Projecto preguiça 23 fernando lNova secção de ficção na Preguiça, coordenada por Paulo Kellerman. Quinze escritores criam pequenas estórias a partir de uma fotografia de Ricardo Graça.
A publicar quinzenalmente.

O AMOR NÃO CABE NUMA CAIXA SEM FUNDO
Fernando Lopes

Digo-te: a gravidade nos corpos é uma merda. Toda a matemática do mundo é fatídica, e hei-de compreender a importância dos números, daqui a pouco quando acabar de fechar a porta da tua casa para nunca mais voltar. Pergunto-me porque continuo a falar contigo como se ainda estivesses ao meu lado, enquanto subo a rua da tua casa para ir buscar o resto das minhas coisas. Não és mais do que um fantasma agora. Faz algum tempo que nos separámos. Quanto desse tempo se consumiu, meu Amor? Caminho aos ziguezagues, não porque esteja embriagada de tal forma em que uma equação matemática, onde o álcool puro dividido pelo meu peso a multiplicar pelo coeficiente aplicado à mulher – 0,6 – parece-me, apresente um resultado de uma taxa que me venha a desequilibrar. Não. Vou sim, evitando os intervalos desta calçada imunda para não estragar os tacões de salto alto dos meus sapatos ou ficar para aqui descalça, sabendo em verdade cruciante que descalça já tu me deixaste.

A porta do prédio quase a cair de podre onde vivia a dona Elvira, é onde estou a passar agora. E, inevitavelmente, lembro-me da noite em que nos conhecemos. Foi num jantar organizado por um amigo em comum, o Samuel. Vocês vão dar-se bem – disse. O Samuel é daquele género de amigos que gosta de enveredar pelo papel de casamenteiro – um cupido. Cupido de século XXI, armado com uma metralhadora a disparar rajadas de testosterona; uma cruzada de contornos quase bíblicos com o peito impregnado de fé para contaminar os outros – o cabrão. Conheço mais gente assim. Talvez o façam para não se sentirem sós na secura das relações minadas pela hipocrisia. Não sei. Às vezes fico com a sensação de funcionarem como uma espécie de olheiros para a selecção das noivas de Santo António – é decadente. No outro dia estava a beber café com a Susana numa esplanada junto ao rio, quando o vimos a passear de mãos dadas com os seus dois filhos. A mulher dele ia ao lado. Está grávida novamente, não sei se sabes, mas está. O tamanho da barriga denunciava claramente que o parto estaria próximo. A imagem era ternurenta. Um retrato quase perfeito da família feliz, não tivesse a Susana acabado de me contar que andava a ir para a cama com o Samuel. Cenário clássico: fodas de estômago vazio à hora de almoço. Uma vida inteira parece não ser suficiente. O Amor não é lindo. O Amor é omnipresente. Cenário clássico: os homens são todos uns cabrões.

Há horas do diabo – diz o povo. Não, meu Amor. Há horas em que nós próprios somos o diabo. Ainda não passava das vinte e três e cinquenta e dois e já me estavas a convidar para acabar a noite na tua casa. Aceitei o convite porque me atraías e porque a cada gesto teu, o meu interior vibrava a ponto de sentir o corpo a querer curvar-se sobre si mesmo. Nada podia ser mais verdade à face deste planeta excelso de merda cheio de esplendor – Vocês vão dar-se bem. Mais tarde, ruas fora, íamos a cantar aleatoriamente músicas dos Doors, quem mais? – We’re gonna pick up everyone a tua voz vodkaniamente desafinada sobre a minha, enquanto te apoiavas no meu ombro para não te estatelares no chão. Caminhávamos como se tivéssemos uma qualquer deficiência motora, tentando perceber em que rua nos encontrávamos, porque o bairro onde vives é labiríntico e as retinas, quando dilatadas, colam-se aos edifícios velhos que a meio de uma madrugada escura como sangue coagulado, parecem todos semelhantes. À direita, junto às finanças – dizias. Mas eu só via lojas Indianas e parecia-me quase impossível existir na zona uma repartição do que quer que fosse. À direita, junto às finanças – repetias. A determinado momento, estancaste o passo e encostaste-te a uma parede – estou mal – disseste. Estou mal, Adriana. Eu não sabia muito o que fazer e num segundo de distração meu, estavas de corpo dobrado em arco a regurgitar 34,76€ de vómito e bílis, precisamente na porta da dona Elvira. Follow me down. A coitada da mulher, que eu não conhecia, e acordada pelos bramidos do esófago, veio em roupão auxiliar-nos. Valha-me a Nossa Senhora da Conceição, anda sempre assim esta alminha – é habitual – disse. Habitual, pois. És ingénua – dizias-me. A dona Elvira acabou por nos levar à porta da tua casa que era ali, um pouco mais acima, ao virar da esquina, sim, junto às finanças. Anda sempre assim esta alminha. Coitada da dona Elvira, morreu de cancro – alguém me contou mas não me lembro quem -, nos intestinos. Sabias, meu Amor? A tripa não perdoa e as boas acções não salvam. Com algum esforço, deitei-te na cama e adormeci ao teu lado vencida pelo cansaço. Quero esquecer-me dessa noite, dessa e de todas as outras tortuosas para as quais me foste arrastando. Quero esquecer-me dessas noites e dos dias. Dos dias e dos dias e dos dias. Ser mulher é tão sublime quanto difícil. Talvez, por isso.

