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Não é um sofá nem um divã, é uma espreguiçadeira. Uma vez por mês, a Preguiça convida alguém a pôr-se confortável e responder a 12 perguntas sobre livros. O convidado da rentrée chama-se Nuno Bernardino e preguiça para ler é mal de que não padece. DJ e tradutor, divide o seu tempo entre discos e livros, e aceitou contar-nos o que lhe vai na alma. E nas estantes.

1. O que estás a ler neste momento? Recomendas ou nem por isso?
Estou a ler Scenes from Provincial Life, do J. M. Coetzee. Compila três livros – BoyhoodYouth e Summertime – que compõem uma espécie de memórias ficcionadas do autor. Estou sensivelmente a meio do último, Summertime, e recomendo vivamente.

2. O que mais facilmente te leva a pegar num livro: a capa, o título, o autor, os amigos ou os desconhecidos?
O autor e as sugestões de dois ou três amigos que acertam quase sempre… Outras vezes, uma crítica ou uma entrevista.

3. Diz-nos um autor que descobriste ultimamente e tens pena de não ter descoberto mais cedo.
Acho que tenho descoberto os autores nas alturas certas. Mesmo as coisas que considero serem boa literatura têm, pelo menos para mim, o seu tempo. Descobrir o Kafka com 15 anos ou o William Burroughs aos 17 foi uma excitação, mas acho que hoje não teria muita paciência para os ler! Não sei por que motivo. Porque já os li? Porque o meu gosto amadureceu noutra direcção? Os últimos autores incríveis que descobri, há uma meia dúzia de anos, terão sido o William Faulkner e o Cormac McCarthy, e não posso dizer que tenho pena de não os ter descoberto mais cedo.

4. Se houvesse um incêndio na casa do teu vizinho, que livro aproveitavas para atirar para a confusão?
Talvez O Arranca Corações, do Boris Vian, porque me chateou… Só uma cópia, num gesto simbólico.

5. O bichinho dos livros passa de pais para filhos?
O meu pai lia muitos livros até a profissão lhe começar a absorver o tempo e tanto ele como a minha mãe sublinharam, quando eu era miúdo, a importância de ler. A influência deles foi essa: incentivaram o hábito.

6. Se fosses uma personagem do Farenheit 451 (Ray Bradbury/ François Truffaut), que livro gostarias de memorizar para garantir que sobrevivia à passagem do tempo?
The Crossing, do Cormac McCarthy, o segundo livro de The Border Trilogy (começa com All the Pretty Horses e acaba com Cities of the Plain). A prosa é um milagre, como noutros romances do McCarthy, e a história é lindíssima. É um livro que eu não quereria que se perdesse…

7. Já te rendeste ao tablet? Ou és fiel ao papel em toda e qualquer circunstância?
Já li uns quatro ou cinco livros num kindle emprestado e até gostei. É prático em muitos aspectos – por exemplo, no modo como funciona o dicionário instalado ou no pouco espaço que ocupa…  O próximo livro que penso ler, Bring Up the Bodies, da Hilary Mantel – o segundo livro da trilogia sobre o Thomas Cromwell (o primeiro, Wolf Hall, é óptimo) – vai-me ser emprestado nesse formato. Tento ler em inglês os livros escritos nessa língua – sobretudo porque nalguns casos não há tradução que possa fazer justiça ao original (por exemplo, nos diálogos western das personagens do McCarthy) – e o dicionário do kindle, muito fácil de consultar, facilita-me imenso a leitura.

8. Há algum livro que queiras ler há muito tempo, mas ficas sempre pela intenção?
Não.

9. A partir de quantas páginas um livro te desmotiva a pegar-lhe? E qual foi o maior calhamaço a que já te aventuraste?
Quando tinha 22 ou 23 anos tentei ler o Ulysses, do James Joyce. Perdi-me nas extensíssimas notas de rodapé daquela edição e não devo ter passado da página 30 ou 40. Mais recentemente parei de ler o Gravity’s Rainbow, do Thomas Pynchon, na página 102: não estava com cabeça para aquela escrita. Penso voltar a tentar um e outro. Não sei qual terá sido o maior calhamaço que li…

10. “Não negue à partida um género que desconhece” podia ser o teu lema? És transversal, quanto a géneros e estilos de escrita, ou tens claramente favoritos e suspeitos?
Leio muita coisa diferente. Nos últimos anos tenho preferido o romance americano e li uns quantos do Faulkner, todos os do Cormac McCarthy, alguma Flannery O’Connor, o extraordinário primeiro romance da Annie Proulx – Postcards – e outros. Mas pelo meio li ficção científica (vários do Stephen Baxter); li os Harry Potter e os Hunger Games e os Lord of the Rings e gostei!; li Roth, Naipaul (ficção, mas também The Loss of El Dorado, um livro de História), Coetzee, Jorge Luis Borges, DeLillo, Julian Barnes; The Corrections, do Jonathan Franzen; The Stranger’s Child, do Alan Hollinghurst, que é considerado literatura gay; li a tradução de Frederico Lourenço da Odisseia; li romances históricos e História alternativa; pouca poesia e quase nenhum teatro; por algum motivo obscuro tenho fugido dos russos; nos surrealistas nunca mais quero pegar…

11. O que é preciso para se ser um leitor com L grande? Isso é uma espécie em vias de extinção?
Leitor com L grande tem de estar no princípio da frase. E assim me safo desta, que era difícil!

12. O que achas verdadeiramente de alguém que tem uma casa sem livros?
Os motivos para alguém não ter livros em casa podem ser de vária ordem e é óbvio que não formulo qualquer tipo de juízo sobre uma pessoa por esse facto. Nem mesmo por não ler livros, de todo. O que me incomoda são as pessoas que têm as estantes em casa cheias de livros intocados, para armar.

Questionário de Catarina Sacramento
Ilustração de Rui Cardoso
(Publicado a 5 Setembro 2013)

Foto Nuno Bernardino

  • Nuno Bernardino nasceu em Coimbra em 1973. Cresceu em Leiria, mas aos 18 mudou-se para a capital para estudar Direito e por lá ficou. Concluiu o estágio de advocacia, mas exerceu a profissão de forma esporádica. Deu formação na área jurídica e ensinou durante um semestre no Instituto Politécnico de Leiria. Dá aulas de português a estrangeiros e trabalha como tradutor.
    Melómano desde muito novo começou, em 1996, a dar cartas como DJ e a trocar discos aquém e além-fronteiras (Op Art, Europa, Musicbox, ZdB, Casa da Música, Lux e Frágil; e também em Berlim, Chicago, Bruxelas, Ghent, Hamburgo, Dusseldorf e Paris). Em 2000 co-fundou a dupla Ballet Mecânico, com o objectivo de divulgar música electrónica. É membro fundador do Projecto Chão (no qual é também programador e músico/DJ) e dos recentes projectos Fckyou It’s Magic e Acido Nights.
    Participou no festival Braçadeiras em Leiria em 2010 e, em 2011, colaborou como DJ na encenação da peça Felizmente, Há Luar!, do Teatro Experimental do Porto. É DJ residente do bar A Capela, no Bairro Alto alfacinha, há coisa de uma década.