mulher num tunelCapítulo sexto, por Sandra Martins Fragoso, de uma colaboração entre diversos escritores, em fascículos semanais, a fazer lembrar os velhos folhetins que eram publicados nos jornais. Pretende-se, basicamente, contar uma estória a várias vozes. O ponto de partida é a fotografia aqui apresentada.

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL: UM FOLHETIM

Capítulo VI –  Gravação em que Faneca, o alquimista fala sobre o [in]esperado acidente em jeito de notas para o seu policial-poético

Texto de Sandra Martins Fragoso

Adelaide sai do carro com uma perceptível película de culpa a sair-lhe dos poros. Pobre Adelaide. Tanto que a vida a tem lixado num espaço-tempo tão curto. Parece mesmo que alguém se ri às gargalhadas do seu simples desejo de chegar à cobiçada luz ao fundo do túnel. Vem a cambalear, arrastando-se numa composição de gestos ocos com a intensidade definida da descoberta atroz. Parece que os passos lhe pesam como a grotesca anatomia conjunta de dez mil homens. Caminha absorvendo em si toda a paisagem como num vórtice, num buraco negro sem fim. Acabou de se aperceber do BMW z3 parado, de capô aberto, na berma da estrada como se fosse uma breve planície de metal por entre uma neblina de prata. Vejo-lhe, ao longe, os olhos alucinados e raiados de sangue quando encontra o vulto no chão. Caem-lhe, da pele, pequeninas gotículas azedas de pânico púrpura. Dá um grito, num som grotesco, como se fosse um rio de desolação ao olhar para o rosto meio comido pelo terrível asfalto – conivente do assassinato.

Adelaide volta ao carro. Parece que lhe ouço um suspiro de fera enjaulada. Deixou cair o telemóvel e voltou a gritar qualquer coisa. Falou com alguém. Decerto com a polícia. Quase de certeza que ouve orquestras de vozes negras que lhe asfixiam a dúvida, que lhe alimentam o desespero. Senta-se no banco do carro, cabisbaixa, a olhar a negritude infinita do alcatrão com as suas pequenas asas em desalinho. O tempo passa devagar.. O..t.e.m.p.o..p.a.s.s.a..m.e.s.m.o..m.u.i.t.o..d.e.v.a.g.a.r.. Acaba por sucumbir. Cai-lhe o corpo exausto – para o frio asfalto – fragmentado e suturado por um mar imenso construído pela culpa e pelo sal dos olhos.

A polícia aproxima-se movendo-se como um chacal por entre as sombras. Adelaide não se mexe. Continua na mesma posição. Não sei se está consciente. Vejo todo o aparato-padrão numa cena destas. Recolhem o cadáver da mulher de rosto meio comido pelo asfalto. Parece cena de filme. Aproximo-me de um técnico do INEM para confirmar a identidade da acidentada e esbarro-me com um fantasma convulso que esventra os segredos dos vivos. É ela. É mesmo ela. Adèle. A bem-amada Adèle ou é metade do seu – outrora – belo rosto. Tch! O Jorge deve estar a rolar na sepultura chorando e glosando das qualidades da misteriosa amante, agora morta. Para sempre morta.

Adelaide é levada noutra ambulância mas não me pareceu ver-lhe ferimentos. Inspecciono o local do crime. Perdão, do acidente. E, nos meus extremos pensamentos, queda-se o pressentimento de algo muito maior que me escapa agora. Regresso à cidade. Enquanto conduzo sinto uma amarga pausa na vida como dedos finos de um destino que na minha pele pernoita. Tenho de pensar rápido. Tenho de encontrar o dossier negro que coube a Adèle. Tenho de ser breve. Ou corremos o risco de sermos descobertos. Passam os minutos, rapidamente, num uivo dúbio de sol nascente. Reviro o BMW z3 de Adèle. Encontro-o. Missão cumprida. Mas, espera aí… a tipa não era estudante de cinema?! Vou directo ao hospital com um pensamento insigne.

Visito a Adelaide, a pobre e desalinhada Maria Adelaide, no quarto de hospital. Responde às perguntas da polícia. A polícia demora-se. Fica sozinha. De novo o mesmo olhar vencido. Vejo-a a esgotar-se, a estrangular-se e a tentar arrancar a tez rosada como que mordendo de culpa por dentro. Adelaide está tensa. Aproximo-me. Apresento-me. Reconhece-me dos papéis do Jorge. Imito-me de matéria explícita e tumescente para tentar extrair-lhe o eclipse que lhe rasga o peito. Interrogo-a. Fita-me balbuciando palavras sem nexo como que incendiando as sombras no quarto. Acabou de saber. Acabou de ser informada. A polícia não poderia mentir. O vulto que atropelou era a menina-amante do seu marido, Adèle. A Adèle que devia estar na casa de Adelina à sua espera como tinham combinado ontem à noite. “A misteriosa Adèle. A sensual Adèle.” E, subitamente, os seus olhos tornam-se rochedos tecidos por chamas do inferno. Quase parece uma bomba humana: Adèle, a p*ta mais nova que o Jorge andou a comer nas noites de suposta vigília a maridos adúlteros.” Ah… a estúpida e brilhante ironia! “Mas afinal porque é que quando já estou a nadar em merda vem outra merda ainda maior que me atafulha ainda mais na acastanhada arrastadeira em que se tornou a minha merdosa vida?” Tch…. eis que esgrimem na consciência de Adelaide – verdadeiramente… violentamente – a hipotérmica mentira de uma vida monótona a dois e a bem escondida verdade de uma vida inebriante a quatro! “A omissa Adèle. A ‘mortinha da silva’ Adèle.” E continuou. A polícia não poderia mentir. O vulto que ela atropelou era, afinal, Adèle da Silva Berengário, filha única de Aldo Berengário, jet set português. Coitada da Adelaide, leio-lhe no olhar espelhado: a frágil felicidade caiada no túnel é, agora, treva profunda sem um único raio de luz. “A morta Adèle. A Adèle com o rosto meio comido pelo asfalto. Adèle… aquela grandessíssima p*ta… amante daquele grandessíssimo cabrão!”

Afinal será que a tipa se aproximou de Jorge a mando do mafioso paizinho Berengário ou foi Jorge, o sedutor que se serviu da menina para sacar informações sobre o velho endinheirado? Será que foi tudo planeado por Jorge, o Cabrão ou por Adèle, a p*tinha do colar de ouro?

(Publicado a 21 de Março de 2013)