PAULO MOREIRAS _ PREGUIÇA 2

Apesar de se socorrer constantemente da música dos Faith No More para lhe fazer companhia durante o processo de escrita, Paulo Moreiras é um homem de muita fé naquilo que faz. Com três romances publicados e um quarto a caminho, é um caso raro no País de uma troika bem-sucedida: literatura, história e gastronomia.

Assume que não sabe fazer mais nada senão escrever e, como tal, assume-se como escritor freelancer. Não quer com isto dizer que esteja rico e se tenha aburguesado numa mansão isolada algures numa montanha, mas precisamente porque, para viver, faz todo o tipo de trabalhos escritos que lhe encomendam.

Na ficção, escreve romances históricos, e a pesquisa é o que lhe ocupa mais tempo. “Sou extremamente minucioso com isso, e enquanto não tenho a certeza de estar na posse da informação que eu quero, vou continuando. E muita dessa investigação continua já depois, ou durante a composição do romance. Acontece muitas vezes, já o romance estar quase finalizado, eu descobrir uma informação, saber que ela é importante para o livro e ir lá acrescentar esse dado novo”, refere o escritor ao nosso magazine.

Crítico da actual situação política do País, afirmou recentemente ao Jornal de Letras naquele tom satírico que se pode encontrar nos seus livros: “A classe política é composta por uma cambada de amanuenses, mangas de alpaca, subservientes a interesses económicos que lhes trazem curto o cabresto.” E acrescenta: “E enquanto tiver engenho e arte irei continuar a escrever de forma satírica e jocosa para castigar os costumes.”

Começou pela banda desenhada, também experimentou a poesia, mas foi pela porta da gastronomia e etnografia que ganhou os seus primeiros prémios, com o Elogio da Ginja (galardoado com os Prémios Gourmand pelo júri internacional dos Gourmand World Cookbook Awards 2006), juntamente com o fotógrafo Paulo Cunha. O que o levou a escrever esse livro, foi precisamente por ter pedido uma ginja num sítio, onde, por ignorância, lhe responderam que era bebida de taberna.

Mas a sua estreia na ficção em 2002 também foi fulgurante, com A Demanda de D. Fuas Bragatela, que arrecadou muito boas críticas à época. Em 2009, o segundo romance, Os Dias de Saturno, valeu-lhe novo prémio Gourmand World Cookbook Awards, onde aliou o humor e o dramatismo à gastronomia, ciência e história.

Dentro das suas narrativas encontra-se a também a figura do anti-herói, ou aquele tipo que andava metido na sua vidinha sem levantar ondas, mas que subitamente se vê envolvido numa trama – desculpem a repetição – tramada, como no livro O Ouro dos Corcundas, de 2011.

Nesta vertente da sátira, do humor, do pícaro (o malandreco cheio de esquemas), Paulo Moreiras encontra muita afinidade. O escritor percebe, assim, porque é que ao longo do seu percurso certos autores lhe ficaram mais na memória do que outros, aliado também ao fascínio das palavras, de vocabulário hoje já pouco usado ou mesmo esquecido.

E como tem um olhar crítico sobre os dias que correm, na relação com esse género, com essas características, Paulo Moreiras encontra terreno fértil para escrever: mesmo sendo um romance histórico, há sempre ligação com a actualidade. Paulo Moreiras não pretende escrever livros de história, mas sim, dentro da história, preencher os espaços com a sua imaginação.

A ligação ao teatro também é uma realidade. O escritor sempre teve o desejo de experimentar essa linguagem e deu-se através do grupo TAP (Teatro Amador de Pombal), que o convidou há uns anos para escrever um texto para eles. No decorrer das conversas surgiu a proposta de adaptar A Demanda de D. Fuas Bragatela.

Ao princípio, o escritor não achou que fosse possível, mas depois de uma conversa e leitura com o encenador Rui M. Silva, o espectáculo A Demanda foi possível de concretizar através do trabalho do autor, encenador e também do elenco composto por Bruno Cardoso, Catarina Ribeiro, Humberto Pinto, Inês Falcão, Luís Catarro e Rita Leitão. “Apesar da sua base, o espectáculo hoje é independente do romance”, esclareceu à Preguiça.

A residir em Vermoil, concelho de Pombal, Paulo Moreiras nasceu em Lourenço Marques, Moçambique, e para além dos romances, publicou obras ligadas à gastronomia, etnografia, assim como uma série de opúsculos (pequenas obras) em colaboração com o Instituto de Estudos de Literatura Tradicional.

Entre Setembro e Outubro de 2010 esteve numa residência artística na Ledig House International Writers Residence, em Nova Iorque, e desde Dezembro de 2009 é membro colaborador da equipa de investigação do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa.

Não quis revelar sobre o que está a escrever para o próximo romance, mas pelo menos já se sabe que a obra está em movimento. Resta então aguardar por mais aventuras históricas, pelo olhar bem-humorado de Paulo Moreiras, onde não faltará decerto material comparável com os dias de hoje. Poderia muito bem ser um pajem inspirado na figura de Fernando, mais conhecido como ‘Cabeças’, ou outro personagem igualmente peculiar.

Ainda antes das barracadas com as licenciaturas de Sócrates ou Relvas, já em 2002 Moreiras escrevia no seu romance de estreia, A Demanda de D. Fuas Bragatela:  “Arribou seguidamente a Salamanca, fazendo-se passar por licenciado em Medicina, e regressou à pátria com o cheiro da peste colado às narinas.” Ele há com cada premonição…

Bibliografia de Paulo Moreiras

BI da Fava (Apenas Livros), 2011

BI da Rede de Dormir (Apenas Livros), 2011

O Ouro dos Corcundas (Casa das Letras), 2011

BI da Morcela (Apenas Livros), 2010

BI da Perdiz (Apenas Livros), 2009

Os Dias de Saturno (QuidNovi), 2009: Prémio Gourmand na categoria Best Culinary History Book, atribuído por um júri internacional do concurso Gourmand World Cookbook Awards 2010)

BI do Tremoço (Apenas Livros), 2008

BI do Palito (Apenas Livros), 2007

BI da Cereja e da Ginja (Apenas Livros), 2007

Elogio da Ginja (editado pela Noctívaga Editores em 2001 e reeditado pela QuidNovi em 2006): vencedor dos Prémios Gourmand Best Single Subject Cookbook e Best Cookbook Photography, pelo júri internacional dos Gourmand World Cookbook Awards 2006

Do Obscuro Ofício (Noctívaga Editores), 2004 (poesia): vencedor do Prémio Literário Afonso Lopes Vieira, Leiria

A Demanda de D. Fuas Bragatela (editado pela Temas e Debates em 2002, reeditado pelo Círculo de Leitores em 2004 e reeditado pela Casa das Letras em 2012)

Hermínio, Regresso a Portucale, com argumento de Paulo Moreiras e desenhos de Victor Borges (Pedranocharco Publicações), 1996

Texto de Pedro Miguel
Fotos de Ricardo Graça
(Publicado a 28 Março 2013)