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Não é um sofá nem um divã, é uma espreguiçadeira. Uma vez por mês, a Preguiça convida alguém a pôr-se confortável e responder a 12 perguntas sobre livros. A terceira vítima foi o realizador e produtor Pedro Neves, que saiu de trás da câmara para nos contar o que lhe vai na alma… e nas estantes, claro.

1. O que estás a ler neste momento? Recomendas ou nem por isso?
O Livro, de José Luís Peixoto. Recomendo vivamente.

2. O que mais facilmente te leva a pegar num livro: a capa, o título, o autor, os amigos ou os desconhecidos?
O autor. Contudo, confesso que gosto muito de uma boa e bonita capa. Deixa-me só que te conte uma pequena história que aconteceu há uns anos: ao passar numa livraria no Porto vi um livro chamado O Remorso de Baltazar Serapião, de um tal valter hugo mãe, escrito a letras minúsculas. Peguei-lhe por achar piada ao título e tinha ouvido falar vagamente do autor. Quando li, na contracapa, o José Saramago a perguntar se nenhum sismógrafo tinha registado nada quando o livro saiu, tive de o comprar. Quem é que resiste a saber o que está dentro de um livro que deveria ter provocado um terramoto? Tinha razão, o nosso Nobel. É um livro prodigioso.

3. Diz-nos um autor que descobriste ultimamente e tens pena de não ter descoberto mais cedo.
Ainda não o descobri, mas acho que vou ter pena de não ter lido ainda o José Rodrigues Miguéis, o Ferreira de Castro e o J. Rentes de Carvalho, do qual a minha mãe me mostrou umas passagens de que gostei muito.

4. Se houvesse um incêndio na casa do teu vizinho, que livro aproveitavas para atirar para a confusão?
Se tivesse algum da Margarida Rebelo Pinto não hesitava um segundo. Não simpatizo com aquele tipo de literatura e menos ainda com a personagem. Mesmo com o downgrade que disse ter feito há pouco tempo.

5. O bichinho dos livros passa de pais para filhos? Conseguiste contagiar a tua filha ou ela é imune?
Passa, claro! Eu sempre tive pais e avós leitores e não tenho dúvidas de que isso me influenciou. A minha filha sempre adorou livros, mesmo que o computador e a televisão exerçam uma atracção quase magnética por serem meios muito chamativos e de fácil descodificação. Todavia, há coisas que só a leitura nos permite: imaginar cenários, locais, personagens… dá-nos uma capacidade de abstracção incrível.

6. Se fosses uma personagem do Farenheit 451 (Ray Bradbury/François Truffaut), que livro gostarias de memorizar para garantir que sobrevivia à passagem do tempo?
Acho que enlouqueceria se memorizasse um livro, fosse ele qual fosse.

7. Já te rendeste ao tablet? Ou és fiel ao papel em toda e qualquer circunstância?
Não me rendi ao tablet, embora reconheça que parte do futuro poderá passar por aí. Gosto de folhear um livro, de o levar sem preocupações para qualquer lado. Gosto de o agarrar, de lhe sentir o cheiro, de ver os amontoados de palavras. Não me imagino a ler um livro com os e-mails a cair, as mensagens a chegarem e uma panóplia infernal de coisas a acontecer ao mesmo tempo. É mais ou menos como quando tentamos ver um filme na televisão e toca o telefone, somos chamados por alguém, temos de comer pelo meio ou alguém nos pergunta alguma coisa. É por isso que, sempre que posso, vou ao cinema…

8. Há algum livro que queiras ler há muito tempo, mas ficas sempre pela intenção?
Há dois: O Som e a Fúria, do William Faulkner (que anda comigo de um lado para o outro há anos) e o Império, do Gore Vidal.

9. A partir de quantas páginas um livro te desmotiva a pegar-lhe? (E qual foi o maior calhamaço a que já te aventuraste?)
O número de páginas não me desmotiva. Talvez isso me aconteça mais com os livros de capítulos enormes. Um livro de capítulos curtos, seja qual for o número de páginas, lê-se rapidamente. Só tem de ser bom.

10. “Não negue à partida um género que desconhece” podia ser o teu lema? És transversal, quanto a géneros e estilos de escrita, ou tens claramente favoritos e suspeitos?
Tenho suspeitos e favoritos. E tenho ainda algumas pessoas em cujos gostos confio muito e me vão mostrando novos autores de diferentes géneros.

11. O que é preciso para se ser um leitor com L grande? Isso é uma espécie em vias de extinção?
É preciso gostar de ler. E ter a sorte de ser bem aconselhado na leitura. A vida é muito curta para perder tempo com livros maus, quando, ainda por cima, há tantos autores tão bons.

12. O que achas verdadeiramente de alguém que tem uma casa sem livros?
Acho que é alguém de quem desconfiar seriamente.

Questionário de Catarina Sacramento
Ilustração de Rui Cardoso
Fotografia de Ricardo Graça

(Publicado em 21 Março 2013)

Pedro Neves _ PM

 

• Pedro Neves nasceu em Leiria em 1977. Licenciou-se em Ciências da Comunicação, no Porto, mas especializou-se na área do documentário, na qual tem sido várias vezes premiado.
O seu primeiro documentário, A Olhar o Mar (2007), venceu o Prémio do Público do Festival de Cinema e Vídeo de Vancouver. No mesmo ano, co-realizou a curta-metragem documental En la Barberia (Cuba). Em 2008 realizou e produziu a série de curtas-metragens Pobreza no Porto, para o jornal Expresso.
Realizou e assinou a fotografia do documentário de criação Os Esquecidos (2009), que conquistou o prémio de Melhor Filme no Festival Extremadoc, em Cáceres (2010), na categoria Transfrontera. No mesmo ano produziu, montou e dirigiu a fotografia da curta-metragem de ficção Raízes, realizada por Carlos Ruiz (prémio de Melhor Filme no Festival Filminho, na categoria de Cinema Minhoto e prémio Bracara Augusta Award, no Festival Bragacine, ambos em 2010).
Produziu e montou ainda o documentário de criação Desplazados (2010), de Tim Hawkins, produziu a longa-metragem de ficção Love Film Festival (2010), de Vinicius Coimbra, e realizou Desencontros (2010), presente no Panorama do Documentário Português 2011.
Foi fundador do projecto de web TV de divulgação cultural inculta.tv e actualmente é júri do Festival de Curtas-Metragens Shortcutz. O seu último filme é a curta-metragem Água Fria (2011), distinguida com o Prémio Europa para Melhor Curta-Metragem Europeia no Filmets Badalona International Short Film Festival (Espanha) e com a Menção Especial do Júri em três festivais: Documenta Madrid, em Espanha; Mecal Short Film Fest of Barcelona, em Espanha, e Martil Film Festival, em Marrocos. Na gaveta dos troféus de Pedro Neves, o mais recente é o de Melhor Realizador Leiriense, que levou este fim-de-semana, 16 de Março, do Leiria Film Fest.