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Afastado do corrupio das redacções, Zé Oliveira, caricaturista e cartoonista conceituado da nossa praça, não anda menos ocupado do que quando publicava semanalmente em vários jornais. Ainda que igualmente desligado dos concursos e do espírito autodidacta de outrora que o levava a estar presente em tudo quanto existia de publicação com carácter satírico, a mão malandra de Zé Oliveira não pára.

A Preguiça invadiu o atelier do artista e entre resmas de livros, papel e folhas soltas, onde moram milhares de desenhos, textos, rabiscos e anotações, encontrou um entusiasmado contador de estórias, completamente rendido à história da caricatura de Coimbra e sobre a qual se prepara para escrever um livro.

Enquanto devora documentos, imagens, livros e jornais inscreve também o seu nome nesta história já que grande parte do seu tempo é passado a caricaturar os estudantes universitários que mantêm viva a tradição dos cadernos de curso que “em 1903 terão sido feitos pela primeira vez”, diz a pesquisa de Zé Oliveira.

Além das caricaturas de estudantes e o estudo aprofundado sobre a caricatura em Coimbra, Zé Oliveira é autor do cartoon O Broncas, editado quinzenalmente no jornal Trevim, da Lousã, e publica ainda desenhos na revista do sindicato da CGD e da FECO – Associação de Caricaturistas à qual preside. E entre tantos riscos e rabiscos sonha ainda com alguma tranquilidade para poder cuidar da horta lá de casa.

A merda, depois de bem curtida, é óptima para fazer desenvolver o jardim e a horta

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Qual foi a sua caricatura mais bem-sucedida?
A resposta “clássica” seria: a próxima! Mas os caricaturistas não são gente que tenha por hábito repetir clichés, pois a sua rotina de trabalho funciona na base da procura da surpresa. Sem surpreender o leitor, não se consegue fazê-lo sorrir. Mas tenho uma resposta ainda mais fácil para dar! A caricatura que me resultou melhor (porque acabou premiada com o Grande Prémio de Caricatura no Salão Nacional, donde resultava não só o troféu mas também um cheque de 750 contos), foi uma de José Saramago. [na galeria abaixo]

E qual o cartoon que causou maior rebuliço?
Bem… tive uma vez um que ficou suspenso durante uma semana, porque aludia a uns quid pro quos de empreitadas de auto-estradas que tinham ido parar a tribunal. Uma das construtoras envolvidas era proprietária do semanário em que o boneco iria ser publicado, de modo que me foi pedido que fizesse outro cartoon para substituição. E assim fiz (que remédio!…), mas colei o original do desenho suspenso numa das paredes da redacção. Pelo menos o pessoal do jornal tomou conhecimento do episódio. Passado dias, fui autorizado a publicá-lo na edição seguinte. Foi-me dito que um dos responsáveis da construtora tinha entretanto regressado do Brasil e não via inconveniente na publicação… Doutra vez, recebi um telefonema que me informava que um director de uma colectividade leiriense com pergaminhos na área musical, se passeava conduzindo um descapotável de boa marca, adquirido pela associação para “serviço” da Direcção. Entreguei o cartoon em cima da hora de fecho da edição, mas isso não invalidou o “chumbo”. Foi-me pedido que o substituísse. E assim fiz (que remédio!… Eu já disse esta frase, não disse?!…). Já estava em casa, quando recebi um telefonema da redacção pedindo-me detalhes acerca do assunto. Coloquei o redactor em contacto com a minha fonte, e… o meu cartoon não saiu, mas saiu uma peça redactorial a desenvolver a notícia. Donde se conclui que o humor incomoda mais do que o mesmo conteúdo em texto. Podia contar mais umas dúzias de episódios do género, mas a resposta já está longa…

