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Está frio, como de costume, e nem o enfraquecido chilrear que se ouve distante apela a que se saia de casa, a não ser que haja necessidade. Depois de 10 anos passados em terras da Real Soberaníssima Elizabeth II, seria de esperar que uma habituação e climatização se fizesse sentir em relação a certas facetas do quotidiano britânico, mas tem acontecido praticamente o oposto.

Considero este país e os seus costumes altamente prosaicos e semi-medievais. Numa sociedade que se destaca pelas liberdades e direitos usufruídos por toda a população, mas sobretudo pela maioria feminina, é de estranhar o paternalismo estatal vigente e os vários níveis de secretismo e controlo que rodeiam tanto vidas políticas, investimentos industriais, pactos hipócritas com países menos “liberais”, como vidas privadas e a rotina corriqueira com a sensação de que o “Big Brother” está de vigia, permanentemente (CCTV).

Mas nem este é um tratado do manda-abaixo, nem mais uma crítica à Pérfida Álbion, nem uma vã tentativa pessoal de rescrever as Cartas de Inglaterra de Queirós. Se não houvesse um lado positivo na minha experiência, talvez aqui não tivesse ficado tanto tempo, embora voltar a Portugal seja cada vez menos atractivo.

O lado positivo da experiência? A libra esterlina! (Podem chamar-me yuppie.)

A experiência de alguém que nunca saiu de Portugal não pode ser comparada com a de quem viu muito do mundo e demorei algum tempo (demais) a aperceber-me disso mesmo. Não existe comparação possível pois cada uma é rica e especial à sua maneira.

Já vivi em Londres (um dos centros do mundo moderno, panela de fusão de culturas), adorei (durante um tempo) e tive uma carreira profissional invejável (ao trabalhar naquilo que gosto com gente que nunca sonhei conhecer na vida); mas por vezes dou por mim a pensar que se talvez, e apenas talvez, tivesse ficado na minha terra poderia ter contribuído, com as qualidades pelas quais aqui fui e sou estimado, para o maior desenvolvimento da mesma terra que hoje manda quem importa para o estrangeiro (brain-drain).

Não tenho palavras elucidatórias nem muito mais linhas para descrever 10 anos de experiência. Ademais, a experiência vem em pacotes de diferentes cores e os mais variados formatos, pelo que a minha é apenas mais uma.

Na era da globalização, das viagens intercontinentais de alta velocidade e de relacionamentos digitais, se quiseres conhecer o estrangeiro podes sempre viajar (de várias maneiras!); e como uma planta, também nós gostamos pouco de mudar as raízes de sítio com muita frequência.

Hirtos, escarpados, talhados a pique, como as suas costas do mar, ahi vão querendo encontrar por toda a parte o que deixaram em Regent-Street, e esperando Pale-Ale e roast-beef no deserto da Petrea; vestindo no alto dos montes sobrecasaca preta ao domingo, em respeito á  egreja protestante, e escandalisados que os indigenas não façam o mesmo; recebendo nos confins do mundo o seu Times ou o seu Standard , e formando a sua opinião, não pelo que vêm ou ouvem ao redor de si, mas pelo artigo escripto em Londres; […] e pensando que as outras raças só podem ser felizes possuindo as instituições, os hábitos  as maneiras que os fazem a elles felizes na sua ilha do Norte!

Estranha gente, para quem é fóra de duvida que ninguem póde ser moral sem ler a Biblia, ser forte sem jogar o cricket, e ser gentleman sem ser inglez!

E é isto que os torna detestados. Nunca se fundem, nunca se desinglezam. […] O inglez cahe sobre as idéas e as maneiras dos outros, como uma massa de granito na agua: e alli fica pesando, com a sua Biblia, os seus clubs, os seus sports, os seus prejuizos, a sua etiqueta, o seu egoismo – tornando-se na circulação da vida alheia um encommodativo tropeço.  Eça de Queirós

Texto de Rodolfo Fino
produtor /engenheiro de som,  jardineiro, diletante
(Lincolnshire, Inglaterra)