bruno

Pois é, quando obrigam o fotógrafo a escrever um artigo, é sinal de que algo vai mal na casa das máquinas. Devo dizer-vos que este texto está a ser escrito ininterruptamente desde sábado de manhã, um pouco à moda da malta que deixa uma carta à mulher, na bancada da cozinha, a dizer que não lavou a loiça porque saiu de casa sem a chave.

Ok, Retrosaria Central: esse ditador de tendências cá da terra,  essa mega secção onde o amarelo e o quadrado se abraçam orgulhosamente num fotograma sem o mínimo produção fotográfica. Eu sei que vocês pensam que foram os idiotas da Preguiça Magazine que mais uma vez inovaram, como tantas vezes o têm feito, e criaram este conceito absolutamente deslumbrante e dégradé – não sei se faz sentido ou não usar esta palavra aqui, mas sempre sonhei usá-la e tenho uma vaga ideia de estar associada a moda, deslumbrante, tunga!, escrevi-a novamente.

ana-mendes

Onde é que íamos? Sou um verdadeiro Lucky Luke da escrita, até tenho alguma dificuldade em acompanhar com os dedos as letras que me aparecem à frente dos olhos. Também pode ser do cabelo. Isto tudo para dizer que não foi a Preguiça que inventou este tipo de coisa. Tudo o resto foi. Se querem que vos diga, não sei quem foi o criador, mas há um senhor que se auto-intitula o Alfaiate Lisboeta, curioso,  eu tenho um amigo que vive em Lisboa e tem de ser ele a cozer as joelheiras nos fatos de treino, adiante, não sei se esse Alfaite é primo da Pipoca ou do Engomadinho, sei que tive conhecimento dele numa navegação cor-de-rosa pelo mundo da blogosfera. Ao leme estava a RG, minha esposa: não a posso identificar porque fica mal num órgão de comunicação falar da vida amorosa, e para além disso, ela tem vergonha de andar comigo. Só vos posso dizer que, dos nossos cronistas, não é a Joana nem o Miguel e tem um gato ao colo. E já que estamos numa de dizer toda a verdade, eu votei contra a foto do gato, que fui eu que tirei, mas a sobrinha do mau do Inspector Gadget e o seu gato – que teve de ser capado duas vezes – obrigaram-me.

retrosaria-1

A Retrosaria Central nasceu da avassaladora necessidade que Leiria tinha de gritar:  “Como é que é possível eu ter tanto estilo?” A secção que na sua génese esteve para se chamar ‘Agulha e o Dedal’ ou a ‘Moda e a Cidade’ ou ‘Casa Preguiça’, ou ainda ‘Gabardine Ideal’, acabou baptizada como Retrosaria Central e é agora um must incontornável do vibrar palpitante fashion giro da Zara que todo o amblíope quer ver.

Confesso: no ínicio era das cenas que mais me custava fotografar, porque tinha de abordar desconhecidos na rua, explicar-lhes o que era a Preguiça, o que é que queria, enfrentar aqueles olhares suplicantes de “Por favor, não me assalte” e ao mesmo tempo evitar que – principalmente as meninas, mas não só – pensassem que aquilo era um grande esquema para as levar a apaixonarem-se loucamente por mim. Nem sempre o consegui. Tive de usar a solução milagrosa, o chá de algas que a minha avó guarda numa bacia para as artroses… não, o humor. Para todos vocês fotógrafos que fotografam os pés, têm 10 likes, criam uma página e uma marca de água que usam religiosamente para preservar a identidade do autor daquela foto tão bonita do pôr-do-sol desfocado na Vieira, isto não é novidade, mas para os outros pode ser: uma das coisas mais importantes quando se fotografa alguém é esse alguém estar o mais à vontade possível com o acto pouco natural de ter uma máquina apontada à testa. A minha técnica é o humor. Com certeza haverá outras, esta é a minha.

inc3aas-almeida-3

O conceito é simples: quarta feira à tarde apercebo-me de que ainda não fotografei ninguém para a Retrosaria e dirijo-me ao Praça Caffée, bebo três imperiais, peço um pires de tremoços com erva e espero que apareça alguém vestido às bolinhas, and I make my move:

– Olá, tudo bem? Eu trabalho para a Preguiça, conheces?

– bla bla bla

– Não conheces? Ai ai ai ai!!!

– bla bla bla

– É um magazine online, cultural blablabla. Gostava de te fotografar para uma secção de malta com pinta: chama-se Retrosaria Central, um pouco à semelhança da cena do Alfaiate Lisboeta, mas pior.

– bla bla bla

– Não conheces também? Ai ai ai ai !!!

– Opá, é uma cena onde, estás a ver?, aquela onda de… opá!!, tipo a malta que tem bués da estilo, tipo, estás ver?, é na boa.

– Ok.

– Fixe, olha, põe-te aí descontraído(a), na boa. Ir ao dentista é bem pior.

– Fiquei bem? De certeza?

– Ya, ficaste bués da bem.

– Posso ver?

– Não, vês na quinta-feira. Olha e, por amor de Deus, não carregues no botão onde diz ‘seguir este blog’ porque senão tens de alugar um T5 na Barosa para albergar os e-mails.

Fiquem bem e cheios de cenário.

Texto e fotos: Ricardo Graça
(Publicado em 13 Junho 2013)