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Alexandre Reis é engenheiro mecânico de formação e uma espécie de draga minas nos tempos livres. A última que descobriu rebentou-lhe nas mãos e atirou-o direitinho daqui para a Dinamarca.

Há 8 meses na cidade de Billund , Alexandre encontrou um emprego de sonho e uma vida boa daquelas que não há por cá. Não é fácil a vida longe da família e amigos, mas “a man’s gotta do what a man’s gotta do”.

Em Leiria, trabalhava numa empresa de injecção e extrusão de plásticos, agora faz moldes para as pecinhas mágicas que correm o mundo. Diz que os dinamarqueses são pessoas moderadas, civilizadas e organizadas, mas no que toca a petiscos, claro, nada bate os tugas.

Dificilmente se vê um dinamarquês a falar demasiado alto

O que é que estás a achar do país?
Até agora, tudo impecável. Não querendo cair no ridículo de dizer “lá é que é bom” sem excepção, parece que tudo funciona e é pensado para o cidadão. Dá a sensação de que ninguém necessita de se mostrar superior e há um ambiente geral de respeito e confiança. Claro que haverá excepções, mas ainda não tive más experiências. Ou seja… “lá é que é bom”!

Diz-se que os nórdicos são pessoas frias e distantes. Sentes isso?
Não, pelo menos na região onde estou. Têm abordagens e comportamentos um pouco diferentes, mas de forma alguma frios ou distantes. Estou a trabalhar num departamento composto maioritariamente por dinamarqueses e são um povo com bastante sentido de humor, gostam de se divertir e interessam-se em conhecer as pessoas. Talvez a maior diferença seja o facto de não criarem amizades tão rapidamente e esperarem um pouco pela iniciativa dos outros. Nas grandes cidades acredito que seja diferente, mas isso é assim em todos os países.

Notas grandes diferenças culturais?
Noto algumas e estaria a ser incorrecto se dissesse que não existem. Em termos sociais, são um povo mais moderado e dificilmente se vê um dinamarquês a falar demasiado alto, a esbracejar, ou mesmo a entrar em algum tipo de conflito. A grande excepção poderá ser a galhofa. Quando é para rir, é para rir, seja na rua, no trabalho ou em casa. Quanto ao trabalho, sei que estou numa empresa um pouco diferente, mas se há um problema, não vem ninguém aos berros de chicote na mão, à procura de culpados ou do “pai para a criança”. Em relação à vida privada e à família, são um povo que dedica quase obrigatoriamente tempo a ela e quem não o fizer, pode até ficar relativamente mal visto. Diz-se que é um terço do dia para dormir, um terço para trabalhar e um terço para aproveitar.

Come-se bem na Dinamarca?
Com o termo de comparação e os hábitos alimentares que temos, é complicado. O meu conhecimento de gastronomia não é tão vasto quanto eu gostaria, mas em Portugal come-se bem e nós sabemos disso! Mesmo assim, na Dinamarca não se come mal, apesar da preguiça culinária existente no país, preguiça esta que leva a haver um desapontante elevado número de restaurantes fast-food a cada esquina. É evitá-los! É uma gastronomia muito à base de carne de porco, batata e pão, mas encontra-se de tudo e aos poucos começa-se a apreciar outras coisas, nem que seja pelo comodismo e pela variedade de refeições semiprontas e semi-saborosas que se encontram em todo o lado. Esquecendo essa parte, fazem-se algumas sandes abertas deliciosas e as carnes são muito boas. Para mim, o forte deles são os doces e a pastelaria. Não gosto do típico paté de porco deles, leverpostei, do pão escuro e azedo que produzem nem das conservas de peixe. Escusado será dizer que um bom peixinho, só nas férias!

