jorge estrela_espreguiçadeira

Não é um sofá, nem é um divã, é uma espreguiçadeira. Uma vez por mês, a Preguiça convida alguém a pôr-se confortável e responder a 12 perguntas sobre livros. Desta vez, o nosso convidado foi Jorge Estrela: pintor, historiador de arte e um homem que trata os cogumelos por tu.

1. O que estás a ler neste momento? Recomendas ou nem por isso?
De uma maneira geral, tenho vários livros à minha mesa-de-cabeceira e vários outros que, pelas dimensões, não admitem a intimidade do catre. De pequena dimensão tenho lido uma colectânea de artigos que se aglomeram sob o título Paysage Allégorique, entre image mentale et pays transfiguré, e ainda o belíssimo estudo sobre a batalha de Lepanto em 1571, de Alessandro Barbero. Comprei por 5 euros, há dias, o livro El-Rei Junot, de Raúl Brandão, que estou a ler com grande prazer. Na área dos calhamaços, peguei na El Viatge a Espanya d´Alexandre Laborde, um périplo pela Catalunha do séc. XIX, e Warfare in the Seventeenth Century, de John Childs, livros que dizem respeito aos trabalhos que faço actualmente. Para as noites de cansaço algumas BD, como seja a divertida série de Tronchet, Raymond Calbuth.

2. O que mais facilmente te leva a pegar num livro: a capa, o título, o autor, os amigos ou os desconhecidos?
Geralmente leio livros segundo os meus interesses de momento, e evidentemente que o autor é importante. Os livros que encomendo na net são referências bibliográficas que me interessam e, portanto, de uma escolha prévia de autoria e conteúdo. No acaso das livrarias folheio e leio partes antes da compra. A opinião dos amigos é escutada e leva-me a leituras imprevistas: é o caso de romances e alguma poesia.

3. Diz-nos um autor que descobriste ultimamente e tens pena de não ter descoberto mais cedo.
A obra de Sylvie Deswarte, sobre Francisco de Holanda e a arte do Renascimento. Tive o prazer de conhecer a autora há pouco tempo e fiquei fascinado pelo rigor dos seus estudos. Desde então, li muitos dos seus livros e artigos, o que tem sido facilitado pelo facto de a autora me ter enviado grande parte dos seus trabalhos, que são peças fundamentais da cultura portuguesa.

4. Se houvesse um incêndio na casa do teu vizinho, que livro aproveitavas para atirar para a confusão?
Penso que a pergunta se refere a livros maus ou inúteis. Tenho enfiado alguns barretes, mas entraram na zona penumbrosa do esquecimento. Se os tivesse, desembaraçava-me dos livros de muitos dos políticos portugueses no activo. Imolaria evidentemente a obra completa de Cavaco Silva. Comprei há pouco um livro de um político, o livro sobre árvores de Bagão Félix, mas não gostei. Pensei que se tratava de um passeio humanista de alguém que sabia sair do seu quotidiano, mas não é: o leitor é tratado como um aprendiz indigente. No fundo, é mais um livro sobranceiro de um político. Resta o prazer de saber que se interessa por árvores, o que já não é mau.

5. O bichinho dos livros passa de pais para filhos?
Umas vezes sim, outras não. Conheço casos em que os livros dispersos numa casa foram alicerces de uma cultura afinada e outros em que a primeira coisa feita após a morte dos progenitores foi a imediata venda da biblioteca.

6. Se fosses uma personagem do Farenheit 451 (Ray Bradbury/François Truffaut), que livro gostarias de memorizar para garantir que sobrevivia à passagem do tempo?
Certamente um livro de poesia, até porque seria mais fácil de fixar. Começaria pela lírica de Camões, mas tenho a certeza que muitos outros “homens-livro” se teriam antecipado.

7. Já te rendeste ao tablet? Ou és fiel ao papel em toda e qualquer circunstância?
O papel, quando posso; o tablet, quando não há outro remédio.

8. Há algum livro que queiras ler há muito tempo, mas ficas sempre pela intenção?
Muitos. Obras dos grandes filósofos alemães, Hegel em particular, do qual só li trechos esparsos; e centenas de romances que se acumularam na prateleira de férias e acabo por não ler. Comprei a obra completa de Chateaubriand e ainda não li uma página.

9. A partir de quantas páginas um livro te desmotiva a pegar-lhe? E qual foi o maior calhamaço a que já te aventuraste?
Muitos livros a partir da primeira página. Pode acontecer-me interromper uma leitura por mero aborrecimento ou passar à frente e recomeçar no capítulo seguinte; por vezes acabo por gostar tanto que releio várias vezes a parte omissa. Também me acontece começar um livro pelo meio e só no fim ler o início. Não tenho em memória a dimensão dos livros, até porque muitas das leituras constam de vários volumes. Ultimamente li As Vidas Paralelas, de Plutarco, de que só conhecia pequenas partes: foi uma aprazível leitura contínua de 2500 páginas em papel bíblia.

