Conto: ‘Beijo’

Depois de promover a escrita de um folhetim a várias mãos, a Preguiça apresenta um novo projecto literário. Agora, o desafio lançado a diversos escritores passa pela criação de contos em parceria. Há uma citação literária como ponto de partida e cada par de autores deverá escrever, em conjunto, uma estória. Neste sétimo capítulo, Gisela Estrada e Paulo Kellerman partem da frase de John Steinbeck: “Conseguimos encontrar tantas dores quando a chuva cai…”

BEIJO
Gisela Estrada & Paulo Kellerman

Acreditas no excesso de acasos? É que foram eles que me trouxeram até aqui. Pequenos acasos que se foram sucedendo, aparentemente fortuitos ou talvez encadeados entre si, não sei bem, que não estou muito habituada a pensar nas coisas da vida e na forma como elas fluem e confluem. Ou talvez não tenham sido acasos mas aquilo a que as pessoas pomposas e com espírito cinematográfico chamam destino. Não interessa.

Aconteceu (não sei bem se por acaso mas, afinal, que importa porque motivo acontece seja o que for, desde que aconteça?) que não fui trabalhar e fiquei em casa sozinha e logo me aborreci, mais do que habitual porque aborrecida ando eu sempre (é o que me dizem). Aconteceu que, por nenhum motivo específico, quis começar a ler um livro que me distraísse e andei de volta da prateleira à procura de algo indefinido e não encontrei nada do que procurava porque para se encontrar é preciso saber o que se procura e eu nunca soube. Aconteceu que entre as páginas de um livro nunca lido até ao fim encontrei um postal muito antigo, enviado por uma amiga há muito esquecida. Aconteceu que fiquei a pensar nessa amiga e em todas as outras amigas perdidas e depois nos amigos perdidos e depois nas oportunidades perdidas e no tempo perdido e nos sonhos perdidos. Aconteceu que enquanto pensava em tudo o que perdera, a nostalgia se apoderou de mim, talvez porque seja tão fácil trocar a imutabilidade do passado pela imprevisibilidade do presente (mas será o passado realmente imutável?). Aconteceu, não sei bem como, que dei por mim enfiada no sótão e rodeada de passado por todos os lados, sedenta da alienação que apenas um mergulho na memória pode proporcionar. Aconteceu que fui abrindo caixas, encontrando fotografias, lendo bilhetes, espreitando cadernos, cheirando frasquinhos de perfume e folhas de árvore espalmadas, recuperando reminiscências e lembranças, revivendo momentos. Aconteceu que estava a sorrir, o que por vezes é sinónimo ou prelúdio ou antecâmara de felicidade. E aconteceu (por acaso, por completo acaso) que reparei num envelope por abrir, reparei numa carta não lida; e talvez ainda a sorrir, abri o envelope, li a carta. A carta que me trouxe até ti.

Tanto que aconteceu, para estar aqui.

E já que aqui estou, já que aqui estamos, gostava que estes acasos não se ficassem por aqui e me levassem para além deste café, para além daquilo que conheço. Abri a porta ao passado ao abrir aquela carta e não conseguirei voltar a fechá-la até que faça sentido, e não posso ficar nesta terra de ninguém, suspensa entre um passado cheio de ruído de estática e um presente emudecido. Mesmo que não saiba bem o que é isso de fazer sentido, a minha vida nunca foi como um folhetim onde todas as peças encaixam apontando para um destino, é mais uma sucessão de rabiscos que se cruzam de quando em vez.

Dão temporal para esta tarde e consigo senti-lo, a pressão nas têmporas, as mãos que tremem imperceptivelmente. Só sentirei alívio quando começar a chover.

Já tinha lido que era possível apagarmos episódios da nossa vida, mas não acreditava. Achava que era conversa da treta, psicologia de balcão. E eis que surge de novo aquela tarde, renascida do pó das lembranças, crua e luminosa, não posso não olhar para ela. Também choveu nesse dia, lembras-te? Os convidados fugiram todos do jardim e a minha mãe ficou aflita, a acarretar tortas e salgados como se a sua vida disso dependesse.