Pediram-me para vir a Portugal encontrar mais pessoas como eu

Como é que foste parar à Lego?
Sempre tive vontade e a curiosidade de experimentar outro país e outra cultura. Sempre quis conhecer outros ambientes e métodos de trabalho. Com a situação actual do país a ajudar, sabendo que não será fácil a saída do buraco (ou dos interesses…) em que estamos, não querendo eu pagar os erros dos outros e a pensar nos meus futuros filhos, a procura intensificou-se. Quando vi o anúncio para a empresa LEGO e o que pretendiam, parecia mentira, parecia que tinha encontrado o local e país ideal. Fiz a minha candidatura, mas fiz algo diferente, pois queria mostrar o meu interesse e evidenciar que não estava a enviar o currículo por enviar. Criei um CV diferente de tudo o que até então tinha feito, especificamente para a empresa LEGO e sem medo de parecer espalhafatoso! Eles gostaram do que fiz, contactaram-me e marcámos encontro numa feira de emprego em Lisboa, onde tive a minha primeira entrevista. Passadas umas semanas, contactaram-me novamente para outra entrevista, via Skype, com um manager  e depois novamente para ir às instalações da LEGO, na Dinamarca, para uma terceira entrevista (três dias, tudo pago por eles). Depois ainda fiz uns testes via internet, e passado um tempo ligaram-me a dizer que queriam que fosse trabalhar para eles.

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Porque é que achas que foste escolhido?
Sem querer parecer convencido ou arrogante, acho que para o que era pedido, já tinha uma experiência considerável, uma formação académica muito boa e o perfil pessoal e interpessoal que eles pretendem. Dito isto, acho que fui escolhido por um conjunto de factores técnicos, pessoais e pelo gosto, energia e vontade que demonstrei em querer trabalhar com eles.

O que é que fazes lá exactamente?
Penso que o mais correcto e indicado será dizer que sou técnico de moldes. Temos um departamento muitíssimo bem equipado, com máquinas e tecnologias de topo ao nosso dispor. O meu trabalho consiste em fazer os moldes de injecção por completo (ferramentas muito técnicas que servem para fazer as pecinhas de plástico), desde o projecto (inclusive) à montagem e entrega para produção final (após teste em pré-produção). Sem querer entrar em detalhes, a grande diferença é que nós, técnicos de moldes, fazemos tudo após a criação do elemento (peça em formato digital – 3D). Isto, por ser possível com o tipo de elementos que fazemos, tem grandes vantagens. Somos responsáveis pelo projecto em causa e pela entrega no prazo estipulado fazendo o horário que bem quisermos. Nunca fazemos o mesmo trabalho diariamente, e podemos escolher, dentro de determinadas regras, o que pretendemos fazer, como queremos fazer, e quando pretendemos fazer.

Incumbiram-te de recrutar um português para se juntar à equipa. O que é que te pediram exactamente?
Após três ou quatro meses de estar lá a trabalhar, pediram-me para vir a Portugal com alguns recrutadores, para encontrar, não um, mas mais pessoas como eu (isto dito por eles). Infelizmente, das dezenas ou centenas de pessoas que encontrámos e CV que recebemos, não conseguiram encontrar ninguém que encaixasse na posição. Pelo que percebi, mesmo que necessitem desesperadamente de pessoas, eles nunca contratam ninguém sem ter a certeza de que é uma aposta certa e de que, tanto para um lado como o outro, não haverá problemas ou arrependimentos. Além disso, dão um valor muito grande ao que sentem quando falam com a pessoa, independentemente do currículo que apresentem. Ou seja, continuamos à procura, tanto em Portugal como noutros países.

O horário normal de trabalho são 37 horas semanais e nós é que controlamos isso, sem dar grandes satisfações

