mulher num tunelCapítulo décimo primeiro, por Carmen Zita Ferreira, de uma colaboração entre diversos escritores, em fascículos semanais, a fazer lembrar os velhos folhetins que eram publicados nos jornais. Pretende-se, basicamente, contar uma estória a várias vozes. O ponto de partida é a fotografia aqui apresentada.

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL: UM FOLHETIM

Capítulo XI – Luz intermitente

Texto de Carmen Zita Ferreira

Faneca não queria acreditar que do outro lado da linha alguém que só podia ser Jorge Rocha o estava a interpelar.

– Temos de nos encontrar, caro amigo. Preciso dessa lista como de pão para a boca. E dos apontamentos que tens certamente tirado no teu caderninho castanho também.

– Mas, Jorge, onde tens estado nestes dias, que mais parecem meses? Como foste capaz de me esconder que estavas vivo?

Faneca sentia-se traído, mas também traidor por ter imaginado que o futuro lhe reservava, agora sim, a hipótese de contar a Maria Adelaide que a amava desde o primeiro dia que a vira, a sair de casa, na Rua da Alegria, numa tarde de Primavera, há sete anos.

– Agora não posso falar, Faneca. A Maria Adelaide e a Adelina estão em local seguro?

Faneca respondera que sim, que as tinha deixado onde, ainda como Mikhail, o tinha ordenado. Sentia uma ténue alegria por saber que ia voltar a ver o seu amigo, voltar a beber as suas palavras como se fossem poções, voltar a acompanhá-lo na sua demanda por justiça, nesse ajuste de contas com um passado que não conseguira nunca esquecer. Por outro lado, temia que a hipótese de vir a viver, em pleno, num mundo iluminado pelo olhar de Maria Adelaide estivesse irremediavelmente afastada. Jorge sempre fora o seu grande amor, apesar de todo o tédio, apesar de toda a escuridão do seu lar. Jorge voltaria a inundar a vida de Maria Adelaide e ela poderia vir a perdoar-lhe. Neste tolo jogo que é a vida, por muita magia que fizesse acontecer, Faneca sentia que saía sempre a perder.

– Amanhã, às seis da matina, no barracão junto à ribeira onde nos encontrámos da última vez. Não me tentes contactar, porque me vou desfazer deste telemóvel assim que desligarmos. Faneca… é pá… obrigado por tudo…

Assim se despedira Jorge, enquanto Faneca continuava a pensar sobre qual dos seus sentimentos seria mais forte e por qual deveria pautar as decisões que teria de tomar na manhã seguinte.

A imagem de Maria Adelaide a sair de casa, há sete anos, não deixou Faneca dormir naquela noite. Era uma mulher bela, de cabelos negros pelos ombros, de olhos verdes e afáveis. Tinha o rosto oval e maduro, decorado com um dominante sorriso. Usava uma saia a roçar os tornozelos e casaco de tom escuro, ligeiramente cintado, a terminar um pouco acima do joelho. Pela abertura do casaco via-se um lenço garrido, a lembrar a frescura de uma juventude que já teimava, mesmo há sete anos, em abandoná-la. Esta imagem em tudo perfeita para Faneca tornou-se num pesadelo, daquele dia em diante, já que se tratava da mulher não só no seu mestre mas também de alguém que se estava a tornar num grande amigo.

Sete anos de tortura, de resignação, de renúncia, de sonhos amputados. Sete anos que ele pensara terem terminado com a morte de Jorge. Sete anos que poderiam transformar-se, hoje, outra vez, no resto da sua vida.

De madrugada, mais cansado do que nunca, Faneca espera por Jorge no local combinado. Jorge chega de moto, transfigurado. Nada na sua figura lembra o antigo Jorge Rocha.

Dão um longo e sentido abraço. Jorge pede a lista, pede desculpa, pede um cigarro, pede ajuda… Tem de desaparecer para sempre, em segurança, com Natalya.

– Mas e a Maria Adelaide? E a Adelina? – pergunta Faneca.

– Amigo, elas não poderão, jamais, saber que estou vivo!

Extenuado, Faneca sente a sua vida em constante intermitência. O que o liga ainda a esta contenda de Jorge? O que lhe deve a ele, afinal? Que sentido tem este abnegar de sonhos? E se a luz de Maria Adelaide pudesse ser verdadeiramente sua?

Jorge arranca com a lista e cópias do caderno castanho dentro do negro casaco e com a promessa de voltar a ligar de um novo número assim que puder.

O sol começa a nascer e Faneca adormece, finalmente, no carro.

(Publicado em 25 Abril 2013)