Depois de promover a escrita de um folhetim a várias mãos, a Preguiça apresenta um novo projecto literário. Agora, o desafio lançado a diversos escritores passa pela criação de contos em parceria. Há uma citação literária como ponto de partida e cada par de autores deverá escrever, em conjunto, uma estória. Neste terceiro conto, Fernando José Rodrigues e Simão Vieira viajam com a ajuda de Simone de Beauvoir: “Nós, para os outros, apenas criamos pontos de partida”.

MAÏTÉ – UM NOME, DUAS HISTÓRIAS

Fernando José Rodrigues & Simão Vieira

Requiem do tempo que há-de vir
Fernando José Rodrigues

(colaboração de Mozart – Requiem em Ré Menor; Chico Buarque de Holanda – A banda)

I

Requiem em 14 movimentos (incompleto)

1.
Não se morre todos os dias,
a frase saiu-me, assim como que a espantar a monotonia da solidão, cansado de me ver a olhar o tecto, a querer fazer conversa. No entanto, ainda bem, ninguém me ouviu, entretidos nas cavaqueiras de circunstância e nos sussurros que de vez em quando escondiam umas risadas, nervosas e algumas delas pouco laudatórias. Quando fecharam a porta e me deixaram para trás, ali no meio do silêncio, não consegui abrir os olhos mas era como se visse tudo, tapado e confortável, não fora o cheiro da Primavera, intensa, demasiado intensa, a roçar o atrevimento e o incómodo para quem queria simplesmente abrir os olhos e dormir.

2.
A fechadura rangeu, as diferenças de temperatura explicam tudo, a qualidade da madeira da porta o resto do tudo que nunca se tem, mesmo quando se pensa o contrário. O ar gelado entrou e com ele um homem de botins pretos, boina castanha muito coçada e samarra grossa, que, avançando silenciosamente para não me despertar, ligou umas pequenas luzes.

3.
São os barcos no Sena pela madrugada, falei-lhe de boca fechada, parecia um ventríloquo sem o donalde, sim, um ventríloquo como quando ia ao circo com a Maïté, Naquele tempo, naquele tempo em que o cheiro de Paris era ainda verde e já Chanel, que o diga a minha mãe. O homem pôs-me a mão no ombro, docemente, Sim, a Maïté, repeti-lhe agora com mais eco, petite mas cheia de espírito ou talvez por isso, quem sabe. O homem abanou a cabeça e eu continuei, Ainda me lembro de ter esta perceptora francesa, que corria comigo pelos Champs Elysées ou nas Tulheries e me deixava ajoelhar na relva e na terra, contra as ordens do meu padrasto. Quis-me rir, Sabe, desafiar o pai, não é meu pai!, pondo as calças imaculadas na relva do bosque de Versailles ou na lama do ponto de atraque das barcaças, era divinal. Mais non!, resmungava ele pela tarde quando me surpreendia todo descomposto e fazia, por vezes, estalar a ira no seu enteado.

O homem largou-me, eu queria mais conversa, São os barcos no Sena pela madrugada, repeti, são os barcos no Sena pela madrugada quando correm a furar o nevoeiro para que o dia apareça por detrás da catedral de Notre-Dame, saído da ilha no meio do rio.

4.
O homem não fez caso, a rudeza das mãos deveria ser proporcional às maneiras, ao menos que me dissesse alguma coisa, mas não, entrara mudo e mudo continuava, rien du tout. Olhou para mim novamente, depois tirou a boina, só agora se lembrara perante quem estava, certamente. Coçou a cabeça e ficou assim, por momentos, a contemplar-me, como se rezasse, não, não, claro, que não, está a pedir desculpa, o idiota.

5.
Logo cirandou, foi-se aos quatro aquecedores e deu-lhes lume; de seguida abriu um pequeno móvel castanho e ligou a aparelhagem. De lá de dentro saiu, piano, baixinho, o Requiem em Ré Menor de Mozart, escutei embevecido Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis, ah, assim, sim, aquele introito dá vida a um morto e é capaz de inculcar num vivo o desejo de morrer.

6.
Depois, o homem que tinha uma cicatriz no sobrolho do lado esquerdo e, notava-se agora, mancava levemente, fruto de escleroses ósseas, ajeitou o resto da sala, benzeu-se diante de um crucifixo de prata que trouxera num saco e colocara numa ara e olhou para o relógio e rezingou. Nem o pai morre, nem a gente almoça, poderia ter dito quem espera sempre alcança, ou a pressa é inimiga da perfeição, mas não, escutava-se o vivaço Kyrie eleison Christe eleison Kyrie eleison, e ele naqueles propósitos linguísticos, haveria de lhe chamar à atenção mal me levantasse, tomei nota mentalmente.

