971881_10201079775893849_758654824_nEsta semana olhámos para o outro lado do espelho e encontrámos a Mariana. Alegre e sarcástica, analógica e antiquada. Gostava de experimentar uma caneta digital, mas usa lápis, tinta-da-china, canetas Posca, tinta acrílica e água sobre papel de aguarela.

No país da Mariana vivem homens disformes e barbudos, lobos e pássaros, lagartos, princesas e banhistas, mulheres gigantes e gatos de várias cores, alguns cantores. Antes de se escapar para este universo surrealista e divertido, Mariana inspira-se nas novelas da TVI em geral e na vida em particular. Quando as coisas não correm bem, culpa a Miserável.

Diz a ilustradora de 26 anos que não sabe desenhar e tem queda para o desastre. Mas no apartamento do quinto andar no Porto, cria personagens cor-de-rosa, estranhas, desproporcionais, que lhe valem reconhecimento pelo mundo fora.

Mariana aprecia o ar de quem nunca foi bom aluno e não se importa muito com isso. Gosta das manhãs, sintoniza-se entre o jazz e o rock. Admira Rafael Bordallo Pinheiro. Sonha pintar um quadro e abrir um ateliê com amigos. Mas em criança queria mesmo era ser florista.

Cresceu em Leiria, estudou em Caldas da Rainha e estagiou em Barcelona. Apaixonou-se em Lisboa e mudou-se para o Porto. Hoje agradece a internet – “obrigada, nosso senhor” – e navega com frequência no Facebook, Behance, Pinterest e Tumblr.

Às vezes encontra desenhos seus em destinos improváveis – na Juxtapoz, na DIF, no BOOOOOOM!, na Visão, na Inútil. De tempos a tempos dá entrevistas – Magnética Magazine, P3, Preguiça. As ilustrações que fez para a campanha de comunicação do Indie Lisboa 2013 ajudaram a agência de publicidade a obter um galardão internacional. E ela? “Nunca ganhei nada. Eu disse, miserável.”

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“As minhas personagens andam sempre comigo”

“It’s a huge predisposition for disaster, lack of talent for everything and a lack of care with the materials” – Disseste isto numa entrevista. Falta-te jeito para o desenho? Costumas ser atraída para o desastre, em geral?
Mariana Santos: Disse e é verdade. Eu e o perfeccionismo nunca andamos de mãos dadas. Nunca fui menina de pintar por dentro das linhas e desenhar o real está longe de ser uma realidade para mim, mas também não é isso que eu procuro. Gosto das coisas com um ar feio e tosco, e por isso aproveito a minha inclinação para o desastre mas, mesmo assim, dentro da miséria, preocupo-me em evoluir e aprender com quem sabe.

A arte é exclusiva dos extraordinariamente dotados e treinados?
Na minha opinião, a arte é de todos, uns “crescem” e outros continuam a fazer desenhos até ficarem velhinhos. O talento é uma questão de sorte ou azar, e o treino depende do método de trabalho de cada um.

Dás nomes às tuas personagens? Elas vivem contigo? E auto-retratos psicológicos, há?
As minhas personagens andam sempre comigo porque são inspiradas em coisas que oiço, que vejo ou que penso. Não lhes costumo dar nome, apenas quando são inspiradas em alguém, como por exemplo nos meus dois últimos desenhos, a Júlia Côta e a Sophia de Mello Breyner . Cada uma serve para transmitir uma ideia muito específica, não costumam aparecer em mais de um desenho. Sim, muitas vezes há auto-retratos, mesmo nos homens grandes e peludos.

O que é que significa para ti a designação freelancer?
Para mim freelancer é uma pessoa que, além de preencher o anexo B e SS do IRS, arrisca fazer o que gosta realmente a tempo inteiro, muitas vezes ocupando o dobro das horas de trabalho. É alguém que não tem chefe, direito a férias, muitas vezes sem fins-de-semana e sem a certeza de  ter dinheiro até ao final do mês. Diz que quem corre por gosto não cansa. Vai uma aposta?

Na internet
facebook.com/marianamiseravel
marianaamiseravel.com
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marianaamiseravel.tumblr.com
marianaamiseravel.blogspot.pt
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Texto de Cláudio Garcia
(Publicado a 27 Junho 2013)