Querem saber quem é o artista mistério?

Cemitério de Carvide

Querem? Querem? Vamos só desmascarar um bocadinho, se calhar, vamos desmascarar por fascículos. Ainda não sabemos. Um bom mistério, mesmo resolvido, deve manter-se ligeiramente misterioso. A Preguiça em modo mistérioleaks.

Então é assim: há uns tempos, conversa puxa conversa, assunto chama assunto, pergunta traz… Percebi que era bem possível estar cara a cara com o famoso artista mistério. O tal, que algures durante 2012 madrugava uma noite por semana, mais coisa menos coisa, para intervir urbanisticamente nas paredes cá do burgo, enriquecê-las comspray emoldurado (a minha melhor descrição para stencil), e com isso fazer capas de jornais. Enervava-me bastante não saber quem era, logo eu que tenho a mania de achar que conheço toda a gente. 

As pinturas, simples mas com pinta, atractivas esteticamente, de significado directo mas expressivo, comunicam com e sobre as gentes e os locais, intervêm sem gritar, e acho que podemos todos concordar - quem não puder, azar – valorizaram os espaços. Em sinal disso mesmo, nenhuma foi apagada até à data, segundo a nossa minuciosa investigação. Primeiro foi a menina triste no cemitério de Carvide, depois os corvos de tinta preta poisaram nos pilares da auto-estrada, nos campos do Lis; eram muitos, todos diferentes. Seguiu-se o homem apressado com a mala na estação ferroviária de Monte Real, acho eu, para o caso também não interessa. Depois vieram Amaro e Amélia junto à Sé de Leiria e mais uns quantos cronologicamente desarrumados na minha cabeça.

A dada altura, não se falava noutra coisa nesta cidade. Ele era exposições alusivas ao artista mistério. Manchetes. Uns contra, outros a favor. É crime, é arte. É uma mulher que sai à noite e que para esquecer o seu grande amor pinta as paredes, esta inventei agora. Campanha de marketing arquitectada por alguém de um jornal que não vou dizer o nome, mas começa por Região. As teorias eram muitas.

Ernesto Korrodi, junto à casa do arco.

- Luís Rui (à moda dos tablóides, chamar-lhe-ei uma catrefada de nomes, fictícios ou não. Conjugados podem decifrar o verdadeiro nome do artista, ou até, se somados, resultar no nome completo do senhor, caso ele seja  filho da casa de Bragança, eles gostam de dar nomes compridos à descendência), tu és o artista mistério!!! Houve gaguejos, uns hãs!!!, uns dentes à mostra. Não negou, mas também não admitiu totalmente. Pensei, analisei, perspectivei e disse: Tau!!!! És mesmo tu, Vitor Sérgio. A partir desse dia, apesar de ser uma inquietação adormecida, porque tenho mais em que pensar, sosseguei. Tinha descoberto a identidade do tal gajo que andava armado em Bansky. Chateei-o moderamente nesse dia; depois, fui chateando de vez em quando. Esta semana, em que o mistério planou na forma de candeeiro desfocado para os lados da Maceira, topem só o coelho que a Preguiça sacou da cartola. Marcelino Gastão, não assumido totalmente, fez-me o jeito de ser o artista mistério ou de me conceder uma conversa. Não sabemos. Se não for ele, o verdadeiro que prove o contrário num duelo de artistas mistério a organizar pela Preguiça.

RMP_3914

Basicamente, as pinturas fazem parte de um período que começou entusiasmante e depois, naturalmente, se esgotou, deixou de fazer sentido. O criativo, irrequieto, diz que o stencil faz parte do passado. Porquê? “Porque gosto de experimentar diferentes formas de me expressar”. Em 2012 era assim, hoje é de outra maneira. Assume que o caso teve a dimensão que teve por ser em Leiria, um meio pequeno, e nem atribui assim tanto valor às suas criações: “Numa grande cidade, passavam completamente despercebidas”. Também o fez noutros lados e ninguém lhes ligou, revela. 

A ideia do projecto, a mensagem? “A mensagem é tautológica, 1+1=2″. Reparem que o artista fala caro; às tantas estudou História de Arte. De seguida, tenta vender-me a ideia de que o título desta grande semi-entrevista devia levar a palavra tautologia. “Artista tautológico”. José Idalécio refere-se ao facto de na intervenção existir uma clara ligação entre o desenho e o espaço onde se insere, invocando as vivências e as memórias do local: assim é que deve ser a intervenção urbana na visão do leiriense. É tautológico. Em relação às preferidas, sente um  carinho especial pela do Eça de Queirós e tem pena de terem roubado a moldura ao Ernesto Korrodi. Vandalizam tudo, até vandalizam uma espécie de vandalismo: “A intervenção urbana tem sempre um pouco de vandalismo”. Fã de Blek le Rat, até um pouco mais do que de Bansky, teve de recorrer a amigos para o ajudarem nas madrugadas mais trabalhosas. Portanto, mais alguém sabe quem ele é. Admite que algumas lhe correram melhor do que outras, “com a adrenalina de pintar às escondidas, à noite, com a tinta a escorrer e o stencil a esfarrapar-se…” Mas a malta perdoa-lhe, acho eu.

artista mistério_interior

Embora Baptista Guilherme nunca o tenha dito por estas palavras - “eu sou o artista mistério” -, o que me deu alguma vontade de lhe dar um soquete, e mesmo tendo em conta que o melhor que conseguiu desenhar em light painting, foi este boneco aqui em cima. Técnica essa que sempre o fascinou, ainda que por vezes volte ao local para a apreciar e ela nunca lá esteja. Eu dou um dedo do pé em como o artista mistério é o senhor ali retratado. Porquê? Porque utiliza a palavra tautologia com grande aprumo, é artista, tem sentido de humor, está ligado, é inteligente, dinâmico, é alto, tem bigode e isto começa a parecer o ‘Quem é quem?’ 

Sei que, para vocês, chegar a esta altura e não saberem quem é, é aborrecido. Desculpem o mau jeito. Fica para o segundo fascículo.

(Publicado a 18 Julho 2013)

5 responses to “Querem saber quem é o artista mistério?

  1. Será mesmo? tenho algumas dúvidas… tive, na época, uma pista preciosa e sigilosa que indicava outro caminho…. será?

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