Depois de promover a escrita de um folhetim a várias mãos, a Preguiça apresenta um novo projecto literário. Agora, o desafio lançado a diversos escritores passa pela criação de contos em parceria. Há uma citação literária como ponto de partida e cada par de autores deverá escrever, em conjunto, uma estória. Neste oitavo episódio, Carmen Zita Ferreira e João Silva partem da frase de Agustina Bessa Luís: “O amor é o habitual no invisível”.

O AMOR É O HABITUAL NO INVISÍVEL
Carmen Zita Ferreira & João Silva

Rafael está de frente para o espelho. Tenta compor a gravata e desatar o nó que sente na garganta. Pela primeira vez em 30 anos tem de ser ele próprio a fazê-lo.

Sozinho, naquela casa onde sempre viveu, sente-se perdido. Abre e fecha gavetas à procura das peúgas, não sabe onde está a graxa para os sapatos, a roupa começa a amontoar-se por todo o lado. Nunca tinha tido a noção do quanto um homem consegue ser desarrumado.

A casa perdeu qualquer coisa, a alma talvez, há um silêncio incomodativo, não ouve o barulho da louça, dos pratos e talheres sobre a mesa, os electrodomésticos, o aspirador. De repente alguém desligou a banda sonora da sua vida doméstica.

O pior são as noites. Mal consegue passar pelo sono e acorda sempre em sobressalto, sem saber verdadeiramente por que razão não está Ivone a seu lado.

Há precisamente três semanas, Ivone decidira viajar sozinha, pela primeira vez na sua vida e Barcelona tinha sido o destino escolhido. Enquanto solteira sempre viajara com os pais e depois de casada, nas viagens que fizera, tinha sempre contado com a companhia de Rafael. A decisão fora tomada precisamente numa derradeira tentativa (sempre adiada) de emancipação e autonomia, que restaurasse a autoestima da juventude, há tanto perdida. Rafael aceitara-a com desconfiança, num primeiro momento e com resignação, logo a seguir. Por um lado, imaginava Ivone sozinha no avião, ou já nas Ramblas, a seduzir inconscientemente os transeuntes com aquela sua face bela e luminosa a que já se habituara, mas por outro lado, passados uns instantes, achava essa possibilidade pouco plausível, quase tão improvável como ele próprio conhecer nesse período de solidão alguém especial em Lisboa.

No dia da viagem levou Ivone ao aeroporto, mas ela insistiu que a deixasse à porta, sem sequer estacionar:

– Não vale a pena procurares lugar. Eu fico bem. Telefono-te assim que aterrar.

Assim se despedira. Um casamento de 30 anos torna os afectos outrora urgentes e inadiáveis em despedidas secas e rápidas. Os afectos tornam-se tão habituais quanto invisíveis e Rafael perguntava a si mesmo se, depois de tanto tempo juntos, restaria sequer um ténue eco do amor que os unira.

Enquanto entrava no aeroporto, com um pequeno saco a tiracolo e puxando por uma única mala vermelha, com duas pequenas rodas que marcavam o ritmo decidido dos seus passos, Ivone tenta ler no primeiro placard que encontra as indicações de horário, balcão de check-in e porta de embarque do seu voo. Em vão. Lembrou-se então da sua dificuldade em ver ao longe e de como lhe seriam tão úteis naquele momento os olhos de Rafael.

Não iria desistir da sua aventura perante a primeira contrariedade. Dirigiu-se a um jovem rapaz e pediu que a ajudasse, por favor, que não consegue ler as pequenas letras do placard, que este é o seu bilhete (tenha a bondade de ver), que ficará eternamente agradecida, que lhe deseja toda a felicidade do mundo. E lá seguiu as indicações do prestável jovem.

Aguardar pela hora do embarque também não estava a ser fácil. Queria ir refrescar a cara ao wc, mas teria de levar a mala consigo. Se Rafael ali estivesse guardaria a bagagem enquanto ela o faria e aproveitaria para passar pelas lojas com as mãos livres, os olhos despertos e os cordões da bolsa escancarados.

Sem ter comprado sequer um perfume, Ivone dirigiu-se à porta de embarque com algumas dúvidas sobre a real utilidade daquela viagem nesta altura da sua vida. Mas, não sendo mulher de admitir com facilidade os eventuais erros de cálculo que pudesse ter feito, seguiu viagem mesmo assim.

Já dentro do avião a mesma dificuldade de procura de lugar e acondicionamento de bagagem. É que nem conseguia encontrar o número 12 e muito menos, depois de encontrado o lugar, conseguia levantar suficientemente os braços para arrumar a mala. Ao receber a solícita ajuda da hospedeira de bordo ficou com uma agre sensação de que era mais uma idosa abandonada à sua sorte do que propriamente uma mulher madura e aventureira, como gostava de se imaginar.

O avião levantou voo, as indicações de procedimentos em caso de emergência foram transmitidas, a ligeira refeição foi distribuída, os tabuleiros foram recolhidos e o avião aterrou em Barcelona sem que aquele agre sabor a abandonasse.

À saída do aeroporto e com um único desejo de entrar num táxi que a levasse prontamente até ao hotel onde tinha reserva feita, Ivone atravessa a estrada sem olhar. Assim que coloca os solitários pés no primeiro pedaço de alcatrão espanhol é surpreendida pelo barulho de uma travagem tão inesperada quanto sonora.