II
A banda en passant
1.
Ela aproximou-se, Fizeste de propósito? E eu fiquei a olhar, calado, sem saber o que responder, fizeste de propósito?, era uma raiva misturada, que sei eu?, com amor, talvez fosse. Agarrou-se a mim e começou a chorar. Eu via-lhe os olhos entontecidos por uma noite em branco, depois vieram-na buscar, levaram-na docemente enquanto na sala dançavam os choros de Lacrimosa dies illa, Qua resurget ex favilla, Mozart brincando com a própria morte.

2.
Fiquei sem palavras, era como se ela me tivesse dito, estavas à toa na vida e eu chamei-te, dei-te colo, dei-te um beijo, un petit bisou, para agora me pregares esta partida. Fiquei sem chama de vida para retrucar, pelo tecto corria Maïté, corria eu, do tecto pingavam lágrimas e suor, Maïté corria ao longo da margem, olhando para trás com um olhar de medo, Mais non!, quis estender-lhe a mão, não temas, não, são apenas os barcos do Sena pela madrugada.

3.
Eram tantos. Uns olhavam-me de soslaio, de longe. Outros aproximavam-se, grande homem, murmuravam alto para que todos ouvissem e eu pressentia nos seus bafos o suor das palavras falsas; mas também havia gente sofrida, que desaguava lágrimas como Maïté, que exausta, um dia arrastara os passos, sem que um barco tivesse quebrado aquela manhã.

4.
Não se morre todos os dias, dizem uns que é impossível, morrer é morrer, é surgir o nada no fim da linha. Outros afirmam que sim, morre-se todos os dias um pouco, por isto, por aquilo, por ódio, por amor, pergunte-se à amada ali sentada que uma noite contou estrelas nos meus braços e agora chora por entre as pestanas, hoje descuidadas; perguntem-lhe se não é possível amar ainda no crepúsculo; perguntem-me porque que é que um dia, velho e fraco, a encontrei num passeio pejado de transeuntes e me senti subitamente novo e depois ganhei coragem de lhe dizer que ainda era capaz de dançar à luz da lua. E os dois, apertados, dançámos.

5.
A mãe estava a partir, foi-se com um longo suspiro numa hora em que eu estudava Latim num colégio suíço. Ao fim da tarde chorei e quis ver o Sena e ser ainda um miúdo que já não era, que nunca voltaria a ser. Depois, num dia em que Paris parecia ter um jeito de amar e eu me perdia pelo Pigalle, Maïté corria, as gotas de suor e sangue cresciam-lhe na boca quase sem ar, o corpo pequeno, subitamente arredondado, sumia-se nas paredes da Ile de la Cité, a deixar segredos como grafittis que se desfazem com o vento e a chuva.

Ela levantou-se, veio para junto de mim, Desculpa, sei que não foi de propósito. Só que não tivemos tempo de contar as estrelas todas. Beijou-me com suavidade, Ainda gostas de mim? E eu quis-lhe responder que sim mas não consegui, nem lhe pude contar como o miúdo que fora, que nos meus olhos estavam finalmente todas as estrelas.

6.
Não se morre todos os dias, e eu, para contrariar, morri num só dia, um dia de sábado.

Caí agarrado ao coração, partido, quem sabe?, e num instante vi Maïté a fugir, a gritar e um vulto enorme a empurrá-la para as águas frias do Sena. Depois do embate, dela nem um grito, apenas o silêncio de um corpo redondo levado até ao fundo. Até ao fim.

Morri sem saber porquê. Apenas que o coração me sufocara. Talvez por loucura de saber o que sabia, por não perdoar a quem me matara os barcos do Sena, que procurava, ainda a manhã não nascera. Morri de tristeza por ter saído nesse dia de casa com palavras desabridas e não poder voltar atrás, leva-me barca, rio acima, procura a porta certa e faz-me entrar. Quero despedir-me antes de cair no chão, quero deixar-lhe uma estrela em forma de beijo.

7.
Ele passava por ali, já trôpego, suspeitando que a maré viesse ao contrário e trouxesse o passado de volta. Fê-lo durantes anos, encostado ao despudor assassino.

Aprestam-se para fechar o caixão, São os barcos no Sena pela madrugada que vão para um lado, Abafo um grito quando vejo Maïté a descer para a eternidade, ele vira-se, inquieto, escondo-me e espero, espero, espero anos. Segui-o numa noite, naquela noite marcada e quase no mesmo local, indiquei-lhe o mesmo caminho.

Fugi. Olhei para trás e o nevoeiro caía, denso, Não há requiem, nem perdão. Devias ter morrido todos os dias.

Quase na escuridão digo um adeus rápido, beijos meu amor. Um dia encontrarei a banda toda. Os pontos no Universo. Para já vou abraçar a mãe a cheirar a Chanel. E Maïté. Sempre petite mas cheia de espírito.