Já nos conhecíamos há algum tempo, já tínhamos conversado uma ou duas vezes, já tínhamos (eu tinha, quero dizer) fantasiado sobre como seria estar com o outro; mas foi nesse domingo, nessa festa para a qual fui arrastada e onde não queria estar, que nos olhámos verdadeiramente pela primeira vez, nos tocámos pela primeira vez.

Estávamos no casamento da minha irmã mais velha e eu tentava disfarçar a minha tristeza; era uma tristeza mesquinha, feita de inveja e incerteza, de imaturidade, de medo, de adolescência; uma tristeza que precisava ser escondida. Mas o que aconteceu foi que tu chegaste junto de mim e perguntaste: “Porque estás tão triste, prima?”. E eu, que estava convencida de ter conseguido disfarçar a tristeza, fui incapaz de dizer algo que não fosse a verdade; e respondi: “Porque também queria casar”. Arrependi-me de imediato e amaldiçoei-te por me teres surpreendido, por me teres apanhado desprevenida, por me teres arrancado a verdade de forma traiçoeira e pérfida, por me teres vulnerabilizado. Olhaste para mim com uma seriedade compenetrada e respeitadora mas, logo depois, estouraste num riso explosivo e contagiante; em simultâneo, fizeste mais: pegaste na minha mão (senti os teus dedos envolverem os meus e isso tranquilizou-me de um modo inesperado e instantâneo; como se fosse uma queimadura mas ao contrário). Disseste: “Anda daí, vamos apanhar ar”. E levaste-me contigo, as nossas mãos entrelaçadas pela primeira vez (não o sabia mas também pela última vez).

Apanhámos ar. E fomos falando, enquanto deambulávamos por jardins repletos de crianças ruidosas. Quase por magia, deixaste de ser um primo distante para te transformares num amigo próximo, a quem (senti eu, ingenuamente) poderia contar tudo porque me compreenderia. Fui revelando-me e tu foste amparando as minhas tristezas e dores e ódios e medos com sorrisos e comentários simpáticos. Olhavas-me com interesse, por vezes com intensidade, por vezes com desejo (acho eu, desta parte não tenho a certeza); e ouvias. Percebeste como gostava de me ouvir a mim própria, percebeste como precisava de atenção. Ouviste tudo o que tinha a dizer, sem enfado ou contrariedade. E eu fui falando, falei de tudo o que calhou, sentindo-me segura e compreendida, sentindo-me ansiosa por te cativar e seduzir; ansiosa por me revelar, para que soubesses tudo de mim e decidisses, apesar disso, ficar.

Entre outras coisas, fui incapaz de não te confessar o mais estranho dos meus segredos. Disse-te: “Sabes que não consigo chorar? Sou incapaz de o fazer. Como se fosse deficiente ou assim. É uma incapacidade que tenho e que me custa muito, não imaginas como custa. Por vezes, queria tanto chorar, nem imaginas. Sentir o alívio do choro, sentir a dor esvair-se entre lágrimas. Queria mesmo chorar”. E tu respondeste, com um sorriso sereno e um olhar intenso: “Um dia, vou conseguir fazer-te chorar”. Sorri com a tua resposta e fiquei em silêncio; sabes o que pensei nesse momento? Pensei: vai ser tão fácil amar-te. Foi isso o que pensei. Tinha dezasseis anos, ainda acreditava em idiotices míticas e místicas como o amor.

Foi então que começou a chover. De súbito, havia gente a correr para proteger a roupa alugada, risos nervosos e gritos alegres de crianças, a atrapalhação da minha mãe e de outras senhoras a proteger a comida. Alguém falou de boda abençoada por causa da chuva, uma tia que regressara à pressa do estrangeiro para onde emigrara há uns meses gritava entre risinhos “Il pleure”, quando queria dizer “Il Pleut”. Ficámos um pouco ali, em silêncio, sentindo a chuva de Verão no rosto, no cabelo, nas mãos, nos ombros; unidos pela chuva de Verão, pelo perfume inebriante da relva e das flores, das árvores. Depois fomos abrigar-nos, caminhando apressadamente; mas desta vez já não me deste a mão. Tentei não dar importância a esse pormenor, entretendo-me a sorrir com a curiosa confusão da minha tia entre pleure e pleut, entre choro e chuva.

