mulher num tunel
Capítulo décimo segundo, por Sandra Martins, de uma colaboração entre diversos escritores, em fascículos semanais, a fazer lembrar os velhos folhetins que eram publicados nos jornais. Pretende-se, basicamente, contar uma estória a várias vozes. O ponto de partida é a fotografia aqui apresentada.

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL: UM FOLHETIM

Capítulo XII – Passos nocturnos mas espaçados no Túnel-Agonia

Texto de Sandra Martins Fragoso

Jorge dos Santos Rocha aka Mikhail Besuhov estava pronto. Todo este tempo como motorista de Aldo tinha servido o seu propósito: possuía todas as provas para apanhar o mafioso. Tinha estado a trabalhar como infiltrado para o SIS e para o SIED e era hora de pôr em marcha a maior detenção que este país já tinha visto. Tinha tudo aquilo de que precisava. Na lista escrita pela mão de Aldo estavam os nomes de inúmeras pessoas que foram aparecendo mortas… entre eles o seu pai, a mãe de Adèle, a própria Adèle e ele, Jorge. Constavam, ainda, Faneca, Maria Adelaide e Adelina, entre tantos outros, como se fossem paralelismos perfumados de morte anunciada.

Na mão das entidades existiam já centenas de conversas entre o corrupto e dezenas de assassinos procurados pela INTERPOL, cópias de pagamentos, provas de evasão fiscal, de violações, de lenocínio, de chantagem a grandes figuras nacionais e internacionais, de branqueamento de capitais, de narcotráfico, tráfico de armas, provas irrefutáveis da ligação com a temível máfia russa e fotografias incriminatórias do infame Berengário – ele próprio – a enfiar um balázio na cabeça de um tal de Dimitri Branislav – um ladrão dentro da lei, como eram apelidados estes sujeitos na mãe Rússia.

Mikhail tinha informado as autoridades que a morte de alguém estava agendada para essa noite pois tinha ouvido, parcialmente, a encomenda e, por essa razão, insistiu que a rusga acontecesse sem demora. Mas, antes de tudo começar, Mikhail sai-se com uma cena de double crossing e transfere todo o dinheiro de Aldo Berengário das várias contas na Suíça e ilhas Caimão, simulando um rastro para que parecesse que tinha sido o mafioso a tentar salvar os seus bens, e fazendo, por fim, transferências não rastreáveis para Faneca e para si próprio.

Em seguida, Mikhail encontra-se com Faneca. Conta-lhe tudo o que fez, tudo o que testemunhou, tudo o que conseguiu averiguar sem que ninguém suspeitasse. Dá-lhe indicações de como proceder em relação ao dinheiro que transferiu para a sua conta. Parece ser seguro, para as viúvas, o regresso às suas casas. Manda-lhe destruir os dois dossiers. O terceiro já estava destruído. Não quer ligações a nenhuma das Nancy Guild. Deve-lhes, pelo menos, isso. Diz-lhe que se apaixonara por Natalya Pavlichenko (sniper russa que Aldo contratava amiúde) enquanto “vestia” a pele de Mikhail e que ela estaria, nessa madrugada, à sua espera para que juntos pudessem escapar de toda aquela porcaria. Despede-se de Faneca e pede-lhe que cuide das suas sempre-esposas agradecendo-lhe todos os anos de serviço e pedindo-lhe segredo. O seu pai e a doce Adèle iriam – finalmente – encontrar paz e justiça.

Nessa mesma noite, Mikhail e as autoridades entram de rompante na mansão de Aldo Berengário em Cascais, numa cena hollywoodesca. No meio do aparato, Mikhail aproxima-se de Aldo (enquanto era levado sob custódia) e coloca-lhe um comprimido no bolso do casaco, como se estivessem numa dança fátua com todos os espectros que o biltre criou, sussurrando-lhe qualquer coisa ao ouvido que o deixou perplexo… petrificado.

O plano de Jorge era evidente: o nome do mafioso estaria, para sempre, na lama. Sim. Mas os processos demorariam anos, muita gente seria chamada a depor e os advogados já nascem com as manhas todas. Sabe-se lá o que poderia acontecer. Justiça tinha de ser feita. Tinha de ser feita já. E assim foi… mais tarde, numa cela de alta segurança, Aldo mete a mão no bolso e, numa lucidez insana, sem hesitar, suicida-se. “Cianeto, cena muito KGBiana”, diria o legista, posteriormente.

Na manhã seguinte, Mikhail espera Natalya para embarcarem num avião particular rumo ao Canadá, onde podem começar uma vida normal e onde os seus filhos poderão crescer no meio do multiculturalismo e do esquecimento. [Até já haviam decidido o nome do primeiro: Lev]. Mikhail olha o relógio demoradamente. Olha o horizonte perdendo o olhar nas fissuras do amanhecer. Procura o carro de Natalya. [Perante esta cena até Chronos e Eros se engelham com a urgência do encontro.]

Longe dali, rumo à casa de Maria Adelaide, Faneca parece sorrir. Pequenos fogos de artifício desenham-se em sintonia perfeita dentro da sua mente. Será este o ansiado desfecho de tão longa prova? Terá, agora, o caminho livre para perseguir os seus ímpetos e a sua paixão? Será esta a sua oportunidade de ver a luz ao fundo do túnel? Como é que vai contar a Adelina e a Maria Adelaide o que se passou? Como é que vai explicar os milhares de milhões de euros nas suas contas bancárias sem revelar que Jorge esteve vivo todo este tempo? Toca à campainha. Adelaide vem a correr ainda em roupão depois do duche. Vê Faneca e esboça um grande sorriso. De repente, um tiro atravessa-lhe a cabeça atingindo, também, Faneca no ombro direito. De um apartamento do outro lado da rua, para lá da avenida principal, Natalya Pavlichenko apaga o cigarro e sorri.

(Publicado em 2 Maio 2013)