mulher num tunelCapítulo décimo, por Simão Vieira, de uma colaboração entre diversos escritores, em fascículos semanais, a fazer lembrar os velhos folhetins que eram publicados nos jornais. Pretende-se, basicamente, contar uma estória a várias vozes. O ponto de partida é a fotografia aqui apresentada.

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL: UM FOLHETIM

Capítulo X – Olha por mim

Texto de Simão Vieira

1. Play
O homem carrega no botão.

Começa: Alguém que olhe por mim – exercício final do Curso Superior de Cinema da aluna Adèle Dubillard da Silva. Um vulto ao entardecer. Corte para Jorge Rocha – detective particular. Mãos, olhos, rugas de expressão. Diz o detective: “Investigar, todos investigamos. É uma tendência humana, somos bípedes; torres móveis de vigilância e interpretação. Quando a coisa se intensifica, já não nos limitamos a olhar para a nossa vida: olhamos pela dos outros. Eu sou um detective que olha pelos outros.” Corte para Morrer do coração. Agora o homem aparece sentado num bar: “O coração é a grande geringonça da vida, o cérebro é vaidade da raça. O coração separa o venoso e o arterial e mostra bem no que estamos metidos: reacção, uma coisa contra a morte. A vida só parece exuberante porque estamos neste planeta – que, no meio da sopa geral, isto é pequenino, é uma resistenciazita ao nada… Qual epopeia da mente qual quê. Morremos do coração.”

O homem, Mikhail, desliga o aparelho.

2. Telefonema: Mikhail e Faneca
Toca o telemóvel. Faneca reconhece o número de Mikhail, antigo empregado de Aldo Berengário. Mikhail tem dado informações valiosas e parece muito interessado na marcha dos acontecimentos.
MIKHAIL – Conseguiu lista que eu disse?
FANECA – Sim, mas desapareceu uma pasta.
MIKHAIL – Deve ser pouco impuortante. Bôrrifar pera pasta. Lista, sim, muoito importante. Lista pirimuodial.
FANECA – Primordial.
MIKHAIL – Fuoi palavra que disse. Pirimuodial. (Pausa.) Hum… Fanêca esta sentado?
FANECA – Sim, por acaso estou.

3. O mistério de Lev Besuhov, tal como será contado daqui a cinco anos
Tens dois meses. Para ti não existem palavras complicadas. Apesar de não perceberes, ou por isso mesmo, vou contar. A verdade.

Por aqueles dias, Jorge passava muito tempo com Adèle. Embora lhe descobrisse parecenças num espectro entre Nancy Guild e Ava Gardner, tudo começara por outras razões. Jorge aproximou-se entre conversas sobre filmes antigos e tornou-se, ele próprio, matéria para o trabalho final do curso de cinema de Adèle da Silva Berengário, supostamente filha da ligação de Aldo Berengário com Geneviève Dubillard da Silva, uma dançarina franco-portuguesa. Com o tempo e alguns testes de ADN, Jorge apurou que o tal, o biltre, não era o pai de Adèle. O resultado chegaria ao conhecimento de Aldo, provocando cólera. Mas Adèle já não se incomodava. Começou a assinar “Adèle Dubillard da Silva”: usava apenas os nomes de família do lado materno.

Havia uma grande diferença de idades, mas Jorge e Adèle tinham em comum uma tremenda necessidade de reparação moral, uma obstinação algo adolescente. O pai de Jorge morrera em circunstâncias mal explicadas, no escritório: um ataque cardíaco a meio de contas e nomes talvez demasiado importantes, quando já trabalhava em exclusivo para Aldo Berengário. Adèle perdera a mãe num acidente de viação também mal explicado, quando o tipo que sabemos decidiu avançar com a candidatura à liderança da Frente Nacional. Nesse ponto, a jovem evita falar português; adopta um estilo incómodo, em que a relação com Jorge tem grande efeito.

O caso Aldo Berengário abalava as suas vidas. Paralelamente, o detective iniciava outra companheira, Adelina, na recolha de informações. Tempos de cólera – e de amores confusos.

Analisando, podemos dizer que a tensão entre uno e múltiplo marcou a experiência de Jorge: Nancy Guild em Maria Adelaide, Adelina, Adèle. E George Montgomery em Jorge Rocha… e Mikhail Besuhov, que… bem… já conto.

