Chaputa 2 netCom a revolução da indústria discográfica em curso, ainda esta semana a revista norte-americana Variety falava do fim do álbum inteiro tal como o conhecemos. Cada vez mais se vende a granel, e no seduzir é que está o ganho. Ser independente com um produto diferenciado faz cada vez mais sentido. As pessoas vão onde se sentem bem tratadas, e os nichos são a nova fronteira. A Chaputa! Records aposta no rock, trata-o com elegância e respeito. A partir de um eixo Alcobaça/Póvoa de Varzim, pretende ser uma editora global, como mostram as suas primeiras encomendas: 70% são vendas para fora de portas. O design é cuidado, o logótipo da editora vai mudar em cada nova edição e o artwork caberá também a artistas diferentes (o desta edição esteve a cargo de Rui Ricardo). Empreendedorismo também é isto. A entourage Chaputera passa por Leiria no próximo sábado, 4 de Maio, no The Club para a sua festa de apresentação e respectivo DJ set.

A julgar pelas fotos, não dá para ver muito bem quem são os conspiradores por detrás da editora. Podem desvendar, ou é uma coisa tipo Gorillaz?
Sim, claro… os conspiradores somos nós: Themoteo Suspiro e Esgar Acelerado. E não, não tem nada a ver com Gorillaz, decidimo-lo fazer assim porque pura e simplesmente nos apeteceu brincar com a situação. A Chaputa! Records será sempre uma editora do it yourself, por isso as coisas serão sempre feitas num espírito muito descontraído. E estas fotos reflectem isso mesmo: tínhamos acabado de receber os discos e decidimos na hora tirar as fotos neste registo.

Têm um background ligado ao rock, edição de discos, fanzines, ilustração, bandas, DJ sets…
E organização de concertos, festivais, exposições, bandas sonoras… [risos]. Temos as nossas vidas profissionais independentes de todas essas actividades, mas estão directa ou indirectamente ligadas ao mundo das artes. Tudo o que fazemos, fazemos conforme a disposição do momento. A questão é que sempre gostámos de música, rock e vinil! Por isso, todas essas actividades surgem com a maior das naturalidades.

Por que razão decidiram avançar agora?
Já tínhamos uns trocos de parte, de há uns longos anos atrás, de sessões de DJ, e a certa altura não sabíamos muito bem o que fazer com esse dinheiro, que era repartido por três pessoas (nós e o El Mariachi). Até que, há cerca de dois anos e meio, estávamos num café e pensámos: “Porque é que vamos repartir o dinheiro para comprar discos quando podemos ser nós a editá-los?” Só agora é que conseguimos ter toda essa logística (banda, gravação, artwork e produção) para avançar com o projecto. E ainda mais na altura em que estamos – a indústria musical mudou tanto nos últimos anos –, as majors praticamente baixaram o número de vendas, ao contrário das independentes, que cresceram em nichos específicos de mercado. Pareceu-nos a altura certa para avançar com um projecto editorial novo.

Serão edições sempre em vinil e ligadas ao rock’n’roll old school ou pretendem explorar outros territórios?
Em princípio serão sempre edições em vinil, maioritariamente edições limitadas e numeradas, com artwork personalizado. Não sabemos bem o que lhe chamar: se é rock’n’ roll old school ou simplesmente rock’n’ roll, garage, surf, fuzz, raw, northen soul, blues, high energy. A intenção será sempre produzir discos que sejam mais do que simples rodelas de plástico com música, mas objectos de cuidada estética. Olhamos para os discos como uma obra de arte.

A primeira edição é de uma banda Sueca, os The Maharajas. Como é que aconteceu esse contacto?
É uma banda de que nós sempre gostámos imenso e que seguimos ao longo dos anos. Quando pensámos na primeira edição para a Chaputa! estabelecemos contactos com algumas bandas que poderiam satisfazer o nosso desejo de uma primeira edição em grande e ficámos muito satisfeitos pelos The Maharajas terem acedido prontamente ao nosso pedido.

E em Portugal, rocka-se ou nem por isso? Há alguma banda rock’ n’roleira na calha da Chaputa! Records?
A julgar pelo que se tem visto, sim! Há malta aí a rock’n’ rolar [risos] e ainda bem! Quanto a edições de bandas portuguesas, de momento está fora dos nossos planos. Pretendemos estabelecer a Chaputa! como uma editora global. Não fechamos as portas à edição de bandas locais, mas há um longo caminho a percorrer antes disso. É muito complicado de momento lançar uma banda portuguesa quase com a certeza da minoria do mercado que poderíamos atingir. Até ao momento, 70% das nossas vendas deste primeiro single têm sido feitas para o estrangeiro.

O que é que andam a ouvir agora? Podem enumerar 10 temas Chaputeros?
Por nenhuma ordem especial, 15 temas que ouvimos recorrentemente nos últimos tempos… 10 é pouco para uma lista! Coisas antigas que são representativas para a Chaputa! e coisas que ouvimos recentemente:

The Attention – Have a Drink & Messer Raus
Jacoo Gardner – Clear the Air
The New Piccadillys – Judy Is a Punk
Love – 7 and 7 Is…
The Vicars – Back On The Street
Stooges – Search and Destroy
Kitty Daisy and Lewis – Goin’ Up The Country
Ramones – Pet Cemetery
The Maharajas – I’m Crackin’ Up
Johnny Thunders and The Heartbreakers – Born To Lose
Cramps – Tha’s Inside a Girl
Reigning Sound – Drowning
Compulsive Gamblers – Stop & Think It Over!
The 5.6.7.8’s – (I’m Sorry Mamma) I’m a Wild One
The Dirty Coal Train – I Am Monster
The Sonics – Shot Down

Já agora, há alguma razão especial para terem baptizado a editora como Chaputa!?
Não, nem nos lembramos como surgiu o nome, só do sítio onde estávamos. Não é que isso interesse. Ambos gostamos do nome e funciona bem. Pelo menos para os nossos ouvidos… (risos)

Iniciativas como o Record Store Day são benéficas para a indústria?
Claro que são! Ainda para mais, nos dias de hoje, em que quase não existe um contacto físico directo com os discos e praticamente não existem lojas, nem contacto entre o consumidor e a loja tradicional, é importante haver estas actividades paralelas. Podes ter os discos na mão, ouvi-los, contactar várias editoras, distribuidoras ou particulares que os vendem… Há todo um ambiente em torno do acto de comprar um disco, que o torna mais apelativo e interessante. É uma festa.

Como é que se podem encomendar os discos editados por vós? Só pelo site, ou também vão disponibilizar em lojas da especialidade?
Estão disponíveis, para já, no site www.chaputa.com, onde estão os nossos contactos e irão estar também nas lojas da especialidade. Neste momento, a Louie Louie, em Lisboa e Porto, já o tem disponível.

A próxima edição, já podem dizer qual é?
Não podemos divulgar, mas o convite está feito. Estamos a aguardar resposta. É esperar…

Que bandas portuguesas em actividade recomendam?
Será injusto referenciar nomes, quando existem, no mínimo, dez bandas portuguesas que gostaríamos de editar. Mas existe uma em especial que ambos achamos que é um dos projectos mais interessantes por aí, tendo em conta o espírito rock’n’ roll e garage em que a Chaputa! se enquadra: The Dirty Coal Train, que editou recentemente um single pela Monotone.

Entrevista de Pedro Miguel
(Publicado a 2 Maio 2013)