Depois de promover a escrita de um folhetim a várias mãos, a Preguiça apresenta um novo projecto literário. Agora, o desafio lançado a diversos escritores passa pela criação de contos em parceria. Há uma citação literária como ponto de partida e cada par de autores deverá escrever, em conjunto, uma estória. Neste quinto conto, Ana Cristina Luze Fernando José Rodrigues seguem a frase de Anton Tchekhov: “Nada une tão fortemente como o ódio – nem o amor, nem a amizade, nem a admiração”.

ÓDIO EM TEMPO DE PAZ

Ana Cristina Luz & Fernando José Rodrigues

À memória de Aristides de Sousa Mendes

Os aplausos que recebia da sala repleta de pessoas provenientes das mais variadas partes do mundo para a ouvirem enchiam-na de satisfação. Sentia uma alegria que raramente experimentara ao longo do seu percurso literário. O som enchia-a de orgulho e dava ao seu rosto um sorriso de alegria que lhe enchia a alma.

Olhou em redor à procura dos rostos que ela tão bem conhecia e a quem tanto devia. Encontrou a mesa onde estava o seu marido e as suas duas filhas, juntamente com Harry, o responsável pela sua presença ali. Abraçou-os com o seu sorriso, lançando um obrigada a todos, visível apenas por quem a conhecia bem.

Passou em revista os últimos anos e não podia deixar de sentir uma enorme satisfação por tantos obstáculos ultrapassados. Desejou que aquele momento não acabasse.

Recordou Aristides de Sousa Mendes, um homem injustiçado no seu tempo e depois da sua morte, os primeiros contactos com a família, as longas horas, dias de pesquisa e a decisão de escrever sobre ele e sobre aqueles que ele salvou. Lembrou os rostos dos que foram salvos por Aristides e a sua emoção ao falarem de um homem a quem deviam a vida, testemunhos emocionantes e que mais reforçam o carácter nobre e bondoso de um homem singular. E a sua determinação em contribuir para a sua memória, registando no papel o seu gesto sem tamanho.

Alain chegou ao prédio, subiu ao terceiro andar, bateu à porta. Só muitos minutos depois Joshua abriu a porta, depois de ter desconfiado das batidas rápidas e nervosas. Espreitou pelo buraco e só via o rapaz cujo pai era seu paciente. Num segundo recriminou-se por tantas suspeições, afinal Martin podia estar doente e a precisar de olho clínico. “Moment”, deixou escapar para o lado de fora e as suas mãos gordas retiraram correntes e a chave pesada finalmente permitiu a entrada do rapaz.

O livro editado em Portugal teve um êxito moderado, como acontece com a maior parte das obras de autores desconhecidos, afastados dos grandes meios culturais ou sem alguém que os apadrinhe. A consciência de que subiu a pulso, sem dever nada a ninguém nesse aspecto enchia-a de orgulho.

Mas a vida tem destas coisas e a sua obra, em vez de cair no esquecimento, atraiu as atenções de Harry, um nova-iorquino ligado à causa do Cônsul de Bordéus. Um encontro em Portugal, uma troca de palavras, um encontro fortuito mais tarde e a oferta do livro foram o início de um percurso que demorara dois anos mas que acabara por ter os seus frutos.

Harry não descansou enquanto não tratou da tradução do livro, não tanto por vontade de o conseguir ler, mas já a pensar numa edição no seu país. Não se poupou a esforços para conseguir levar a termo aquela tarefa que esbarrou num problema fulcral, a falta de apoios. Mas, com muita persistência, conseguiu o patrocínio de algumas entidades locais que permitiram não só a tradução e edição da história que ela escrevera com tanto de si, como juntar imagens que tão bem ilustram uma história que vai para além das fronteiras da língua, tudo junto num livro que agora iria correr mundo.

Eram os dele a correr mundo. Uma vez mais.

Temos de ir embora?, interrogou-se Sarah, chorando sem lágrimas. Joshua conhecia a mulher há 15 anos e sabia que, lá por dentro, o medo de deixar tudo, o medo de abandonar o passeio diário no passeio florido, o medo de entrar num mundo desconhecido a faziam tremer. Alain, afogueado, bebendo um chá de camomila, acenou com a cabeça. Sim, sim!, o pai mandara-o sem demoras dar as notícias da triste guerra. Joshua sentou-se, o corpo anafado lembrava um boneco de trapos, agora amargurado, sem jeito, sem força, sem disposição para fugir. Alain aceitou um pouco de bolo de canela e por momentos pensou que Paris não podia estar a ser invadida por aquele homem do bigode ridículo.

Olhou para Harry e agradeceu-lhe em silêncio. Ele sorriu-lhe de volta, lançando-lhe um “Thank you!”.
Naquele momento de glória recordou os que a ajudaram, o apoio da família, dos amigos, de desconhecidos que se prontificaram a contribuir com a sua ajuda graciosa e sorriu.