De que precisa um cartoonista para ser bom?
Esta é uma pergunta manhosa. Se eu soubesse a resposta, seria um bom cartoonista! Bem, continuemos sem rodeios: um cartoonista tem de ter espírito de jornalista, porque um cartoon trata os temas da actualidade, que ele tem de seleccionar e comentar. Se os comenta de forma imaginosa, está a fazer crónica. Portanto, também é comentador ou cronista. Faz isso utilizando o efeito surpresa (por vezes numa base de nonsense ou de cruzamento de duas ideias), portanto tem de ser um hábil contador de histórias. Necessita de saber escrever de maneira escorreita, concisamente e sem erros, numa linguagem que toda a gente entenda, pois tem de dizer muito em poucas palavras. Precisa de ter o talento dos poetas que escreviam sonetos, pois não terá graça nenhuma um cartoon que não feche com chave de ouro (agora chama-se-lhe punch line!…) Para terminar, Sem algum talento para desenhar não há cartoonista.

Como é que se consegue ser um gajo com piada num dia mau?
Como é que o Cristiano Ronaldo consegue uma boa exibição num dia mau? Não consegue! Nesse dia, limita-se a fazer figura de corpo presente durante os 90 minutos! Ou vocês nunca viram cartoons sem piada?

O papel do cartoonista é o do garoto que grita “O rei vai nu”

Toda a gente tem sentido de humor, ou há mesmo sisudos incorrigíveis?
Creio que toda a gente tem algum sentido de humor. Até o ministro Vítor Gaspar! (eu disse Ministro; se sair Sinistro, é porque é gralha) [ainda era Ministro e Sinistro quando fizemos esta entrevista]. Mas os cartoonistas são sisudos incorrigíveis. E não admira! Normalmente, trabalhar é uma chatice (pior, só ser desempregado). Ora, se o trabalho do cartoonista é produzir humor, se ele sofre o dia todo à procura de uma boa piada, ele vai achar graça a quê? Às piadas dos colegas? Mas, essas, ele encara-as profissionalmente, numa base de crítica, “o gajo abordou bem este assunto”, ou “a punch line está sem força”, ou ainda “sacana do gajo é mesmo bom, nunca mais morre, quem sabe se não me convidariam para preencher a vaga dele…”.

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Um cartoon jornalístico deverá suscitar o riso também no visado?
Não! Isso seria um cartoon falhado! Quando o garoto gritou “O rei vai nu”, toda a gente riu menos o rei! Esse ficou encavacado, envergonhado por ter caído na ratoeira do charlatão. E o charlatão também não riu. O papel do cartoonista é o do garoto que grita “O rei vai nu”.

Uma fase má de um país (como é o caso de Portugal) é sinónimo de uma fase boa para a caricatura e cartoonismo?
É. A merda, depois de bem curtida, é óptima para fazer desenvolver o jardim e a horta. Escreva aí que “curtir” significa “fermentar”. É português arcaico… de há trinta anos…

Como avalia o humor que faz hoje em dia?
Eu e a maioria dos cartoonistas portugueses, estamos a produzir pouca quantidade de humor. Presentemente, os jornais não publicam material “subversivo”. Cartoon é opinião e, em matéria de opinião, os periódicos vão preferindo a dos “comentadores” esterilizados que não dizem mais do que aquilo que convém. Cobram caro? Já pagaram (ou pagarão) em dobro. Regressando à pergunta: se publicamos pouca quantidade, não criamos a rotina da qualidade. Atleta que não treina, vai-se abaixo das canetas.

O humor para ter sucesso pressupõe que o outro lado tenha de o entender. Já deixou muitas ideias de parte por achar que eram demasiado rebuscadas?
Já. Mas também já publiquei muitas que só não foram para o cesto dos papéis porque não me surgiu melhor ideia. E depois, foram essas que originaram telefonemas ou interpelações no café a dizer “eh pá, aquela estava mesmo boa!”

De 0 a 100 quanto dá ao humor dos portugueses?
Sem!

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Entrevista de Paula Lagoa
Fotografia de Ricardo Graça
(Publicado a 4 Julho 2013)