mulher num tunel
Capítulo décimo terceiro, por António Martinho, de uma colaboração entre diversos escritores, em fascículos semanais, a fazer lembrar os velhos folhetins que eram publicados nos jornais. Pretende-se, basicamente, contar uma estória a várias vozes. O ponto de partida é a fotografia aqui apresentada.

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL: UM FOLHETIM

Capítulo XIII – Ciúme: uma luz que se atira contra a escuridão do túnel num raio mínimo que eletrocuta o ar e se subdivide em raios menores: serão eles a luz do teu túnel, agora e na hora da tua morte.

Texto de António Martinho

Adelina come uma fartura, sentada num banco a admirar as tropelias dos condutores de carrinhos de choque. O estrépito e a ladainha sonora Mais uma corrida, Mais uma viagem! inibe o som seco da bala disparada. Adelina, inerte, sente na boca um sabor a raiz de alcaçuz. Os olhos semicerrados conseguem discernir cinco pequenos pontos azuis púrpura que brilham e se vão apagando um a um.

Natalya Pavlichenko corre nervosa, salta obstáculos com a mini-saia justa a querer subir-lhe pelas coxas a cada passo que dá, atira o cabelo para trás e consegue chegar a tempo à pista 5. Senta-se ofegante ao lado do seu homem e o avião desvanece-se imediatamente no infinito.

WINNIPEG, MANITOBA, CANADÁ.Um ano depois…

Mikhail sabia. O Faneca conseguira descobrir o seu paradeiro e telefonara-lhe após a chegada ao Canadá a inteirá-lo, com grande alarde, dos crimes hediondos de Natalya. Ao pasmo provocado pela revelação denunciada pelo Faneca, seguiram-se meses de torpor quase hipnótico, disfarçado a muito custo no quotidiano amoroso do casal e na gravidez delicada de Natalya e o nascimento de Lev veio, definitivamente, substituir a letargia irresoluta de Mikhail por um amor incondicional e inabalável: é Natalya o pequeno seixo falante que suporta a rocha que enfrenta o mar e que a ensina a manter-se firme perante o sucessivo ribombar das ondas, na maré alta, ou a permanente cócega, na maré baixa. O bem que ela lhe proporciona obscurece o mal que terá feito.
Natalya ouvira a conversa telefónica entre o Faneca e Mikhail e todos os dias a continua a ouvir: gostaria de ter podido adivinhar o que se passou no espírito de Mikhail e de saber se a sua consciência a transformou numa ameaça ou se não lhe importou a delação. Nunca teve coragem de o confrontar.
Fê-lo por ciúme. Naquele dia, o desejo de exclusividade transtornou-a e compeliu-a a matar o passado, na figura das duas mulheres que, apesar de tudo, ainda faziam parte da vida de Mikhail Besuhov e o ligavam ao Jorge Rocha. Mais morte, menos morte… foi fácil e não se arrependeu, até ao dia em que o Faneca telefonou.

BIG BEAVER, SASKATCHEWAN, CANADÁ. Cinco anos depois…

8 de Maio
Lev conversa com um pequeno castor com uma orelha mais curta do que outra. Tira as meias e calça-as ao pequeno animal, que colabora na brincadeira, mas depois foge para a água com elas.
A alguns metros, num campo de girassóis que crescem selvagens, Mikhail e Natalya dormitam numa manta de piquenique. Ela acorda e sente mais uma vez uma forte dor no peito e diz-lhe Protejo-te se me disseres que só eu sou tua. Aceita a minha inusitada transparência: página sim, página não, renovo-me.
Lev vigia um pintarroxo que saltita de bétula em bétula à procura de um esquilo que lhe roubou uma pena enquanto dormia. O esquilo dorme descansado numa das árvores mais altas e quando o pintarroxo o descobre Lev grita Foge, pintarroxo!
Natalya levanta-se, assustada com o grito do filho e com o pesadelo que estava a ter, e vai ver o que se passa.

9 de Maio
Na cabana de montanha, Natalya espera que Mikhail adormeça, levanta-se e vai até à cozinha: senta-se sonolenta, mas canta a Katiuscia, a canção russa, em surdina, enquanto puxa o lustro do metal uivante e se reflecte na face da faca mais cortante que encontra. Decide, contudo, ir buscar a espingarda de caça aos ursos.

10 de Maio
Quem disparou então o tiro que por sorte apenas me furou a pele? Pergunta Mikhail, depois de acordar de um longo desmaio provocado pela dor.

12 de Maio
Será melhor ele saber que fui eu? Ou não saber nunca quem foi?

13 de Maio
Sentado sob a bétula, Lev persegue os reflexos fugidios dos raios de sol que vêm amadurecer-lhe as maçãs do rosto. Encostado ao tronco, começa a sentir também o calor excessivo e os olhos a fecharem-se para não deixarem fugir o sono. Adormece e começa imediatamente a sonhar com um urso Grizzly que lhe morde os ombros. Acorda sobressaltado e descobre que é apenas um sonho.

(Publicado em 9 Maio 2013)