trininhaElas andam sempre bem vestidas, de cabelo arranjado, gostam de acessórios e têm um olhar inconfundível. São as trinas, bonecas de olhos esbugalhados que andam ao peito de muitas senhoras, nos trajes académicos ou em porta-chaves por aí a deambular.

Estas bonecas de artesanato são feitas na Rua Direita por Ilda Carreira, que decidiu homenagear o pai, o senhor Trino das motas, no dia em que se dedicou ao que mais gosta de fazer: costura e artesanato.

Há cinco anos perdeu o medo e entregou-se a uma paixão antiga. Agora passa o dia a vestir bonecas com um trabalho de criatividade e minúcia que tem merecido a atenção da clientela. As Trinas de traje académico são um autêntico furor entre as estudantes, que até fazem encomendas de trinas enfermeiras, trinas psicólogas, trinas professoras, trinas de todo e qualquer ofício que se possa imaginar. E dona Ilda agradece: “fico muito satisfeita quando as pessoas me trazem desafios. Além disso, trabalhar as ideias dos outros também me ajuda a dar folga à imaginação de vez em quando.”

Mas imaginação é o que não lhe falta e confessa que a bonecada é o seu refúgio. “Quando estou mais aborrecida, por exemplo, é quando o trabalho corre melhor. Desligo a ficha, entrego-me aos bonecos e sou ainda mais produtiva.”

Além das trinas, que são bonecas muito femininas, Ilda Carreira também faz meninos. Por estes dias prepara uma encomenda de bonecos vinhateiros, o traje dos caloiros da tuna, onde nenhum pormenor escapa.

Apesar da originalidade dos seus trabalhos, já houve quem ousasse copiar, mas dona Ilda não está preocupada. “Nos meus trabalhos há muito improviso e o que eu lhe ponho mais ninguém tem”, garante. Parece que há uma fórmula mágica que os larápios de ideias não conseguem copiar, mesmo assim ela desvenda: “100% trabalho e 100% amor”.

Na loja está sempre acompanhada pelas centenas de bonecas expostas, mas a Rua Direita, “já não é o que era”, lamenta. Passou mais de 20 anos do outro lado da rua, nas Motas & Trino, e tem saudades dos tempos de grande movimento no centro histórico. Acredita que “um dia esta vai voltar a ser a melhor rua da cidade” e até lá vai ficando na companhia dos trapos, dos botões, das rendas, das linhas, das agulhas e da inspiração.

Texto de Paula Lagoa
Fotografia de  Ricardo Graça
Vídeo de Rui Girão

(Publicado em 4 Abril 2013)