Pedro

Vamos por partes: Pedro Gonçalves tirou Arquitectura na faculdade. E foi arquitecto durante uns anos. Sendo assim, o que tem feito este leiriense no delta do Nilo, qual Indiana Jones, à procura de respostas egípcias perdidas no tempo? E não, não são prédios, que aquilo agora não dá para construir resorts.

Sempre gostou muito de Geografia e Geologia, mas a certa altura da sua vida, a arquitectura já não o preenchia, o que o fez ir à procura de algo mais. O primeiro passo foi voltar à escola e fazer o mestrado em Geociências, em Coimbra. No curso acabou por conhecer um professor que lhe falou de uma ideia, e a partir dessa indicação, Pedro Gonçalves foi estudar as mudanças da paisagem na zona de Leiria e na lagoa da Pederneira, entre a Nazaré e Alcobaça.

Gostou tanto do trabalho, que no final ficou com vontade de prosseguir a tempo inteiro com esta actividade e deixar a arquitectura em pousio. A forma idealizada foi tentar propor-se a um doutoramento, concorrer a uma bolsa e passar três ou quatro anos a investir no que gosta. “Já na altura eu sentia, ainda antes da crise propriamente dita, que a arquitectura e a construção civil estavam a entrar em tempos difíceis. Por outro lado, também tinha vontade de ir para fora durante uns tempos”, refere.

Isto não é só querer, mas a oportunidade surgiu, e logo em Cambridge, no Reino Unido, nos departamentos de Ciências da Terra e Arqueologia, que pretendiam desenvolver um trabalho nos moldes que Pedro Gonçalves tinha abordado no seu mestrado, mas num sítio muito mais estimulante: na zona de Memphis – antiga capital do Egipto – ainda no tempo dos faraós, situada a cerca de 60 quilómetros a sul do Cairo.

E, afinal, o que é se faz lá no rio, para além de afastar os mosquitos? Se tecnicamente é um doutoramento em Arqueologia, no fundo ninguém se chateia se lhe chamarmos Geoarqueologia (apesar de o corrector do Word sublinhar logo a vermelho).

“O tema da minha tese tem a ver com as alterações da paisagem na área de Memphis, no período entre o ano 3000 a.C. até mais ou menos o ano 400 da era de Cristo. A paisagem ali no vale do Nilo é muito volátil, e no fundo eu estou a dar continuidade a estudos que demonstraram que o rio andou sempre a mudar de posição. Isto é a coisa mais dramática na mudança da paisagem. É algo que sempre fez confusão a muitos arqueólogos no que toca à localização da Memphis que, depois dos romanos, desapareceu porque perdeu importância e ficou desabitada”, refere.

Isto quer dizer que quando se começou a estudar a antiga cidade egípcia, no início do século XX, houve muita confusão, pois não fazia sentido para alguns que aquela capital não tivesse um porto, e estas investigações vêm clarificar que é possível ter tido. A paisagem é que com os séculos se modificou de tal maneira que apagou todos os vestígios, ou quase todos.

Neste momento, as ruínas de Memphis estão a três quilómetros a leste do rio Nilo. Houve quem dissesse que os egípcios tinham construído uns canais transversais e tudo, mas estas investigações são importantes porque vêm clarificar que não foi preciso canal nenhum. O rio antigamente passava lá, e agora já não.

Temos muito a tendência para ver a paisagem como uma coisa estática, mas não é

A recolha de sedimentos no Egipto.

A recolha de sedimentos no Egipto.

“Só para se perceber melhor, fizemos pesquisas e descobrimos que com base nos sedimentos analisados que em mil anos, no vale do Nilo, podem ter sido acumulados em certos locais dez metros de sedimentos – o equivalente a um prédio de três andares –, o que é extraordinário. Por isso é que vale a pena fazer este trabalho nestes sítios, porque se neste espaço de tempo aconteceu isto, então há todo um trabalho por realizar.”

E prossegue: “A questão é: Como é que se pode compreender como era a cidade, entender os seus vestígios arqueológicos, sem se saber como era o terreno na altura? Porque nós temos muito a tendência para ver a paisagem como uma coisa estática, mas não é. Essencialmente o meu trabalho é esse. Faço pesquisas no solo, estudo os sedimentos para tentar entender e reconstruir a paisagem e a forma como ela foi evoluindo ao longo desses 3000 anos”, esclarece o arqueólogo.

Mas como prosseguir com as investigações, dada a instabilidade política que se faz sentir neste momento? “No meu caso, consegui lá ir no primeiro ano durante seis semanas, e nunca mais lá voltei”, esclarece. “Não só por causa da instabilidade que há lá agora, mas também porque, para nós, o fim da ditadura militar foi-nos prejudicial!”.

E agora o leitor ocidental assusta-se com esta frase dita assim a seco, mas o esclarecimento vem já a seguir: ”Antigamente os militares controlavam tudo, e alguém como um arqueólogo ou investigador chegava às instituições e pedia autorização para trabalhar. Se eles a dessem, não havia problema e ninguém te chateava porque tinham medo dos militares. Neste momento, não há segurança. Mesmo as pessoas que conseguem lá ir, podem ser maltratadas ou assaltadas pelas populações da zona. Naquela área há muitos caciquismos locais, e são eles quem mandam agora”, clarifica Pedro Gonçalves.

Estará o trabalho em risco? Parece que não, pelo menos por agora, visto que há muitos dados para estudar. “Este ano tentámos lá ir, mas não conseguimos autorização, e ainda bem, porque a nossa ida ia coincidir com os últimos acontecimentos mais violentos. A minha sorte é que consegui obter dados de pessoas que trabalharam lá nos últimos 30 anos, e esses dados nunca tinham sido estudados deste ponto de vista. Reuni a informação e estou neste momento a utilizar os dados no seu conjunto. Acabo por ter dados suficientes para o que estou a fazer”, conclui.

Texto de Pedro Miguel
Fotografia de Ricardo Graça
(Publicado a 5 Setembro 2013)