Abrigámo-nos debaixo de umas árvores, longe dos restantes convidados. Na verdade, abriguei-me porque tu o fizeras; pois o que eu mais queria era ficar à chuva até o céu se esgotar, sentir o peso da roupa encharcada no meu corpo e os meus pés afundados como raízes no chão amolecido, partilhar contigo esse assombro da vida a fervilhar, da água benfazeja sobre a terra sedenta. Procurei o teu olhar, o teu olhar que de repente me fizera pertencer àquela tarde, me arrancara de mim – ou talvez me ancorara em mim. Mas não mo devolveste. Fixavas um ponto qualquer para além do arvoredo, para além do que a vista alcançava. No preciso instante em que percebi a tua distância, senti também o meu desejo por ti como uma guinada de dor, e soube que me iria acompanhar noites fora, esfolando-me os nervos e mantendo-me à tona da esperança.

Quis dar-te a mão, mas não ousei. Quis falar, chamar-te pelo nome, mas a chuva amortecia todos os sons e teria de erguer a voz, e nunca soube erguer a voz. Fiquei calada, a sentir as palavras por dizer embargarem-me a respiração (ainda tinha muitas para te dizer, queria dizer-te todas as palavras do mundo), os minutos a pingarem lentamente, até que por fim o céu sossegou.

Não deixara por um segundo de fixar os teus olhos, e pareceu-me que se embaciavam. Viraste-te para mim e disseste de novo: “Hoje não; mas um dia vou voltar, e vou conseguir fazer-te chorar”. Deste-me um beijo, tão breve que não lhe consegui fixar o sabor, e regressaste ao restaurante. Um verdadeiro beijo: e não há forma de duas pessoas estarem mais próximas, mais unidas, do que através de um beijo. Mesmo que seja breve; existiu e, depois disso, nada poderia ser o mesmo.

Do resto daquele dia não te saberia contar mais nada. Passou esfiapado, diluído, saturado de humidade. Sei que trocámos algumas palavras banais, conversas de circunstância, e que me senti atordoada pelas luzes, pelo espumante que bebi e pelas expectativas frustradas. Despediste-te ainda não era meia-noite, disse-te a brincar que eras como a Cinderela, sorriste-me e por momentos julguei que voltáramos ao jardim, mas depois foste embora.

Mais tarde soube da tua partida. Despeitada, decidi silenciar tudo o que despertaras em mim, empenhei nisso todas as minhas forças, fui teimosamente calcando a lembrança daquela tarde até a deixar irreconhecível. Esquecer-te significava resignar-me à minha adolescência amargurada, mas hasteei-a fingindo que era uma escolha e assim, quando chegou a carta, decidi não a abrir.

Depois, aconteceu a vida. E já sabes como é a vida: distrai-nos. Esqueci tudo porque era preciso esquecer, era fundamental esquecer. Fui esquecendo, até não haver nada para lembrar. E tudo permaneceu esquecido até encontrar esta maldita carta, vinda até mim através de uma série de acasos; acasos: aquilo a que as pessoas pomposas e com espírito cinematográfico chamam destino.

Lembras-te do que escreveste? “Queres chorar comigo?” Foi isso o que escreveste, perguntaste se queria chorar contigo. E agora que aqui estamos, juntos todo este tempo depois, olhando-nos como se não houvesse mundo para além de nós, tudo o que desejo é fazer-te uma pergunta. Apenas uma. Poderia fazer-te muitas perguntas (sei lá… poderia perguntar-te por que motivo vieste, se és feliz, qual é o teu gelado favorito, se me achas bonita, que pensavas enquanto me escrevias uma carta com uma única frase; coisas assim) mas é preferível ignorar todas as minhas curiosidades; vou apenas agradecer-te por teres vindo, pedir desculpa por ter ignorado a tua carta durante todo este tempo e fazer uma única pergunta.

Olha como a chuva está forte; tanto que me alivia a chuva, nem imaginas; e é estranho, porque se diz que conseguimos sentir mais as nossas dores quando a chuva cai; bom, comigo é ao contrário: apetece-me dançar à chuva, como naquele filme palerma, sabes qual é? Mas deixa lá a chuva, é o mundo a chorar por mim, que nem isso sou capaz de fazer sozinha.

O que quero perguntar-te é isto: “Beijas-me?”

(Publicado a 18 Julho 2013)

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