Era o seu momento de glória e desejou partilhá-lo no seu coração com todos aqueles que de alguma forma a apoiaram naquele percurso que se prolongara por quase dez anos, desde que tomara conhecimento da Fundação até chegar ali, àquela magnífica sala de um conceituado hotel de Nova Iorque, tendo na plateia pessoas como o embaixador de Portugal, de Israel, do Luxemburgo e da Bélgica, que a ovacionavam de pé.

Não poderia pedir mais naquele momento.

Naquele momento Joshua olhou para Sarah e viu o seu ventre cada vez mais redondo. E o teu pai diz para irmos para Bordéus? Alain engasgou-se e fez que sim com a cabeça. Porquê Bordéus? Alain beberricou o resto do chá, recusou mais e soltou uma notícia como se fosse uma pomba a voar nos céus: Porque lá há um cônsul que ajuda pessoas em fuga.

Depois foi tratar de tudo como se a vida continuasse norma: pagar um transporte, andar pelas ruas só quando necessário, disfarçado de alma translúcida, como se isso fosse possível.

Os vizinhos olhavam-nos de lado, na porta da casa já aparecera um J, o garoto da frente, François, que durante anos brincara com as duas filhas cuspia-lhes sempre que podia.

O governo foi para Vichy, sussurrava-lhe Alain. Não precisavas de vir cá, rapaz. É perigoso. Alain sabia e enquanto trincava mais um pedaço de bolo com cada vez menos canela, ovo, farinha, sabia também que não podia deixar os amigos entregues às rusgas cada vez mais frequentes e mais próximas.

Na noite em que partiram, chovia em Bordéus e toda a gente parecia dormir, Alain despediu-se, choroso, de todos eles: pai, mãe com gente dentro, Elisa e Leah, a donzela que lhe levava o coração.

Pare! Esqueci-me da Torah!, sobressaltou-se Joshua. Embrulhara-a com o maior dos respeitos e na pressa da fuga deixara-a em cima da mesa.

Joshua correu o mais que pôde, subiu os três andares, recuperou os textos sagrados e desceu. Quando abriu a porta, estacou: François apontava-lhe o dedo, indicando-o a um grupo de busca.

De longe o Citroen via Joshua ser espancado, caindo e sangrando, agarrando-se ao embrulho. Sarah quis sair do carro, Mais non! On y va!, despachou o motorista clandestino. E no ruído do motor sentiram os últimos estertores de Joshua, levado por Deus, até ao infinito.

Mas de repente, do fundo da sua alma, de um canto negro do seu coração, surgiu um rosto, uma figura tenebrosa que ela não conseguira ainda apagar da sua existência. Todos os que ela amava, todos aqueles por quem ela tinha amizade desapareceram por momentos, para darem lugar àquele olhar desdenhoso que a atormentava.

Alguém que em tempos lhe roubara algo de muito precioso, facto que ela nunca ultrapassara, apesar dos esforços que constantemente fazia para apagar aquela presença incómoda da sua memória.

A história corre sempre pela sua família, para que a memória não se apague. Com um passaporte de Sousa Mendes, Sarah e as meninas vieram para Portugal e por aqui se ficaram. De Sarah saíu Dalia e de Dalia saíu ela. O livro era por Joshua, por Alain, por Sarah, por Elisa, por Leah, por Dalia que se fora num dia sem mais dizer, pelas suas filhas. E por Alain e por todos aqueles que arriscaram a vida. Por Sousa Mendes e pela sua consciência de justo.

Mas ela lá estava, à espreita de um momento oportuno para aparecer, para a atormentar e para lhe lembrar que, por mais que ela fizesse e conseguisse alcançar na sua vida, nada seria suficiente para conseguir libertar-se daquela sombra.

Harry veio ter com ela, Queres que o ponha fora? Afinal há muitos anos que sabia onde ele morava, o que fazia. Olhou para Harry e com a tranquilidade de Sarah, de Elisa, de Leah, de Dalia, de Joshua, de Alain disse-lhe, Não vale a pena!

Por mais que não quisesse admitir, pensava por vezes que todos os seus sucessos, tudo aquilo que conseguira alcançar ao longo da sua vida se devia ao ódio que guardava dentro de si e a uma constante necessidade de se superar a todos os níveis, para provara a alguém que ela não era aquele ser infeliz que iria viver sempre à sua sombra.

Não vale a pena. Finalmente sabia que os mortos mereciam mais. Serenidade. E quando chegou a vez dele na fila de autógrafos, o velho perguntou-lhe, arrogante, Sabe a quem pode dedicar este livro? Ela olhou-o como se visse Paris e Bordéus e retrucou-lhe com toda a tranquilidade, Claro! A Francis! Ou quer que ponha François?

O velho cambaleou enquanto ela escrevia a dedicatória, A memória dos mortos não nos permite perdoar aos assassinos. Que saiba agora que eu sei onde vive. Não irei atrás de si. Mas o meu dedo, o de Joshua e de muitos outros estarão permanentemente apontados a si. Nós não esquecemos.

Como nunca esqueceremos Aristides de Sousa Mendes.

(Publicado a 4 Julho 2013)