Que comparação fazes entre as condições de trabalho que tinhas cá e as que foste encontrar lá?
Sem querer tirar mérito às empresas portuguesas, que muito ainda fazem pelo país, a verdade é que em nenhuma das que trabalhei encontrei condições, nem de perto nem de longe, semelhantes às que tenho neste momento. É tudo pensado na segurança e bem-estar dos empregados. Além disso, não só é a regra mas também o que se sente na prática é que um trabalhador só produz se estiver motivado e feliz com o seu trabalho. Se não estiver, muda-se o que for necessário e possível. Há outros pormenores engraçados, como por exemplo ter sempre disponível e sem custos, café, chá, chocolate quente, pão ou bolo, fruta, entre outras coisas, caso o bichinho da fome ou a sede aperte a qualquer momento do dia. O horário normal de trabalho são 37 horas semanais, todos os minutos contam. Na Lego nós é que controlamos o horário que fazemos, sem dar grandes satisfações. Quanto a ordenado, já se sabe: os impostos são altíssimos, andando à volta dos 50%. O que é certo é que, por exemplo, o sistema de saúde, além de funcionar incrivelmente bem e com tecnologia a ajudar, não tem custos. Os estudantes dinamarqueses que vão para a universidade, em vez de pagarem propinas recebem cerca de 665 euros por mês. Os ordenados são muito mais equilibrados entre quem ganha muito e quem ganha pouco e não existe salário mínimo. Um salário dito normal rondará os 2500 a 3500 euros, isto após descontos, ou seja, limpos. Com um custo de vida cerca de 25% mais caro do que em Portugal, não é muito difícil perceber o que sobra e o que dá para fazer.

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És um fã da Lego? Brincaste com Legos quando eras criança? Ainda brincas?
Não me posso considerar um fã, pois existem vários no mundo, verdadeiros conhecedores e coleccionadores fantásticos, com criações impressionantes, desde miúdos a graúdos. Sempre gostei muito dos brinquedos da Lego, e quando era criança foram um dos com que passei mais tempo a brincar, a criar, a imaginar, a desenvolver e a crescer. Ainda brinco, de forma diferente e com pontos de vista diferentes. Mas há sempre aqueles sets que nos deixam de água na boca, e nos fazem passar por boas recordações.

O que querias ser quando eras criança?
Não me recordo bem, mas sei que até mais ou menos aos cinco ou seis anos, sempre que me faziam essa pergunta a minha resposta era: “Quero ganhar dinheiro.” Provavelmente antecipava os ordenados e mercado de trabalho que se faz sentir no país… brincadeira.

 Tenho peças Lego já com 30 anos que funcionam como os novos

Também já há Lego para meninas. Achas que elas têm tanto jeito como os rapazes?
Claro que sim! Poderão imaginar mundos e histórias diferentes, mas a criação e imaginação está em todas as crianças. Cabe-nos a nós providenciar formas e brinquedos para eles poderem explorar e desenvolver esse fantástico mundo que eles ainda têm.

Na era digital e com tanta tecnologia à disposição da garotada, como é que um brinquedo que consiste em juntar pecinhas umas às outras continua a ter tanto sucesso?
Há uns 8 anos, as consolas e mundo digital estavam a levar a melhor. A empresa atravessou uma acentuada queda nas vendas e um período menos bom. Como qualquer empresa forte, aproveitaram o momento para se renovar, utilizaram essa mesma tecnologia a seu favor, criaram, inovaram e promoveram os seus produtos. Neste brinquedo, o limite é a imaginação e a criatividade, e, pelo menos nas crianças, aí não há limite. Um brinquedo que permite que com 10 ou 20 peças se faça ou se imagine praticamente tudo o que se quiser, é um brinquedo com uma infinidade de opções. Agora é pensar o que se poderá fazer com 500, mil ou 10 mil peças, com vários temas disponíveis, em que tudo encaixa em tudo, e que por mais que se brinque nunca se estraga. Tenho peças Lego já com 30 anos que funcionam como os novos. Depois, julgo que o facto de ser algo que se cria com as próprias mãos é muito gratificante.

Pensas voltar para Leiria?
A família e os amigos pesam muito nessa decisão, e se algum dia voltar, em parte é a pensar neles. Mas de momento tento não pensar muito nisso e quando o faço, continuo a achar que para os meus filhos será melhor crescer num país que oferece condições. Por mim, eles [família e amigos] é que deviam sair!

Entrevista de Paula Lagoa
(Publicado a 12 Setembro 2013)