Ilustraçao Catarina Sobral na espreguicadeira

Não é um sofá, nem é um divã, é uma espreguiçadeira. Uma vez por mês, a Preguiça convida alguém a pôr-se confortável e responder a 12 perguntas sobre livros. Desta vez quem se sentou nela foi a ilustradora Catarina Sobral. E a prova de que não deixa créditos por mãos alheias é que ainda assinou o seu auto-retrato e mostrou que além de bonecos, riscos e rabiscos, também gosta muito, mesmo muito, de letras. Achimpa-lhe!

1. O que estás a ler neste momento? Recomendas ou nem por isso?
De ficção estou a ler dois livros: Os Cadernos de Pickwick, do Charles Dickens, e O Lustre, da Clarice Lispector. Recomendo ambos, mas são muito diferentes e a Clarice não se lê tão facilmente. Para O Lustre eu preciso de sossego e concentração.

2. O que mais facilmente te leva a pegar num livro: a capa, o título, o autor, os amigos ou os desconhecidos?
A capa leva-me muitas vezes a pegar nos livros (defeito de designer), mas geralmente compro pelo autor, ou porque os amigos e desconhecidos a quem eu reconheço autoridade literária recomendam o livro.

3. Diz-nos um autor que descobriste ultimamente e tens pena de não ter descoberto mais cedo.
Com anos de atraso, o Gonçalo M. Tavares.

4. Se houvesse um incêndio na casa do teu vizinho, que livro aproveitavas para atirar para a confusão?
Nunca li nada tão mau que merecesse ser atirado para a fogueira, mas imagino que os Twilights [de Stephenie Meyer] e as Nora Roberts da vida sejam um excelente combustível.

5. O bichinho dos livros passa de pais para filhos?
Eu penso que sim. Podemos tornar-nos um leitor compulsivo mesmo que os nossos pais não o sejam, mas dificilmente acontece o contrário. A minha mãe é dessa espécie de leitores e em vez de nos ler (a mim e à minha irmã) uma história diferente todas as noites, lia-nos um livro aos capítulos: a Alice, o Tom Sawyer, o João Sem Medo…

6. Se fosses uma personagem do Farenheit 451 (Ray Bradbury/François Truffaut), que livro gostarias de memorizar para garantir que sobrevivia à passagem do tempo?
Como não consigo eleger um livro preferido, e já que estamos numa distopia, eu poderia ser o 1984 do George Orwell, muito prazer.

7. Já te rendeste ao tablet? Ou és fiel ao papel em toda e qualquer circunstância?
Não, mas admito que dê muito jeito em viagens. E em carteiras pequeninas.

8. Há algum livro que queiras ler há muito tempo, mas ficas sempre pela intenção?
Já ando a adiar A Montanha Mágica há algum tempo. Também ainda não ganhei coragem para o Livro do Desassossego e depois de ler o monólogo da Molly Bloom decidi esperar que a Relógio d’Água publique o Ulisses em português (para voltar a considerar a minha intenção imponderada de o ler…).

9. A partir de quantas páginas um livro te desmotiva a pegar-lhe? E qual foi o maior calhamaço a que já te aventuraste?
A partir das 800 e tal páginas já penso em comprar outro. De qualquer forma enfrentei o Anna Karenina (e ainda bem) e estou prestes a concluir as viagens pickwickianas.

10. “Não negue à partida um género que desconhece” podia ser o teu lema? És transversal, quanto a géneros e estilos de escrita, ou tens claramente favoritos e suspeitos?
Podia ser o meu lema, sim. Mas nego à partida livros de vampiros e suspeito dos best-sellers virais e livros de auto-ajuda. Géneros favoritos não tenho, mas autores de eleição sim.

11. O que é preciso para se ser um leitor com L grande? Isso é uma espécie em vias de extinção?
Ler todos os dias, não sair de casa sem um livro na carteira (ou no bolso), ter como blogue de eleição A Livreira Anarquista.
Talvez esteja em vias de extinção: hoje em dia vejo mais pessoas no comboio com os portáteis ligados, a ver filmes ou séries, do que a ler livros. Não que isso seja mau (não é), mas antes viam-se mais livros…

12. O que achas verdadeiramente de alguém que tem uma casa sem livros?
É o meu vizinho que acabou de ter um incêndio. Se eu fosse o Rilke, escrevia a história dele.

Questionário de Catarina Sacramento
Ilustração de Catarina Sobral
(Publicado a 13 Junho 2013)

Foto Catarina Sobral

  • Catarina Sobral nasceu em Coimbra em 1985. É designer de comunicação e ilustradora, mas foi na ilustração que mais se destacou, ao ganhar este ano o prémio da SPA para melhor livro infanto-juvenil com Achimpa (2012), sucessor de Greve (2011), que já tinha merecido uma menção especial do júri do Prémio Nacional de Ilustração. E tudo isto antes dos 30 anos. Licenciada em Design e mestre em Ilustração Artística, tem no CV trabalhos para editoras e publicações várias: Orfeu Negro, Éditions Hélium, Edizioni Bas Bleu, WMF Martins Fontes, Edições Eterogémeas, Diário de Notícias… e agora também a Preguiça Magazine, pois claro. Podem espreitar o trabalho dela aqui.