Depois de promover a escrita de um folhetim a várias mãos, a Preguiça apresenta um novo projecto literário. Agora, o desafio lançado a diversos escritores passa pela criação de contos em parceria. Há uma citação literária como ponto de partida e cada par de autores deverá escrever, em conjunto, uma estória. Neste quarto episódio, Carmen Zita Ferreira e Elsa Margarida Rodrigues inspiram-se na frase de Bertolt Brecht: “Um homem tem sempre medo de uma mulher que o ame muito”.

ESCALA DE MEDIDA DO AMOR

Carmen Zita Ferreira & Elsa Margarida Rodrigues

A chegada – I

Dona Bia saiu do autocarro, com o andar preso aos 71 anos de saltos, cambalhotas, passos apressados, passos de dança, breves cansaços e alongamentos impostos pelo contexto de um séc. XX muito particular. De calças castanhas, camisola pérola com um suave decote revelador da pele alva e madura de um colo macio, onde muitos sonharam repousar mas só um tivera esse privilégio, Dona Bia detém-se na fachada do prédio de cinco andares mesmo atrás da paragem do autocarro.

“Dr. José Pissarra, Ginecologista, 1.º andar – esquerdo”. Lembrando o motivo que a levava ali, Dona Bia fecha os olhos e baixa o rosto. Mantém-se nessa posição breves segundos, que lhe parecem meses. “Não me vale de nada ficar agora aqui parada”, pensa. De cabeça novamente erguida, impõe às pernas um andar mais concernente com a decisão de subir, prescindindo do elevador “essa máquina pouco fiável”.

Na recepção, com a voz clara mas num tom pouco seguro anuncia:

– Beatriz de Almeida. Tenho consulta marcada para o Dr. José Pissarra.

Pensa, sem esperança de encontrar resposta: “Como é que alguém chega a este ponto por amar demais?”

– Pode sentar-se, Dona Beatriz. Aguarde que a chamem, por favor.

A chegada – II

Saltou ágil do autocarro. Era a paragem certa. Abriu o papel que tinha fechado entre as mãos. Olhou para o prédio de cinco andares que se erguia à sua frente. Era o número certo. Viu a placa metálica afixada com o nome do médico. Era o médico certo. Respirou fundo. Hesitou por momentos. Olhou à volta e respirou novamente, enquanto pousava a mão no puxador da porta e a trazia até ao peito. Tinha de ser. Entrou.

Olhou por um segundo para elevador, que tinha aquele ar velho das coisas que se podem partir a qualquer momento e achou que não valia a pena arriscar. Subiu os degraus dois a dois, com passo elástico.

Chegou à sala ofegante. Respirou fundo mais uma vez, como quem se eleva acima de si, para se impor ao outro eu, mais medroso, que prefere não saber para não ter de tomar decisões.

O sorriso da recepcionista, um sorriso aberto, abriu-lhe caminho até ao balcão. A empregada continuava a sorrir. A perguntar com os olhos. Hipnoticamente disse o nome:

– Ana. Ana Duarte. Consulta das cinco.

Com o mesmo sorriso aberto, a funcionária vestida de branco, respondeu-lhe, apontando a cadeira vazia ao lado de uma senhora de certa idade.

– O senhor doutor está um bocadinho atrasado. Pode sentar-se e esperar, por favor.

Encaminhou-se para a cadeira, sob o olhar atento da senhora de idade. Sentiu-se corar por dentro. Imaginava a sua avó sentada na cadeira do consultório de um ginecologista, a imaginar com censura o motivo que levaria uma rapariga tão nova a estar ali. Amar demais, pensou. Foi tudo por amar demais.

A espera – I

Na sala de espera ninguém olha directamente os outros nos olhos. Todos fingem estar atentos à revista que folheiam ou ao programa que passa na TV e que ironicamente se chama Boa Tarde.

“Boa tarde… Só se for para os outros, que a minha está longe de estar a ser boa!”

Na cadeira vazia junto a si senta-se uma jovem cuja idade ao lado da sua poderia dar uma bela capicua. O motivo que a levava ali não devia ser o mesmo, que os jovens agora sabem proteger-se das mazelas de amar demais, pensa cada vez mais incomodada com a espera.

– Dona Beatriz, por favor. Pode entrar.

Dona Bia ajeita a camisola enquanto se levanta. “Valha-me Deus! Já não posso voltar atrás.”

– Boa tarde, Dona Bia! “Olha, outra vez a boa tarde…”

– Como tem passado? “Mal. Como é que eu devia de andar a passar? Que pergunta mais tola.”

