mulher num tunelCapítulo nono, por Elsa Rodrigues, de uma colaboração entre diversos escritores, em fascículos semanais, a fazer lembrar os velhos folhetins que eram publicados nos jornais. Pretende-se, basicamente, contar uma estória a várias vozes. O ponto de partida é a fotografia aqui apresentada.

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL: UM FOLHETIM

Capítulo IX – Alquimias em diferido

Texto de Elsa Rodrigues

Faneca desloca-se agilmente nas sombras da noite. Adelaide e Adelina, siamesas ligadas pelo destino, seguem-no em silêncio, num passo sincronizado. A chuva e o suor toldam-lhes a vista, as roupas molhadas colam-se ao corpo e os pés nus de Adelina deixam no chão um rasto de sangue, mas não abrandam. Adelina geme baixinho a cada passo. A outra mulher agarra-lhe a mão numa solidariedade muda, como se a multiplicação dos corpos pudesse dividir a dor. Atrás deles, ruídos brutos contrastam com o silêncio da fuga. Pés pesados no metal. Vozes em tom imperativo. Palavrões. Estores que se abrem a medo e se fecham depressa. Caixotes que tombam.

Faneca mantém a calma, sem olhar para trás. Parece conhecer os caminhos da noite. Puxa o braço de uma das mulheres, sabendo que a outra virá colada. Recolhem-se os três no escuro de uma viela. Faneca estica o indicador sobre a boca, num pedido mudo de silêncio. As mulheres acenam em concordância. Encostam-se todos à parede. Aproveitam para recuperar o fôlego. Faneca abeira-se da esquina e espreita. O medo dilata o tempo. A chuva cai em câmara lenta. Os homens de Aldo Berengário falam e correm. Ao longe ecoa o som de uma sirene. As mulheres entreolham-se, reforçando o aperto das mãos. Faneca, fundindo-se com as sombras, continua a espreitar. Fecha os olhos. Respira fundo. Inicia a contagem.

Três.

– Apanhem-nos! Apanhem-nos!

Fecha-se a porta de um carro. As mulheres abraçam-se, assustadas.

Dois.

– Rápido, arranca! Elas não podem estar longe!

Espremem-se contra a parede, unidas, de olhos fechados.

Um.

O som de mais uma porta a fechar. O coração bate-lhes nos ouvidos.

Zero.

BUUM!

O estrondo ecoa no silêncio da noite. Bum, repete Faneca baixinho. Sorri. Alquimia, diria Jorge. Alquimia e mecânica. Abre os olhos. Puxa novamente um braço, sabendo que virão as duas mulheres. Correm os três até ao carro estacionado na viela escura. Entram todos. As mulheres, inseparáveis no laço de mãos e destino, sentam-se no banco traseiro. Adelina solta um gemido. Adelaide abraça-a. Faneca arranca, faróis desligados, rumo à noite, afastando-se dos sons das sirenes que se aproximam.

Bum, repete Faneca por dentro, uma espécie de eco da realidade. Porque Faneca é assim: realidade. Matéria. Combinação de elementos. Jorge não era matéria. Jorge era mistério e sonho. A alquimia de Faneca faz-se com ácidos e bases. A de Jorge era com palavras.

Enquanto conduz veloz pela noite espreita pelo retrovisor. Adelaide limpa o rosto e compõe a roupa rasgada de Adelina. Sorri. As Nancy Guild de Jorge estavam seguras. Pelo menos para já.

De lugar nenhum, se calhar da noite, vem-lhe a memória de quando conhecera Jorge e de como percebera imediatamente que ele seria o protagonista da sua vida e que Faneca se limitaria a viver em diferido. Sentiria em segunda mão as histórias narradas por Jorge, o verdadeiro alquimista, que o inebriava com os segredos e mistérios que investigava, misturas de sonho e vida feitas palavra. Faneca escrevia tudo com a sua letra miúda no caderno de notas castanho. Queria fixar no tempo as palavras para que a magia não se perdesse, para que não fossem apenas sons evaporados logo depois de se tornarem voz. Mas havia um mistério que a letra miúda de Faneca não imortalizara. A história contada numa noite há muitos anos atrás, no reservado do Undress Code. A história de como Jorge perdera o sono e se perdera na noite.

– O que me tirou o sono, Faneca… Queres mesmo saber o que me tirou o sono?

Faneca queria. Queria saber tudo o que Jorge tinha para contar. Beber-lhe as palavras como se fossem poções.

– O que me tirou o sono para sempre, Faneca, foi a morte do meu pai.

E Jorge transformava-se em realidade. Jorge rocha. Jorge matéria.

– O meu pai era contabilista. Quando eu era pequeno tinha uma empresa que funcionava lá em casa. As pessoas iam levar a papelada e ele tratava de tudo. IRS, IRC, IVA, o que fosse. Números, Faneca! O meu pai fazia magia com números!

Em cada homem há uma história que o define, que o narra. Faneca sabia que estava a ouvir a de Jorge.

– Depois houve um tipo que começou a ir muitas vezes, até que, a partir de certa altura, já não ia mais ninguém. Era o único cliente. Ia todas as semanas. Fechava-se com o meu pai no escritório durante horas. Eu comecei a ficar curioso com aquilo. Um dia em que o meu pai não estava, entrei no escritório. Percebe, Faneca, eu era um miúdo. Não sabia o que estava a fazer. Aquilo parecia-me uma coisa de filme e eu estava curioso.

Faneca percebia que Jorge, o rocha, não esperava a sua compreensão. Nem o seu perdão. Jorge precisava de arejar a alma.

– No escritório, os papéis já só tinham um nome: Aldo Berengário. Contas, contratos, registos de despesas em hotéis, em restaurantes. Até havia um caderno com as contas das amantes. Ó pá, Faneca, tu havias de ver a quantidade de gajas! Tudo anotadinho, pá, tudo anotadinho! Datas, despesas, totais. O tipo sabia o preço de cada mulher. E o mesmo para os subornos. Eu nem quinze anos tinha. Não percebi logo a dimensão, mas sabia que aqueles nomes apareciam nos jornais e na televisão. E já tinha visto muitos filmes! Essa noite, Faneca, foi a primeira em que perdi o sono.

Berengário pagaria o sono eterno de Rocha. Era para isso que Faneca, amputado de outros sonhos, vivia.

Paravam no semáforo de acesso à avenida principal. Era a primeira vez que sentia os músculos descontraírem. Levaria as mulheres para um sítio seguro e cumpriria o resto do plano que Jorge desenhara no funeral do Magalhães ‘Caganeiras’.

De repente, um grito:

– A pasta! Esquecemo-nos da pasta! Temos de voltar atrás. Há coisas que a polícia não pode saber…

Adelina tinha razão. Os pneus chiaram no chão. Faneca, em contramão e contra-relógio corria a toda a velocidade para recuperar o sonho.

(Publicado em 11 Abril 2013)