Depois de promover a escrita de um folhetim a várias mãos, a Preguiça apresenta um novo projecto literário. Agora, o desafio lançado a diversos escritores passa pela criação de contos em parceria. Há uma citação literária como ponto de partida e cada par de autores deverá escrever, em conjunto, uma estória. Neste quarto exercício, António Martinho e Gisela Carreira seguem a frase de Ana Hatherly: “Não se ama nunca, só se deseja”.

ELLIONDE e MARLIA

António Martinho & Gisela Carreira

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“Não se ama nunca, só se deseja” – Ana Hatherly

Quando Ellionde sentiu pela primeira vez o desagrado, auscultou o peito, demoradamente, e descobriu a causa: Marlia não a largava. E, no dia seguinte, chegou mesmo a chamar-lhe coração de siamês, num momento de irritação. Passou a sentir a alma dormente cada vez que Marlia lhe segurava o braço com aquela intensidade que, provocada pela estima que por ela tinha, lhe doía os nervos e lhe impedia o livre e feliz fluxo do sangue.

À noite, esperava que Marlia adormecesse e esgueirava-se para a cozinha, onde fumava cigarro atrás de cigarro. Antes de voltar para a tepidez insone da cama, pensava: Amanhã falo com ela. Mas com a manhã chegavam os beijos de Marlia, o seu desejo sempre renovado, o seu corpo aberto – a que ela acabava sempre por ceder, envergonhada e silenciosa.

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Sentada na ponta da fila 9, a meio da sala Fenix II, Ellionde assistia distraída à mesa-redonda subordinada ao tema “Exercício e Coração: Pode o que é Bom ser Demais?”, integrada no XXXIV Congresso Português de Cardiologia, no Centro de Congressos do Algarve, em Vilamoura. Associado ao congresso decorria o concurso “Desenha-me o teu coração” e Ellionde, para se entreter, aperfeiçoava o esboço de um coração tatuado com outro coração, mais pequeno, que iria, se o desenho final lhe agradasse, apresentar a concurso.

Um homem vindo da parte de trás da sala, pelo corredor lateral, aproximou-se dela, silenciosamente, e sussurrou-lhe ao ouvido:

– Não se importa de parar de acariciar a parte de trás do seu pescoço e de desprender o cabelo? Estou há 15 minutos a tentar concentrar-me, mas não consigo parar de olhar para a sua mão e para a sua nuca e o desejo que me provoca está a impedir-me de perceber o que dizem os oradores.

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Ellionde virou-se, pronta a repreender o insolente com um sonoro “Importo, sim”. Mas deteve-se. Alguma coisa nele – talvez o sorriso no olhar que desmentia a seriedade do semblante sério, talvez o remoinho agarotado na testa – lhe despertou uma vaga saudade, um início de esperança. Sorriu e desprendeu o cabelo, lentamente.

– Está melhor assim?

– Dê-me uns minutos para me recompor e já lhe digo.

– Como é que se chama?

– Afonso.

Aplicadamente, Ellionde escreveu “Afonso” dentro do coração mais pequeno que esboçara. A esperança era agora uma cançoneta primaveril que rodopiava à sua volta. Vindo não sabia de onde, ocorreu-lhe um pensamento: “Talvez não se ame nunca, talvez apenas se deseje”. E até essa ideia, que em circunstâncias normais a teria deixado consternada, lhe pareceu auspiciosa; os corações que desenhara, o cabelo a acariciar-lhe os ombros, o congresso entediante, tudo participava de uma harmonia que sempre existira, mas que só agora se lhe revelava. Levantou-se:

– Eu sou a Ellionde. Vamos tomar um café?

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– Gosto de ti, Marlia!

– Hm! Hm! Elionde!

– Gosto muito de ti!

– Hm! Hm!

– Gosto mesmo muito de ti!

– Hm! Hm! Já percebi.

– Estás tão fria!

– Como queres que esteja, Ellionde? Estás grávida! Traíste-me! Como queres que continue a amar-te?

– Mas eu continuo a amar-te!

– Ellionde, tu continuas a amar-me de acordo com o teu conceito de amor baseado na liberdade e na manutenção do teu espaço pessoal. Sentes que o teu desejo por mim enfraquece por eu querer estar sempre presente em ti. E amas-me menos, porque me desejas menos. E por isso cedeste à tentação.

– Mas voltei para ti! Continuo a amar-te como amava antes! Aceita-me!

– Já não consigo sentir desejo por ti porque o meu desejo é proporcional ao amor que sinto e o meu amor baseia-se na presença contínua, na proximidade dos dois corpos e das duas almas. Amamos opostamente, Ellionde. Não te recuso por estares grávida, recuso-te porque já não te desejo; e já não te desejo porque não me permites que te ame como concebo o amor.

– Oh! Marlia! Eu mudo!

– Tu não consegues mudar! Serás sempre indecisa! A minha decisão está condicionada pela tua indecisão. Estávamos num jogo de espelhos em que se refletiam as nossas imagens e o seu oposto. O espelho partiu-se porque a imagem que resultou do reflexo do reflexo não correspondia à imagem inicial. Complexo?

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Violenta, quebra o arco-íris e espalha as sete cores pelo corpo, pela pele e pelo cabelo: exibe-se depois, durante muito tempo, e quando já não consegue suportar os olhares alheios, penetra na escuridão de um círculo que se fecha após a sua entrada. Lá dentro, deposita o que lhe resta das cores e sopra-as ficando a admirar, entorpecida, o efeito luminoso que provoca nas paredes interiores.

(Publicado a 20 Junho 2013)