– Ai, senhor doutor, nem sei que lhe diga. Não tenho passado lá muito bem. Veja, trago aqui o resultado das análises. Já abri o envelope, pois está claro, que não sou mulher de adiar problemas e a espera sempre me fez aflição.

José Pissarra começa a ler o relatório com um sorriso aberto que começa a ficar amarelado à medida que os olhos fornecem trágicos dados ao cérebro. Sem sequer um laivo de sorriso pergunta:

– A Dona Bia percebe o que aqui está escrito?

– Pois claro que sim, doutor.

– Dona Bia, porque não veio o seu marido consigo à consulta?

– Ai, senhor doutor, o meu Luís deixou-me assim que soube que eu tenho este bicho a atacar-me o corpo. Disse que não foi ele que mo passou. Que eu sempre tive a mania de o amar demais e que este foi o castigo que Deus me deu.

A espera – II

O tempo passava devagarinho. Tic tac, tic tac, no relógio da sala de espera, a televisão ligada baixinho a debitar as imagens do programa da tarde. Gente feliz, que ria e batia palmas e ela ali, quase a chorar de medo e de raiva, desamparada, sem ninguém, pronta a ser examinada por um desconhecido.

A senhora de idade sentada a seu lado parecia absorta na leitura de uma revista. Agora não era o olhar da senhora que a incomodava. Era o não olhar. A indiferença. Era como se a revista fosse mais importante que ela. Como se a senhora, que bem podia ser sua avó, nem se dignasse a conceder-lhe um olhar.

Fechou os olhos. Nos seus dezassete anos de vida nunca antes se tinha sentido assim…. Bem, talvez daquela vez em que se perdeu dos outros meninos da escola e ficou sozinha, no meio da cidade, sem saber para onde ir. Nessa altura achou que o mundo ia acabar porque nunca mais iria ver nenhuma das pessoas que conhecia, nem voltaria aos lugares que conhecia, nem aos sítios onde sempre brincara, feliz. Agora era um momento assim. O mundo tal como o conhecia acabara e não lhe parecia que pudesse voltar a ser feliz.

Sentiu de soslaio a indiferença da senhora idosa, mesmo no momento em que uma lágrima ameaçava soltar-se e correr desgovernada pela face. Resistiu. Levantou-se da cadeira cor de laranja e agarrou numa das revistas espalhadas sobre a mesa. Talvez conseguisse afogar a tristeza num mar de notícias cor-de-rosa, de futebolistas e actrizes que se casam e divorciam, que vão a festas e têm filhos. Mas a lágrima, teimosa, boiava-lhe nos olhos e marejava-lhe a vista. Ronaldo e a Irina beijavam-se para além da cortina de água. Outra página. Ronaldo e Irina passeavam felizes, de mãos dadas. Tão felizes como ela julgara que poderia ser.

A porta de um dos gabinetes abriu. Uma senhora de meia-idade saiu. Deixou no ar um ‘até à próxima, senhor doutor’. O doutor, de bata branca e cabelo grisalho a rarear, assomou. Olhou por cima dos óculos pequenos para a funcionária sorridente que, solicitamente e sem qualquer voz de comando, entrou no gabinete com o frufru da bata a perturbar o quase silêncio partilhado pelas três mulheres, todas elas baixas na guerra do amor.

Sim, porque o amor é uma guerra. Uma guerra que as mulheres perdem por amar demais. E por amar homens que não as merecem. Ou homens que não merecem o excesso de amor, provavelmente porque o confundem com vitória. E para um homem, depois de uma vitória não vem paz. Vem sempre outra batalha e outra e outra, porque a paz é uma derrota e nenhum homem quer ficar refém.

‘Mas eu amo-te!’, teimava em repetir na sua cabeça, como se o momento estivesse em contínuo playback e ela fosse espectadora de si mesma enquanto dizia ‘mas eu amo-te’, como se isso fosse um argumento válido, como se o fizesse ficar. E ele respondia-lhe num misto de pena e enfado que o amor dela o sufocava e tentava afastar-se, sacudi-la. Ele, que lhe sufocara a boca com beijos. Ele, que lhe jurara amor para sempre. Ele, que a desejara com um desejo feroz. Ele, que lhe parecera insaciável, como só pode ser quem ama muito. Quem ama tudo. Ou quem acredita amar, porque se calhar há um momento, mesmo antes da capitulação e da retirada finais, em que até os homens amam demais.

– Dona Beatriz, por favor – chamava a empregada de sorriso incansável.

A senhora de idade levantou-se com um suspiro. Abandonou a revista como se lhe custasse voltar a si depois de ter vivido em diferido as vidas dos famosos. Os olhares das mulheres cruzaram-se por um instante. A senhora de idade esboçou um sorriso (ou seria um pedido de socorro?) e a jovem sentiu que se calhar também aquela mulher que podia ser sua avó, se tinha perdido no amor de algum homem.

