Sem Título

Enquanto as revistas da moda apregoam agora para o Verão, e muito bem, saladas de todas as cores, que tal um roteiro gastronómico europeu à séria, baseado no pecado, com coisas que podem não fazer lá muito bem? Nada de comidas fashion, 5 estrelas Michelin ou o camandro! Aqui fala-se do menu para turista ver, pratos do dia, combinados, sandes e meias doses.
É que isto, em viagem, sem condições para cozinhar, se tem de dar para a cerveja, é preciso poupar em algum lado.

7h00 – Saída de Leiria (P) com destino a Barcelona (E)
Diz que o cozido à portuguesa em Canal Caveira é que é, mas isso é muito para sul, depois de Grândola Vila Morena. E não, não queremos ir para o Algarve: isso é gente que não conhece outros caminhos e já o faz, vá… há mais de 30 anos e se acha muito viajada porque sai de Lisboa.

Não, a malta que vem de cima, tipo Leiria, corta ali na ponte Vasco da Gama. Podia sair antes em Santarém, que é mais perto, ou mesmo na velhinha ponte de Vila Franca, mas pronto: turista que é turista quer é ver as vistas e convenhamos que, para quem está a viajar, o cozido é pesado como o caraças, e a ponte tem uma das melhores vistas da Europa.

09h30 – Vendas Novas (P)
Assim, a primeira paragem é ali em Vendas Novas, já a apontar para Badajoz, mas ainda antes de Montemor-o-Novo, a caminho de Évora. As bifanas locais tinham um segredo muito bem guardado, que a ASAE se encarregou de estragar, ou então de desmistificar o mito. Nunca lavar a frigideira para lhe dar aquele gostinho especial. No entanto, continuam boas. Com este tempo, agora nunca se sabe se é Verão ou Outono, mas se estiver calor, e para os mais aventureiros, a mini – para empurrar a bucha – é de valor. Alimentem-se bem, pois a seguir só se pára à hora de almoço já em Espanha.

13h30 – Almaraz (E)
A caminho de Madrid, logo a seguir a um grande túnel, encontra-se a localidade de Almaraz. Para os mais distraídos, fiquem a saber que existe lá uma central nuclear, e que se algum dia houver sarilho, os portugueses não têm escape possível. Só para avisar. Em plena auto-estrada, existe a estação de serviço Portugal, e se um gajo pára por causa do nome, vale bem a pena experimentar os bocadillos de lomo a la plancha. A carne é óptima. Deve ser da radiação.

18h30 – Zaragoza (E)
Um pouco antes de Zaragoza, na autovia do Nordeste, existe um troço montanhoso (Sierra de Vicort, Cordilheira Ibérica) que merece uma paragem. A paisagem é desoladoramente bela, em tons de castanho, o mais próximo que alguma vez terão do Grand Canyon, se quiserem enganar alguém. É bom para esticar as pernas, não vão para muito longe, que aquilo deve estar cheio de cobredo e rastejantes que tais.
No snack-bar há cerveja, colas e águas. Podem pedir um pratinho de presunto para fingirem que estão cheios de guita, mas a verdade é que à noite vão comer kebabs, e então a coisa fica em conta.

Como alternativa, podem antes parar uns 200 km à frente. Em Pina de Ebro há uma estação de serviço que parece um centro comercial, e sempre têm algum contacto com a civilização, que já não vêem faz para cima de três horas. Vão passar por um arco branco no meio da autopista. Não se assustem, não é um pórtico de pagamento automático. É, sim, o meridiano de Greenwich.

21h30 – Barcelona (E)
Não facilitem, e estacionem o carro num parque subterrâneo. Em Barcelona há disso como cogumelos, e evitam que vos partam o vidro, que aquela malta não gosta de veículos de matrícula não catalã. É uma coisa deles, pronto. E sim, estão em Barcelona. Vindos de Zaragoza, passem pelo aeroporto, direcção Plaza de España, e cortem à direita pela avenida Paralel abaixo. A artéria tem muitos parques pagos: metam-se num deles, sigam para a zona do Raval (espero que, por esta hora, já tenham um mapa) e aluguem um quarto numa pensão nas redondezas. Dirijam-se à Rambla do Raval e lá, ao pé de uma escultura de um gato preto gigante, jantem um kebab. À confiança, é um dos melhores que vão encontrar. Cerveja à descrição. Estás em Barcelona!
Boa semana!

Texto de Pedro Miguel
(Publicado em 13 Junho 2013)