Algumas fotografias tiradas por Maïté Kymlika
Simão Vieira

Auto-retrato 1
Maïté acorda. Nada. Ela é uma ideia em caracol que nem sabe que é ideia, é só uma pergunta antes do mundo. A luz das estrelas demora a perceber: é luz do longe. Assim, devagar, com as estrelas, lembra-se. E pensa que tudo o que há para saber quase dá na pergunta-micróbio do princípio. O que afinal lhe aconteceu é também um nada, a diferença está em ter a radiação do depois. E se agora criasse uma noite? Podia continuar acordada, mas de olhos fechados. E rolar as órbitas. Pensa: “Vemos tanto que nos esquecemos de que tudo está dentro do nosso olhar: eu estou naquilo que vejo. E talvez esteja ainda mais neste movimento fechado no corpo. É isso, devia viver como se a vida lá fora não passasse de luz ao fundo. Não há ponto que brilhe sem alguma sombra. Eu regulo a sombra. Eu, se quiser, fecho tudo.”

Auto-retrato 2
É fotógrafa. Mas diz que não. “Fotógrafa? Não. Tiro da luz que o dia põe sobre as coisas. Até se diz ‘tirar’ fotografias, não é? E eu tiro para mim, para a minha claridade. O bocadinho a que tenho direito, dentro do dia. Que cada dia já é uma maneira de ver. E de acreditar. Uma coisa que fere. As pessoas têm rugas porque é difícil acreditar em cada dia. A cara faz-se assim contrariada, a resistir ao instante. Ganhamos a nossa cara contra, a desconfiar, no espanto, no medo. Raramente ganhamos a cara com o mundo. Somos modificados contra o mundo. Ora, eu tiro para fazer mundo. Eu quero acreditar suavemente e ficar lisinha de pele, convicta como um bebé. No fundo, é tão simples: acredito na beleza artística porque trabalho na minha beleza.”

O senhor que sabia mesmo da sua vida
“Tirei esta fotografia numa manhã branca. O céu, um papel de nada além da cidade. A praça, a calçada, branca também. E o idoso de roupa cinzenta. Parecia parado. Mas, afinal, não. Tinha um movimento secreto. Ele era um movimento secreto. Fui ter com ele e pedi licença. Aceitou e, sem sorrir, mostrou alegria. As pessoas têm alegria na dança dos olhos, nas coisinhas de insecto que fazem com os dedos – e na coluna, quando ganham um nada de coragem e ficam capazes de chegar ao sol. O senhor ia a caminho da Segurança Social numa paciência de nuvem. Disse-me: ‘Veja lá, menina, os tipos dizem que eu estou morto. Pois eu vou lá mostrar-lhes a verdade.’ Não estava revoltado. Soava natural, tinha uma força cósmica. Ele sabia mesmo da sua vida.”

Um gato negro que perdeu a sombra
“Em Veneza dei com um gato preto que não tinha sombra. Aconteceu pelo fim da tarde, quando é suposto haver longos traços escuros desde os pés de qualquer bicho. Talvez a sua pretidão fosse capaz de dispensar sombra. Assim um gato que nascesse com a sombra por dentro, já escondido. Ou uma peça caída da noite, que a noite é o que é porque se mostra ao esconder o dia. Isto do gato até poderia ser normal, não fosse o resto. O mundo, quero dizer. O mundo que não tinha a sombra do gato.”

A mulher na vez dos outros
“Gosto muito desta. É uma senhora que guarda a vez em filas. Dois a cinco euros à hora, dependendo da dificuldade e do interesse. Trata de um assunto que não lhe diz respeito e, por isso, tem uma cara que surpreende no meio das outras. Entre o estrangeiro e o científico. Parece trabalhar como figuração do humano. É muito difícil dizer onde realmente está a senhora. Depois, acho que a fotografia faz pensar que não estamos todos aqui da mesma maneira. Ou que nem sempre ocupamos por inteiro o nosso lugar. Essas coisas.”

Todos os estrangeiros são poetas
“Estou aqui há muitos anos. Mas lembro-me bem da experiência de me sentir – muito – estrangeira. Imagino as caras que eu fazia. A reagir ao momento como se me pudesse magoar. É o caso deste meu amigo – poeta, por sinal. Tem um ar assustado. Com o tempo, sei agora, perde-se o temor e a cautela. Deixamos de ser visitantes e tornamo-nos clientes habituais. A poesia é substituída pelo comércio sonolento.”

Pensamento
“Fotografei esta família à saída de um hipermercado, depois de um aguaceiro. Avançavam de olhar no céu. Os pais e dois rapazes, todos levando sacos bem carregados. O peso dos sacos firmando-os ainda mais nas dificuldades terrestres. Dei dois terços de fotografia às nuvens carregadas para que se percebesse a geometria especial dos olhares. A família avançava num mesmo pensamento.”

(Publicado em 13 Junho 2013)