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Depois do realizador Pedro Neves, a senhora que se segue é Ana Markl, guionista e apresentadora do programa A Costeleta de Adão, no canal Q. Uma vez por mês, a Preguiça lança o repto a um convidado de alto gabarito: pôr-se confortável na nossa espreguiçadeira e responder a 12 perguntas sobre livros. Desta vez calhou-lhe a fava a ela, mas a moça descascou-a com grande pintarola. Ora vejam.

1. O que estás a ler neste momento? Recomendas ou nem por isso?
Estou a ler O Complexo de Portnoy, do Philip Roth. Ainda agora comecei, mas recomendo. Li alguns livros dele e, apesar de ter gostado muito, tive a sensação de que eram todos consequência de uma andropausa problemática: miúdas novas, morte, culpa, etc. Mas este, até ver, tem outra onda.

2. O que mais facilmente te leva a pegar num livro: a capa, o título, o autor, os amigos ou os desconhecidos?
O autor, se eu já for fã, claro. Mas os amigos dão-me óptimas dicas. Quanto aos desconhecidos, por vezes, são um bom barómetro do que “não ler” – pelo menos, os que andam de metro costumam ter um gosto literário bastante duvidoso.

3. Diz-nos um autor que descobriste ultimamente e tens pena de não ter descoberto mais cedo.
O Julian Barnes. Até tenho vergonha de não o ter descoberto mais cedo. Li O Sentido do Fim no Verão passado e apaixonei-me.

4. Se houvesse um incêndio na casa do teu vizinho, que livro aproveitavas para atirar para a confusão?
Fácil, quase chavão: As Cinquenta Sombras de Grey. Mas talvez me arrependesse a seguir porque vai-se a ver e foi um livro que permitiu a algumas mulheres viver melhor com as suas fantasias e a assumi-las sem culpa. É pena que tenha sido um livro tão fraquinho a ter este papel em pleno século XXI.

5. O bichinho dos livros passa de pais para filhos?
Passa, pois. Sempre vivi com livros à volta, os meus pais tinham uma biblioteca invejável. Eu cá comecei com a Alice Vieira e passei pela colecção Uma Aventura como quase toda a garotada da minha geração, mas um dia decidi ler O Mundo Perdido, do Conan Doyle. E disse-o com muito orgulho numa aula de Português do 5.º ou 6.º ano, só porque era um autor estrangeiro e mandava grande sainete. Mas, atenção, que gostei genuinamente do livro. No meu tempo, ainda era relativamente cool ler. Eh, pareço uma velha.

6. Se fosses uma personagem do Farenheit 451 (Ray Bradbury/François Truffaut), que livro gostarias de memorizar para garantir que sobrevivia à passagem do tempo?
Ui, é difícil responder. Um só? Tinha de ser A Espuma dos Dias [de Boris Vian], pronto.

7. Já te rendeste ao tablet? Ou és fiel ao papel em toda e qualquer circunstância?
Fiel ao papel, até para escrever, sempre que posso. Virar as páginas, dobrar os cantos, amachucar as capas, sublinhar frases, cheirar as folhas – faz tudo parte da experiência literária. Sou bastante reaccionária nesta questão. Como dizia o Caetano: “os livros são objectos transcendentes mas podemos amá-los do amor táctil”. Podemos e devemos, digo eu.

8. Há algum livro que queiras ler há muito tempo, mas ficas sempre pela intenção?
Pois, aqueles que toda a gente tem na estante à espera de um tempo que nunca será suficiente: o Ulisses, o Em Busca do Tempo Perdido… até a Bíblia, naquela de curtir umas parábolas.

9. A partir de quantas páginas um livro te desmotiva a pegar-lhe? E qual foi o maior calhamaço a que já te aventuraste?
De facto, só referi calhamaços na resposta anterior mas não é fácil contabilizar o aborrecimento que um livro me possa causar. Duas minúsculas páginas de enorme seca podem parecer uma eternidade. Acho que o maior a que me abotoei recentemente foi O Passado, do Alan Pauls – e não me deu seca nenhuma.

10. “Não negue à partida um género que desconhece” podia ser o teu lema? És transversal, quanto a géneros e estilos de escrita, ou tens claramente favoritos e suspeitos?
Sou muito transversal e só posso dizer que a minha preferência vai para tudo o que me inquiete e até mesmo que me incomode.

11. O que é preciso para se ser um leitor com L grande? Isso é uma espécie em vias de extinção?
Só é preciso uma coisa: ter um prazer do caraças a ler. De resto, cada um sabe de si. Eu, por exemplo, gosto muito de ler a Caras quando estou na praia, enquanto o pêssego que roo pinga as páginas da revista. E não me mirra o L de leitora por assumir isto.

12. O que achas verdadeiramente de alguém que tem uma casa sem livros?
Secretamente, para não me sentir uma chica-esperta, acho que uma casa sem livros é uma casa sem vida. Por outro lado, também é verdade que uma casa sem livros é uma casa com menos pó – porque, parecendo que não, acumula-se ali uma camada no topo das estantes que é um problema para limpar.

Questionário de Catarina Sacramento
Ilustração de Rui Cardoso
Fotografia de Rita Carmo

(Publicado a 18 Abril 2013)

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  • Ana Markl nasceu em Lisboa em 1979. Estudou Línguas e Literaturas Modernas (Inglês/Português) na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Jornalismo no Cenjor.
    Nos últimos dez anos reflectiu sobre cultura pop a troco de dinheiro, com a credibilidade de quem não se leva muito a sério: escreveu sobre música e cinema no Blitz, sobre a Miss Feira da Cebola no semanário Sol, sobre restaurantes na Playboy, sobre o catálogo do D-Mail no jornal i, entre outras colaborações. Actualmente escreve e apresenta o programa A Costeleta de Adão, no canal Q.