mulher num tunelCapítulo oitavo, por Fernando José Rodrigues, de uma colaboração entre diversos escritores, em fascículos semanais, a fazer lembrar os velhos folhetins que eram publicados nos jornais. Pretende-se, basicamente, contar uma estória a várias vozes. O ponto de partida é a fotografia aqui apresentada.

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL: UM FOLHETIM

Capítulo VIII – Mulheres iluminadas

Texto de Fernando José Rodrigues

Sentia urgência em falar com ela e por isso viera depressa, tão rapidamente quanto o permitia o seu ainda débil ânimo. Estava suada e com a camisa agarrada à pele, o cabelo era um emaranhado de odores, uma pasta alapada sobre a cabeça que teimava em doer. Sistematicamente, desde o dia. Aquele dia. Queria ir para casa e deixar-se adormecer entre água de jasmim, quente e tranquilizante. Mas não era chegada a hora. Sabia que algures na cidade, e num tempo que não podia descortinar, um perigo se escondia, capaz de se tornar em algo letal. O que o inspector lhe comunicara era tão grave, tão desumano e tão criminoso que havia que fazer das fraquezas as forças que sabia não possuir.

Preparava-se para bater à porta castanha gasta do apartamento quando de lá de dentro escutou uns grunhidos e uns ais, Valha-me Deus!, disse para si, procurando melhor encostar o ouvido. Não havia dúvidas,

Ai a grande v#%&!,sibilou,

Jorge ainda nem começou a reconhecer a nova morada e já ela está lá dentro, a gozar, com o cio de uma cadela, a esfregar-se num qualquer, às tantas vai à rua e apanha o primeiro, os arfares e os roncos sobem de tom,

Grande p#&%!, murmurou para a porta, como se fosse uma praga, uma cuspidela na cara daquela que não só lhe roubara horas de Jorge mas também nem sequer se dignara a cumprir as suas últimas vontades.

Ai Jorge, vê lá com quem te foste meter!, e olhou para o tecto sujo do corredor, o mais próximo talvez do céu sujo para onde o tripartido marido teria sido mandado.

Encostou mais o ouvido e a porta abriu-se lentamente. Olhou novamente para o tecto e procurou nele algum sinal de Jorge, quem sabe se fora ele!

Obrigado, Jorge!, segredou para o alto. Estava certa que ele queria que ela, a legítima, pusesse aquela galdéria nos eixos.

Entrou com pés de lã, passou o hall e seguiu até à sala, de onde os ruídos lúbricos se tinham acabado de extinguir.

Ela estava deitada no chão, saia levantada e rabo ao vento, em posição fetal e de olhos fechados, enquanto o homem ofegante, já não teria vida para aquilo!, se sentava no sofá, limpando-se a um naperon.

Deves ter sido sempre assim, minha badalh%$&!, ouviu-se dizer bem alto pela sala, fazendo estremecer os dois amantes.

Adelina abriu os olhos, a cara estava ensanguentada, o corpo visível arranhado.

Adelaide, ajuda-me!

O homem virou-se repentinamente e sorriu com ar matreiro. Era Aldo Berengário.

Tu vais ter a mesma dose, não queres? Não sei como passaste pelos meus homens, mas daqui não sais viva!

Adelaide percebeu, talvez tarde demais, que aquele mafioso acabara de violar Adelina. Mais: que ela, tendo vindo para avisar a outra do lobo que andava a afiar o dente, acabara por se meter na sua toca.

Anda cá, que eu já te dou o de andares a armar em seguidora daquele mer$#& do detective!, e do sorriso dele saía um dente defeituoso, talvez aquele que agarra a presa e não a larga.

Atirou-se a Adelaide que o repeliu como pôde. Caíram os dois no chão. Aldo ergueu o punho e deu-lhe um murro de raspão, Toma p%$#!, abrindo-lhe um lábio e fazendo-a saborear o seu próprio sangue. Ai os meus dentes novos, nunca o disse, mas o pensou, já em terror, procurando arrastar-se pela sala, sabendo que a seguir viria mais pancada, talvez depois a morte.