A investigação parecia infrutífera. O biltre, Aldo, não fazia ondas. E Jorge Rocha decide avançar com aquilo a que chamaria “chavascal”, o contrário da prudência investigativa: desata a fazer telefonemas para o tipo, insinuando o conhecimento de factos comprometedores. Imaginava que o clima de chantagem iria gerar uma resposta incriminatória. Mas em vão. Não lhe restava alternativa: teria de se aproximar de alguma forma e reunir provas. Como? Bastou-lhe reparar em Mikhail.

Entre os empregados de Aldo Berengário havia um que lembrava George Montgomery – e, portanto, também tinha grandes parecenças com Jorge Rocha. O detective fez o seu trabalho e descobriu que se tratava de Mikhail Besuhov, russo. Um tipo calmo, calado, no cliché fato-sapatos e óculos escuros, bebericando de um termo metalizado nos intervalos do serviço – que era, quase sempre, o de motorista de Aldo. Situação muito interessante. Jorge imaginava-se capaz de imitar o boneco por umas horas.

Vigiou o apartamento do russo até definir a rotina. Depois, aguardou que Mikhail saísse e, com a técnica do cartão de crédito, abriu a porta. Confirmou que o homem tinha uma dieta de astronauta: batidos, comprimidos. Deitou a Pílula do Sono Perfeito no boião guardado no frigorífico. Agitou. Feito. Andor.

No dia seguinte, oito horas e Mikhail não saía; nove, dez, onze e nada de Mikhail. Devia estar completamente pedrado. Jorge avançou. Deu de caras com o russo, já de óculos escuros, a guardar o termo num saco a tiracolo, preparando-se para sair. Corrrrrrrer, pois.

Lanço de escadas, patamar, novo lanço, rua, carro um, Jorge, slam, carro dois, Mikhail, slam, gngn, vrroaaaa, avenida fora, o carro de Jorge na reserva, rotunda, o carro de Jorge na reserva, ala para a marginal, o carro de Jorge na reserva, chugchug, o carro de Jorge morre, o carro de Mikhail encosta, Jorge corre, Mikhail ri, a falésia da praia velha, mais um palmo e o chão acaba, Jorge não tem como fugir, os dois no limite, Mikhail ri, quietação de urso, compõe os óculos escuros, retira o termo do saco, toma um gole, guarda, franze as sobrancelhas, murmura, cai, vazio, rocha, osso, crac, vazio, rocha, osso, crac, Jorge desce pelas escadas íngremes, o corpo de Mikhail entre espuma e sangue, marioneta largada, a cara desfeita, e nem uma testemunha, Jorge suspira, fica um instante a entender, caramba, é tão simples, revista o corpo, a roupa, nada nos bolsos, recolhe o saco com o termo, as chaves, os documentos, o telemóvel, pausa, coloca os seus documentos, os dele, Jorge, no bolso do casaco de Mikhail, pega no seu telemóvel, o dele, Jorge, liga para o 112, “Aah… estou junto à falésia da praia velha… tenho falta de ar… o peito, dói-me o peito… Jorge dos Santos Rocha… por favor, venham depressa”, desliga, guarda o seu telemóvel, o dele, Jorge, no bolso de Mikhail, sobe as escadas, entra no carro de Mikhail, gngn, vroaaaa. Pode ser que resulte. O mundo é cheio de imprecisões: vemos o que se mostra; o que aparece, é. Pode ser. E foi.

Mikhail morreria no hospital, mas como Jorge Rocha. Outro homem continuava, mas como Mikhail Besuhov: o russo que tratou de deixar o mundo de Aldo Berengário ao fim de um dedicado serviço; a voz que entretanto interpelaria Faneca em telefonemas estranhamente desarmantes. Um Mikhail a saber de outra vida ao longe, a sofrer com o desaparecimento de Adèle. Mas o plano dessa outra vida continuava em Mikhail. E duplicava a força. Para mais com a descoberta de Natalya e a inspiração, agora, dos filmes de Tarkovsky. Esta mulher lembra-lhe um bocadinho Natalya Bondarchuk, que entrou em Solaris. Mas nada de confusões. Niet. Natalya é única. Sim, Lev, meu filho: a mamã. É verdade.

4. De volta ao presente: o telefonema de Mikhail e Faneca
A voz de Mikhail modifica-se, abre para um tempo além do som.
MIKHAIL – Estás sentado, Faneca?
FANECA – Aaahn?!… Esta voz…
MIKHAIL – Calma, Faneca. Desde que morri, ando consideravelmente melhor: assim, com advérbio de doutor.

(Publicado em 18 Abril 2013)