Não queremos revelar já o final, mas este texto tem pimenta. As origens do prato típico da Marinha Grande. O único.

O cozinheiro das linhas que se seguem é, não podia deixar de ser, neto de vidreiro. Além de escrever crónicas para a Preguiça, o Mário Nicolau também se ajeita com os tachos e um destes dias revelou-nos os segredos da sopa de bacalhau inventada na Marinha Grande. Gostávamos de jurar que é feitiçaria da grossa, só para iniciados, mas, na verdade, trata-se de um prato extremamente simples, que recompensa o paladar e impressiona os amigos. E tudo isto sem demasiado esforço na cozinha. Preparados?

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O fiel amigo chegou a Portugal com os vikings e mais de mil anos volvidos, os portugueses não só ainda comem bacalhau como têm fama de comer mais do que todos os outros povos do mundo. Gostamos tanto que há quem diga que a água do mar é salgada porque tem bacalhau de molho. É assunto para as páginas de ciência do Público, sem dúvida, a nós interessa-nos salientar que na sopa do vidreiro tudo gira em torno do bacalhau. Pode questionar-se a originalidade de uma receita baseada num peixe tão popular – afinal, são mil e uma maneiras and counting –, mas há uma boa explicação para o caso: é que à boca dos fornos, nos tempos áureos da indústria do vidro, os operários não podiam passar sem uma refeição plena de calorias e nutrientes. E assim nasceu a bandeira gastronómica do concelho da Marinha Grande, rica em proteínas, sódio, fibras e hidratos de carbono.

Quando chegámos a casa do Mário, ele já tinha o bacalhau cozido e pronto para a fotografia, como nos piores programas de gastronomia da televisão americana. Daí que assistimos rapidamente ao passo seguinte: cozer as batatas na água do bacalhau. As batatas, como sabem, também são um produto importado pelos ibéricos. Se o fiel amigo chega das águas frias do Atlântico Norte, as batatas são originárias da cordilheira dos Andes, na América do Sul, onde os espanhóis as descobriram quando andavam entretidos a destruir o império inca.

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Entretanto, na Ordem, Marinha Grande, está na hora de preparar uma cama de broa e pão – durinho, mas sem bolor, atenção – num recipiente colocado à parte. Também é tempo de escalfar os ovos na água, porque as batatas começam a parecer cozidas. Outros cozinheiros podem servir os ovos cozidos e inteiros, ou mesmo picados, mas na Preguiça, quando temos a oportunidade de escalfar, escalfamos. Sem medos.

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Quem já viu o filme The Prestige sabe que um truque de magia tem três fases, o sinal, a rotação e o prestígio. Pois bem, está na hora da revelação. Primeiro, muda-se o bacalhau, as batatas e os ovos para a tigela que aprontámos previamente, com pão e broa, alho e azeite a gosto. Depois, o segredo. O Mário obteve-o da avó: é a hortelã. Mas ele próprio junta-lhe um segundo detalhe que não se encontra na receita original: pimenta preta. E pronto, está praticamente tudo. Resta entornar o caldo sobre o preparado e temos a tradicional sopa do vidreiro, a sopa que dá para um turno inteiro. Bom apetite!

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Sopa do Vidreiro (6 pessoas)

  • duas postas (baixas) de bacalhau
  • 100 a 150 gramas de batata por pessoa
  • uma broa e meia (tamanho médio)
  • 6 pães duros
  • 6 ovos
  • alho, azeite, hortelã e pimenta preta a gosto

Na internet
confrariadasopadovidreiro.com

Texto de Cláudio Garcia
Fotografias de Ricardo Graça

(Publicado a 5 Setembro 2013)