A partida – I

– O doutor diz que a menina seguinte pode entrar. Quanto devo?

Dizem que quando nos acontece algo trágico sentimos o planeta a girar com mais velocidade. Como se o universo nos quisesse impor pela velocidade a verdade de que a vida continua. Dona Bia sentia que o mundo lhe fugia debaixo dos pés vertiginosamente. Saíra do consultório com indicação expressa de contactar o Luís e obrigá-lo a fazer exames. Obrigá-lo a ele e aconselhá-lo a transmitir essa indicação à pessoa, ou às pessoas com quem ele tivesse estado.

– Mas, senhor doutor, o meu Luís diz que não foi ele que me passou isto – tinha argumentado Dona Bia.

José Pissarra nem queria acreditar que aquela mulher, que atravessara já a segunda metade do séc. XX e vivia em pleno séc. XXI, aceitava a hipótese de ter ficado doente por obra e graça de Deus. José Pissarra também não queria acreditar que a sua paciente estava a começar uma luta diária contra o tempo, contra as dores, contra o mal-estar, contra a decadência física do corpo e a falência real da alma completamente sozinha.

Já na paragem do autocarro, Dona Bia pensava nos vasos que tinha de ir regar (maldito calor), no gato tigresa que certamente estranhara a sua ausência e ansiava pelo jantar (bichano lindo), na vizinha que poderia ter necessitado de um raminho de salsa e, surpreendida, batera à porta de um apartamento vazio (aquela coscuvilheira).

– Senhora, não vai subir? Olhe que vou arrancar com o autocarro!

– Não… Pode seguir… Eu tenho todo o tempo do mundo para partir, rapaz.

A partida – II

A rapariga saiu do gabinete. O ‘até à próxima’ do médico pairava no ar e o Universo girava cada vez mais depressa, como se a centrifugasse. O resultado é positivo, dissera-lhe o médico. Positivo, lembrava. E agora era esse momento que fazia replay na sua cabeça: ela sentada de costas e o médico a olhar por cima dos óculos e a dizer-lhe o resultado era positivo, a voz do médico a chegar-lhe em ondas e ela a sentir-se outra vez sozinha no meio da cidade, perdida e o mundo conhecido a desaparecer. Depois o médico expôs-lhe as opções e levara-a para outro gabinete. Pedira-lhe para tirar as calças, sentar-se na cadeira grande e abrir as pernas, e prometeu não a magoar. E desta vez não era por amor mas por ter amado demais que tirava as calças e abria as pernas e deixava que lhe invadissem as entranhas na esperança de que se pudesse tirar o que lá ficara por excesso de amor. O que ele lá deixara. Ele, o cobarde, que partira para não ser prisioneiro do amor.

Pagou a conta com o dinheiro que andava a pôr de lado para comprar umas All Star. A rapariga da entrada a sorrir-lhe ainda, um sorriso que agora lhe parecia uma ofensa para quem saía assim, com o mundo estilhaçado. Pagou com o dinheiro das All Star e saiu silenciosa sem responder às boas tardes sorridentes da funcionária. Como poderia voltar a ter uma boa tarde depois disto?

Evitou o elevador velho e desceu os degraus, como se pairasse, como se não estivesse ali, como se aquele não fosse o seu corpo. Na mão a receita, apertada, queimava-lhe carne e lembrava-a que a vida nunca mais seria igual.

A luz da rua atingiu-lhe os olhos. Fez uma pala com as mãos e tentou enfrentá-la, olhar directamente para o sol que brilhava ainda num céu de pequenas nuvens tingidas de vermelho. Como as revistas, pensou, onde até as dores de amor parecem cor-de-rosa.

Respirou fundo. Dirigiu-se à paragem de autocarro. Sentada no banco estava a velha senhora do consultório, que olhou para ela com um sorriso. Sentou-se a seu lado. Pensou em tirar o telemóvel do bolso. Em enviar mensagens. Em falar com ele. Mas não fez nada. Ficou ali simplesmente, sentada no banco da paragem do autocarro, a ver o entardecer e as pessoas passarem enquanto as lágrimas começavam a correr-lhe desgarradas pela face. E a senhora que podia ser sua avó deu-lhe a mão e disse um ‘vai correr tudo bem’, como lhe dissera uma outra senhora, há muitos anos atrás, quando ela chorara perdida no meio da cidade e achara que não voltaria a ser feliz.

Desta vez, como antes, apertou a mão da senhora e acreditou. Vai correr tudo bem, repetiu para si. Porque não voltará a amar demais.

(Publicado a 27 Junho 2013)