E agora aqui estou, ingenuamente à tua porta para ir buscar não sei muito bem o quê. Há uma caixa com coisas tuas ao lado do aquário e, por favor, deixa também lá as chaves – titubeou o atender de chamadas. Sim, porque a tua voz não a quero ouvir mais, ouvir a tua voz seria como espetar um sabre de gume afiado no estômago – harakiri – como dizem os japoneses, meu Amor. Subo os sessenta e quatro degraus. Acontece-me frequentemente contar as coisas. É um processo inconsciente – dizia-te. E tu, sorrindo, rematavas dizendo que eu era uma mulher muito estranha. A chave roda e encontro a casa mergulhada numa escuridão que inexplicavelmente me invade com um sentimento de paz. Um sentimento próprio de quem chega a um porto seguro, presumo. Mas eu ainda estou em alto mar, eu ainda estou no enjoo e na ressaca de ti. Acendo a luz. Todas as casas têm um cheiro característico e a tua tem o cheiro de saliva quente dos beijos que me esburgavam; sim, é dos beijos que me lembro quando me invade este odor que paira por aqui. Perco mais um pedaço de mim. Medula, tutano e osso. Haverá algo mais que te possa dar, meu Amor? Olho à minha volta e dói-me pensar que um dia vivi aqui. Que tanto foi partilhado neste espaço roubado ao espaço de lá de fora; as vezes que sorrimos com trivialidades, as vezes em que partilhámos silêncios cúmplices, as vezes em que adormeci junto a ti no sofá – céus – tanto. O mesmo sofá onde o Pessoa agora não tem sossego. A gravidade nos corpos – digo-te – é mesmo uma merda. Abro o livro ao acaso e ressalta-me à vista: jazo a minha vida, consciente espectro de um paraíso em que nunca estive, cadáver-nado das minhas esperanças por haver. Olho à minha volta e penso que a paz que aqui sinto só pode vir daí – do cadáver que sou. Eu. Morta em vida. Decido sair porque cada objecto que vejo parece querer segredar algo. Cada objecto traz-me a tua imagem. Paz podre. No aquário o peixe encontra-se a boiar ao contrário, quase como se admirasse hipnotizado um céu negro. Anos e anos de baforadas dos teus cigarros e o tecto é como um grande céu escuro, pelo menos para um peixe morto. Não há céu para quem parte. Pode ser que sim, meu Amor, que haja Inferno. A casa transpira a tua ausência. Uma ausência prolongada. Deves andar a comer outra – aposto.

Quando agarro em mãos a caixa de cartão, reparo que ainda tens a fotografia que me tiraste naquele lugar exótico digno de montra, destino de férias infestado de turistas, ponto fixo no mapa para lua-de-mel de casalinhos ainda crentes na balada roçada dos amores felizes, encornanços-machados-da-traição-filha-da-putice e afins. Punta Cana, meu Amor? Não – Punta-que-pariu-cana. Recordo-me. Ficaste um pouco para trás e sem que eu desse conta – clique. Uma Adriana minúscula em cor e luz devidamente colocada numa moldura com umas letras foleiras – Dream – qualquer coisa, a decorar tristemente uma prateleira do teu hall. Eu ali no calvário da subida na paisagem morta. Deixo-a no mesmo sítio, deixo-a para que o pó a devore, deixo-a para a pores no lixo, talvez. Não está na caixa. Desço os sessenta e quatro degraus, cada um rangendo à sua maneira – ó sinfonia escangalhada – que te guardo para a eternidade nos escombros das memórias esparsas. Toda a matemática é fatídica. Na rua, o ar do Outono invade-me os pulmões amolecidos pela humidade. Suspiro da profundidade da minha alma enferma – Foda-se, Isabel – ainda te amo.

Texto de Fernando Lopes
(Publicado a 17 Outubro 2013)