Berengário levantou-se, ajeitou o casaco e a gravata, passou a mão pelo cabelo cheio de gel. Assorrengava-se, deleitando-se com o próximo movimento,

Vais levar um chuto que te parto a tromba toda!

Adelaide aninhou-se na alcatifa à espera do golpe que a pusesse na mesma rua que Jorge Rocha. De repente ouviu um barulho, algo a quebrar-se e um corpo a cair em cima dela.

Levanta-te!, disse-lhe Adelina, ainda com os restos de uma jarra com motivos de Gaudi. Isto foi caro, mas este cabr&% tinha que as levar. Ainda por cima aporcalhou-me o naperon.

Abraçaram-se e sentaram-se no sofá. Limpavam de cada uma as faces traumatizadas mas sobretudo as almas.

Adelina contou-lhe como Aldo forçara a entrada em casa, Queria o meu dossier!, e depois a violara. Aguentara tudo porque desejava viver.

Por seu lado, Adelaide fez-lhe o relato desde que entrara no hospital para observação, após a morte de Adèle.

Fiquei traumatizada, como deves calcular. Matar, assim, sem o querer! Sentia-me responsável por não levar a cabo as nossas tarefas. O destino tem sido canalha comigo.

Olhou para a face triste de Adelina e teve pena, E contigo também! E com Adèle! E continuou,

Até que hoje a meio da tarde um inspector da PJ veio falar comigo. Adèle acusava no sangue um elevado teor de veneno. Quando saiu do carro, num vómito da morte, caiu para cima da estrada. Quando a atropelei já estava, possivelmente, morta. E a polícia suspeita deste criminoso, o próprio pai. Assim que pude fugi do hospital.

Aiiiiiiii, Aldo recupera, ai a minha cabeça! Depois olhou, estrabicamente, para ambas, Quando vos puser a mão em cima, vão direitinhas para o meio do rio! Soergueu-se e gritou, Socorro!

Adelina, parecendo já não ter dor em lado nenhum, pega noutro objecto

Adelaide assiste quase como em câmara lenta, mas quantas jarras tem esta mulher na sala?,

e desfá-lo na testa de Aldo, que cai sem mais um pio.

Revista-o!, ordena Adelina.

Adelaide, sem mais, percorre os bolsos do homem inanimado, molhado e com flores em cima. Do casaco tira um papel. Observam-no rapidamente e olham-se, atónitas, sem querer acreditar! Mas esta lista…?

Ouvem passos rápidos no corredor. Não há tempo de fechar a porta nem de se esconderem. Têm na mão a prova irrefutável e não a vão poder usar. Em breve os homens de Aldo entrarão de rompante e, com silenciador e sem perguntas, porão fim a tudo. Não terão tempo de ser amigas a sério, depois de tudo aquilo por que passaram. Abraçam-se para que vão juntas para a eternidade.

A porta da sala abre-se, as duas gritam, e entra, espavorido, um magrizela.

Faneca! Ah, Faneca!

Vamos!, alerta o acólito de detective, Não há tempo a perder, depois de deitar um olho rápido a Aldo. Vamos. Tragam tudo. As pastas. Todos os papéis.

Mas por onde, angustia-se Adelaide, se os homens de Aldo já devem vir a subir?

Pela escada de incêndio, espanta-os Adelina! Há uma escada de incêndio que se liga à marquise. E ri-se pelos olhos. Ela que deseja tanto viver.

Ouvem vozes do lado de fora, homens dão ordens, correm pelo hall escuro, depois uma bala vai estilhaçar, na sala, uma jarra com rosas azuis norueguesas.

Cá fora, Adelaide, Adelina e Faneca correm pela vida, sentindo o frio e a chuva que lhes acariciam as faces, como prenúncios de liberdade.

(Publicado em 4 Abril 2013)