A Preguiça dentro do Chelsea Hotel. Se estas paredes falassem...

A Preguiça dentro do Chelsea Hotel. Se estas paredes falassem…

Chegámos uns anos atrasados, mas chegámos lá. Fica no coração de Nova Iorque, foi casa temporária de inúmeros artistas como Bob Dylan, Charles Bukowski, Leonard Cohen, Patti Smith ou Iggy Pop. Jack Kerouac escreveu lá o seu ‘On The Road’; foi ali que a namorada de Sid Vicious dos Sex Pistols morreu de overdose; foi num daqueles quartos que a cantora Janis Joplin se agarrou às drogas duras. Mas também foi o local onde Arthur C. Clarke escreveu ‘2001: Uma Odisseia no Espaço’, e a Preguiça esteve nesse apartamento!

Para quem não está por dentro da fama deste local, embora lá despachar uma pequena parte de gente ilustre que por lá passou ou viveu durante uma temporada: Mark Twain, William S. Burroughs, Leonard Cohen, Gore Vidal, Tennessee Williams, Allen Ginsberg, Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Thomas Wolfe, Charles Bukowski, Stanley Kubrick, Miloš Forman, Dennis Hopper, Vincent Gallo, Uma Thurman, Jane Fonda, Grateful Dead, Tom Waits, Chick Corea, Dee Dee Ramone, John Cale, Édith Piaf, Joni Mitchell, Alice Cooper, Jimi Hendrix, Rufus Wainwright, Madonna, e agora… a Preguiça Magazine!

Documentário de Abel Ferrara sobre o hotel:

Sempre em grande estilo, a Preguiça foi recebida pela artista plástica e fotógrafa Rita Barros, uma portuguesa a viver naquele ambiente emblemático, e sim, vive na casa onde foi escrito o 2001: Odisseia no Espaço. Pouco dado a coisas místicas, este vosso escriba não sentiu nada daquelas daquelas vibrações, ou lá o que é, mas sem dúvida que soube apreciar o momento de estar diante de um pedaço de história mundial.

Ainda antes de entrar em casa da artista portuguesa, um senhor no corredor ofereceu ajuda e perguntou se este explorador preguiçoso precisava de alguma coisa. Esse cavalheiro era nada mais nada menos do que René Ricard, poeta, pintor e crítico de arte, antigo colaborador de Andy Warhol e um dos grandes impulsionadores que ajudou a divulgar a obra do pintor Jean-Michel Basquiat. Para recepção de boas-vindas, foi óptimo.

Filme Basquiat (1996)

Mas algo se passa com o hotel. As constantes obras são uma realidade, o que à partida seria um processo normal num prédio do século XIX no coração de Nova Iorque, mas Rita Barros contou à Preguiça uma situação de quase terror constante por parte dos novos donos do edifício: muita pressão psicológica para saírem, o que deu origem a uma das suas obras, Displacement 2, que aborda as disciplinas de fotografia, vídeo e uma colecção de livros feitos à mão.

Labor Day, de Rita Barros

Labor Day, de Rita Barros

“Eu tentei viver a situação com algum humor. Em vez de baixar os braços, resolvi fazer do corredor do prédio uma galeria e fui colocando diversos objectos. Naturalmente que os novos donos, que não têm sensibilidade nenhuma e só vêem dinheiro à frente, não acharam piada e pediram-me para remover as minhas coisas. Mas este trabalho que depois desenvolvi na Displacement 2, serviu também para chamar a atenção das pessoas em relação ao que aqui se passava”, conta a artista portuguesa.

Another Happy Day, a ironia de Rita Barros.

Another Happy Day, a ironia de Rita Barros.

No comunicado de imprensa do trabalho, a história é contada resumidamente: “Rita Barros vive no Chelsea Hotel em Nova Iorque desde 1984. No Verão de 2011, o hotel foi vendido e fechado ao público. Os residentes de longa data (por volta de 80 pessoas) têm deste então lutado pelo direito aos seus apartamentos sob ameaça de despejo, constante assédio, vivendo rodeados dos escombros da demolição, e obras sem fim. A série Displacement 2, que foi iniciada no final do Verão de 2012, reflecte o processo de desconstrução do hotel e retrata a forma como a artista lida com a descaracterização do seu quadro de vida quotidiano.”

Mother Fuckers, a fúria de Rita Barros.

Mother Fuckers, a fúria de Rita Barros.

Se procuram catotas do Jimi Hendrix, ou o vomitado do Dee Dee Ramone, esqueçam lá isso… A verdade e a ironia disto tudo é que um dos locais que já foi um sítio bastante conhecido pelo mundo inteiro, um lugar onde muitas pessoas desejavam estar pelo glamour e por todos os pecados que esta vida pode oferecer, luta agora pela sua privacidade, pela sua dignidade, pelo direito à habitação. São premissas universais que nos fazem lembrar que no fundo, superstars ou ilustres anónimos, somos todos humanos, e isso de adorar pessoas como se fossem deuses, só porque aparecem na televisão é das coisas mais idiotas de toda a história contemporânea. Vários ‘ídolos’ já o disseram, a malta é que não quer ouvir.

O futuro de um dos mais emblemáticos hotéis do mundo, é uma interrogação.

O futuro de um dos mais emblemáticos hotéis do mundo, é uma interrogação.

Leonard Cohen ‘Chelsea Hotel No.2’

Texto de Pedro Miguel
Fotografias de Rita Barros e Pedro Miguel
(Publicado a 17 Outubro 2013)

A Preguiça agradece ao artista Paulo Henrique (PH) que à distância, de Paris, proporcionou este encontro, e à artista Rita Barros pela gentileza que teve em ceder-nos as fotos do seu trabalho.