Não chega a sentir o embate, apenas a sensação de ser sugada para um túnel de luz. Julga ouvir vozes distantes, mas não consegue perceber o que dizem. Pouco depois parecem gritos, uma senhora diz-lhe algo, mas não entende. Subitamente o silêncio, a luz torna-se vermelha, depois negra. O seu mundo apaga-se.

Por fim acorda, nauseada, sem perceber o que lhe aconteceu.

Ouve uma voz:

– Hola querida, ¿cuál es tu nombre?

Tenta abrir os olhos mas as pálpebras não se mexem. Julga distinguir uma sombra, não mais que uma vaga silhueta. Responde mas não ouve a sua própria voz.

No te preocupes, todo está bien ahora. Usted tuvo un accidente hace tres semanas. Me llamo Rosalía, soy enfermera do Hospital Sant Joan de Déu. ¿Puedes oír lo que digo, cuál es tu nombre? – insiste Rosalía.

Ivone tenta responder, mas não consegue romper o silêncio. Subitamente volta-lhe à memória o sucedido. Está a sair do aeroporto, um carro acelera na sua direcção e um homem arranca-lhe a mala de mão. Julga ouvir a travagem, sente as dores do embate e volta desfalecer. Ouve de novo vozes.

Hola doctor, esta es la mujer sin identificación, se despertó ahora del coma, pero no se comunica.

Es el efecto de los sedantes, tenemos que esperar un par de horas. En todo caso, será mejor comunicarse con la policía para averiguar si hay alguna mujer desaparecida.

Quando volta a acordar Ivone tenta chamar por Rafael. Aos poucos a visão fica menos turva, não o suficiente para ver com clareza, mas a voz continua ausente. Mais tarde os médicos hão-de atribuir o seu estado a um derrame cerebral causado pelo embate. Só o tempo dirá se será permanente.

A mil quilómetros de distância, Rafael espera um, dois, três dias, uma semana, duas, três, nada. Ivone não dá notícias. Telefona à polícia catalã, mas autoridades não dão importância ao caso e respondem-lhe o equivalente em Espanha ao entre marido e mulher não se mete a colher.

Do lado português limitam-se a aconselhar que aguarde pelas diligências do outro lado da fronteira, mas o nó que sente na garganta diz-lhe que algo está errado.

É o momento de se fazer à estrada. Leva apenas o essencial, uma roupas que arruma no porta-bagagens e uma fotografia de Ivone.

Faz a viagem num só tiro. Barcelona recebe-o com a indiferença de uma grande metrópole. Rafael perde-se pelas ruas com a fotografia de Ivone na mão, atropelando todos quantos por si passam:

– Has visto esta mujer, es Ivone, que está desaparecida hace tres semanas? – pergunta naquilo a que por cá chamamos espanholês.

Uns param por momentos, mal olham a fotografia e rapidamente abanam a cabeça, outros evitam-no como se fosse vendedor de banha da cobra.

Ao fim de três dias a deambular, está com ar desgastado, barba mal aparada, o que lhe dificulta ainda mais a vida nas ruas. Exausto, senta-se, desanimado, junto à entrada de uma igreja com a fotografia na mão e de imediato alguém lhe grita no te quedes aquí mendigo.

Escorraçado da casa de Deus, dirige-se a um quiosque para fazer uma cópia da fotografia. Na parede salta à vista o cartaz de um filme sobre o famoso matador Manolete, em que se lê sucumbido al amor como un hombre. A funcionária, Consuelo, uma jovem com os braços cobertos de tatuagens, vendo Rafael com os olhos invadidos pelo mar pergunta-lhe:

– ¿Qué pasa.

– Perdí mi mujer -, respondeu, acabando por lhe contar o que acontecera nas últimas semanas.

– Pobrecito, yo te ayudaré, pásame la imagen – disse.

Na manhã seguinte Barcelona acordou forrada com cartazes. Além da fotografia de Ivone lia-se ‘Rafael sucumbió al amor – buscamos Ivone’. O cartaz aparecia por toda a parte. Consuelo e um grupo de amigos do clube tattoo passaram a noite a correr praças e avenidas. Em menos de nada tornou-se o assunto do dia.

Na quarta semana de internamento Ivone não registava grandes melhoras. Sem capacidade de comunicar, tinha a companhia frequente de Rosalía, que se afeiçoara à misteriosa doente. Partilhava a sua vida com ela, contava-lhe do marido, dos filhos, dos vizinhos, na esperança de que algum estímulo a fizesse recuperar a fala.

Naquele dia, resolveu deixar a televisão ligada na enfermaria. Ivone seguia distraidamente o programa da manhã quando subitamente estremeceu. Alguém falava português, era a voz de Rafael. As lágrimas começaram a correr-lhe pelo rosto.

Rosalía exclamou: – Madre de dios!

Em rodapé passava um número para o qual o telespectador deveria ligar caso tivesse visto a mulher do cartaz que Rafael segurava nas mãos. Rosalía alcança o telemóvel e marca o número. Atende o Comissário da polícia catalã. Em menos de duas horas Rafael era acompanhado pelas autoridades ao Hospital Sant Joan de Déu, para que a veracidade da pista fornecida por Rosalía se confirmasse.

Lentamente entra no quarto onde Ivone repousa, quase invisível, sem voz, nem identidade.

– Rafael! – clama ela, para surpresa de todos os presentes.

– Ivone! Julgava que te tinha perdido para sempre! Como te procurei!

Num longo abraço Rafael ouve baixinho a voz de Ivone ao ouvido:

– Achas que já podemos voltar à nossa vida habitual?

(Publicado a 25 Julho 2013)