mulher num tunel
Capítulo sétimo, por António Martinho, de uma colaboração entre diversos escritores, em fascículos semanais, a fazer lembrar os velhos folhetins que eram publicados nos jornais. Pretende-se, basicamente, contar uma estória a várias vozes. O ponto de partida é a fotografia aqui apresentada.

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL: UM FOLHETIM

Capítulo VII – Que luz intensíssima

Texto de António Martinho

Que luz intensíssima fez implodir o túnel que continha a minha darkness! Agora, no seu lugar paira uma claridade que me cega e desvaria e me obriga a cerrar os olhos para sentir o corpo a desacelerar e a tentar atingir a calma que me faça obnubilar para não perceber nem sentir.

Cheiro o odor viciante do suor que te alaga a nuca. Apago a luz. Sinto o teu respirar ofegante no escuro e esforço-me para acreditar que é outro corpo e não o teu que respira aqui, hoje.

Hoje decidiu ajoelhar-se por trás de mim e ladrar; e chama-me sua cadela e baba-se no meu pescoço. E perturba-me ainda mais porque me está sempre a pedir que lhe faça perguntas inteligentes.

Aperto-te os flancos e percorro-os com os dedos até à cintura. Estou aqui, atrás de ti, a imaginar que és a Sandra F., a cabra da Grande Entrevista, que me enfureceu com as perguntas sobre a Adèle e sobre o Rocha e sobre os crimes que acha que os meus homens cometeram e os títulos das capas das revistas cor-de-rosa e o raio…

Tenho de continuar a tentar distrair o corpo com o pensamento. Esta fúria nova nele deve ser provocada pela dor que sente pela morte da filha. O que é estranho: desde que a expulsou de casa, nunca mais falou com ela.

Quando abriram o caixão na capela mortuária e vi o corpo, não senti qualquer tipo de emoção. Parecia-me apenas que estava perante um invólucro inerte que antes continha a Adèle, mas que agora estava vazio. E tenho-me questionado se senti isso por já não falar com a minha filha há muito tempo, apesar de os meus homens me manterem informado sobre tudo o que se passava com ela, ou se sentiria o mesmo se ela ainda vivesse comigo.

A minha fraqueza, tão humana, explica a minha renúncia e a aceitação deste poder que domina o mundo, desde sempre.

A Adèle tinha logo de contratar aquele detetivezeco para me investigar. E, como se não bastasse, enrolou-se com ele.

Um movimento meu em falso remeterá o tronco impróprio para a origem… da raiz e para o fim… da glória: chorarão os meus olhos?

Cuspo nas mãos e humedeço-o para que entre mais facilmente. Não é a tua dor que me preocupa. Antes pelo contrário: quanto mais gemeres e te queixares mais me excitas. Não quero ficar com ele a arder.

Que acidente estúpido: a Adèle devia estar muito descontrolada para se meter assim no meio da estrada a pedir ajuda para lhe resolverem o problema do carro. Ui! Foda-se! O que é que ele está a fazer?

Unto-te o cu com vaselina e começo a introduzi-lo… mafioso… a cabra da televisão atreveu-se a perguntar-me se eu tinha noção da minha fama de mafioso. E só me lembrei de lhe dizer que quando comecei a trabalhar, aos catorze anos, já me chamavam chefe.

Ai! Que dor! Só me faltava mais esta! Dóóói-meee! És tão selvagem!

Agarras-mo e orienta-lo para que entre melhor. Não sei se te queixas porque te dói ou por prazer. Mas pouco me importa. O gozo aumenta à medida que aumentam os decibéis com que tu gritas e a velocidade com que to enfio.

Mordo a língua com tanta força que sinto o sabor do sangue a misturar-se com a saliva e engulo-o para convocar algum prazer… que me ajude a suportar o ardor e as investidas.

Sinto a espinha a arquear com a força descomunal que estou a fazer e refreio os movimentos com receio de que me quebre.

Grilo, grilinho, sai do buraquinho, grilo, grilinho…

O Rocha é que se quebrou, coitado. A tentativa de chantagem correu-lhe mal.

Sob a tília prateada, rosmaninha o meu espírito cansado de vaguear…

É melhor acender a luz.

Acende a luz e eu procuro agora distrair-me revendo os pormenores do vestiário: conheço todos os ângulos e recantos deste espaço demasiado bem. O Aldo parece estar a iniciar o sprint final. É melhor recomeçar a gritar.

E eu grito também, enquanto desvario e te arranho as nádegas e as pernas generosas: Adelina, Adelina, sua fêmea puta e felina! Mais uma vitória! Venha o hino triunfal!

A vida ensinou-me que o que mais nos enlouquece é o que não conseguimos compreender: amava-o tanto e, se calhar por isso mesmo, não consigo aceitar que o Jorge tivesse planeado o meu papel de Mata Hari para descobrir os podres do Aldo e andasse enrolado com a Adèle. E ainda se armou em bom samaritano com ela, já que o pai a deserdou. Mas não importa, isso não me vai abalar: vou cumprir a minha missão, estoicamente, até ao fim.

(Publicado a 28 de Março de 2013)