10. “Não negue à partida um género que desconhece” podia ser o teu lema? És transversal, quanto a géneros e estilos de escrita, ou tens claramente favoritos e suspeitos?
Não nego géneros, a não ser coisas tipo código civil. Não sou muito transversal em relação à escrita, basta ver algumas frases coxas e paráfrases cabotinas para rematar a leitura.

11. O que é preciso para se ser um leitor com L grande? Isso é uma espécie em vias de extinção?
Acho que é sobretudo a curiosidade. Tanto pelos temas em si como pelo prazer de seguir o embalo de uma escrita escorreita. Aí sou muito classicista: Camilo, Camões, Eça e alguns mais, como diria o Aquilino Ribeiro. Gosto de Nuno Bragança, Marmelo e Siva, Orlando Ribeiro (escrita maravilhosa, apesar de se circunscrever à geografia), Agustina, Natália Correia, e tantos outros que encheriam várias páginas. Penso que a leitura não está em via de extinção, mas há leituras e leituras. Uma vez perguntaram ao Valentim Loureiro que livro andava a ler e ele respondeu que já tinha acabado os estudos havia muito tempo e agora só lia jornais. Esta leitura básica é comum na maioria das pessoas que infelizmente nos governam.

12. O que achas verdadeiramente de alguém que tem uma casa sem livros?
Já estive em várias casas em que não vi um único livro a não ser ofertas esquecidas e textos de trabalho. São as pessoas que não me interessam. Também estive em casa de analfabetos que obviamente não têm livros, mas escuto-os com respeito e interesse pois gravaram dentro de si o grande livro da memória, muitas vezes bem melhor do que árduas compilações.

Questionário de Catarina Sacramento
Ilustração de Rui Cardoso
Fotografia de Ricardo Graça
(Publicado a 10 Outubro 2013)

jorge estrela_secundaria

  • Jorge Estrela nasceu em Angra do Heroísmo em 1944. Fez o curso de Pintura na ESBAL e o mestrado de História da Arte, na Sorbonne, sobre a pintura intimista holandesa do século XVII. Regressado a Portugal em 1977, depois de dez anos de residência em França, organiza em Leiria a exposição sobre a evolução urbana da Cidade, que ficou conhecida com o nome “O Saque da Cidade de Leiria”.
    Paralelamente à história da arte, tem-se dedicado à história da paisagem, à botânica e à micologia. Em 1990 funda a Sociedade Portuguesa de Micologia, de que é eleito presidente, e em 1991 organiza a primeira exposição de cogumelos em Portugal, no Instituto Superior de Agronomia, e mais tarde (1996) no Museu de Ciência da Universidade de Lisboa, com uma comunicação sobre “Interpretação Etnobotânica da Pintura de Hieronymus Bosch”. Integra o grupo científico para o estudo da flora Ibérica com o Jardim Botânico de Madrid, organizando os encontros em território português, em colaboração com o Jardim Botânico de Lisboa.
    Fez vários estudos sobre a paisagem portuguesa, sobre jardins, incluindo o projecto “Um jardim segundo Rodrigues Lobo” para a Câmara Municipal de Leiria. Foi assessor de projectos de estudos micorrízicos do montado para o Instituto Agronómico e Florestal de Oeiras. Em associação com o arquitecto Rui Ribeiro, ganhou o concurso público para a reconversão do Mercado de Santana, em Leiria, já construído e inaugurado em 2003. São também da sua autoria os 12 painéis em calçada portuguesa que se encontram no Jardim de Camões, em Macau, feitos a partir das gravuras de Lima de Freitas (encomenda do Leal Senado).
    Na última década tem-se dedicado ao estudo, restauro e classificação da colecção de pintura do Museu de Leiria, que originou a exposição “A Nova Vida das Imagens. Pintura em Leiria, Séc. XVI/XVIII”. Publicou, com Vítor Serrão e Sérgio Gorjão, o livro Baltazar Gomes Figueira – pintor de Óbidos que nos países foi celebrado, e assinou (com João Bonifácio Serra e Nicolau Borges) os textos para o catálogo da exposição na Assembleia da República, “José Relvas, o Conspirador Contemplativo”.
    Recentemente, no âmbito da Casa-Museu João Soares (nas Cortes, Leiria), de que é director, organizou a exposição “Leiria no Tempo das Invasões Francesas” (que originou um livro com o mesmo título), a exposição ”Korrodi e o Restauro do Castelo de Leiria”, a exposição “Os Grafitos Medievais do Mosteiro da Batalha” e, já em 2013, a exposição sobre a “Viagem de Cosme III de Médicis em Portugal no ano de 1669” e respectivo catálogo.