pouco, mas esse era o primeiro passo para voltar a seguir no túnel da sua vida à procura da ansiada luz.

Troca de roupa, agarra nas chaves do carro e faz-se ao caminho era já noite cerrada. Afasta-se da cidade, seguindo por uma estrada que nem merecia o nome de nacional. Ao quinquagésimo quilómetro da noite, já de olhos embaciados pelo sono, Maria Adelaide avista uma ténue luz. Seria a luz que tanto procurara toda a vida?

Entusiasmada pela possibilidade, carrega no acelerador, sem qualquer receio.

“Está alguma coisa no meio da estrada! Estou perto demais! Não consigo parar! O que é isto? Adéle!”

Abranda o carro e fixa os olhos no espelho retrovisor, tentando identificar o vulto curvado e escuro que permanecia no meio da estrada. Um calafrio percorre o seu corpo, com maior intensidade nas mãos que, apoiadas no volante, parecem fracos ramos numa tempestade.

O carro pára finalmente. Está alguns segundos, que lhe parecem horas, quase sem respirar. Receava que a sua respiração pudesse trazer ou tirar de vez a vida ao escuro vulto que acabara de pisar.

“Como foi isto acontecer? E agora, faço o quê? Não passa vivalma nesta estrada! Não fui eu! Não fui eu! Aquilo já estava ali, direi se alguém passar e perguntar.”

Respira fundo, abre a porta e sai devagar do carro, sem saber ainda o que fará quando se debruçar no meio da via sobre o corpo, ainda quente, que acabara de derrubar.

Na penumbra, a uma distância aceitável na escala elementar dos detectives privados e a tirar apontamentos, Faneca, o alquimista.

(Publicado em 14 Março 2013)