João Lázaro 4

Quando estudava Psicologia, um professor perguntou-lhe porque é que lá andava, e João Lázaro respondeu que era para ser um bom encenador. A propósito da estreia no próximo dia 15 de Novembro da peça ‘O Rei dos Elfos’, baseado num poema do germânico Goethe, a Preguiça falou com a pessoa à frente do grupo de teatro leiriense Te-Ato desde 1977. Ciente da sua condição nestes últimos 36 anos de companhia teatral, o encenador fala de sobrevivência, formação de actores, mas sobretudo da sua visão do teatro.

Diz que faria garantidamente outro tipo de teatro, se não tivesse uma formação psicanalítica, e afirma que seria outro tipo de psicólogo clínico, se não fizesse teatro. “Eu tenho muito cuidado em não dar psico-explicações aos meus actores, não o faço de todo! Contudo, sei que muitas vezes estou a usar técnicas da psicanálise para os fazer construir o personagem, que é uma coisa completamente diferente”, esclarece.

E exemplifica quanto aos seus espectáculos: “Se o texto disser que naquela janela há um bonito pôr-do-Sol e eu puser como adereço uma janela, o espectador passa a ver aquela janela. Quanto muito imagina o pôr-do-Sol, mas se eu lá puser uma luzinha laranja, então não imagina coisa nenhuma. Mas se eu não puser lá janela nenhuma, o espectador vai ao seu inconsciente, à sua memória mais arcaica buscar a janela pela qual ele algures na sua vida terá encontrado um belo e marcante pôr-do-Sol. E a partir daí, aquele texto passa a fazer parte integrante do seu inconsciente”, explica.

Eu conto estórias, mas roubo deliberadamente ao espectador a última página.

“Eu costumo dizer que se dois espectadores saírem com duas interpretações distintas, então fizemos um bom espectáculo! O Jaime Salazar Sampaio costumava dizer que uma estória quando é bem contada, é sempre verdadeira sem deixar de ser – é claro – uma estória. Eu conto estórias, mas roubo deliberadamente ao espectador a última página. Se o espectador sair a pensar no que vai acontecer a seguir, então fiz um bom trabalho como encenador “.

Sabemos que podemos ir muito mais longe, e não vamos porque temos esta contingência idiota de gastarmos metade do nosso orçamento numa renda de casa

João Lázaro, psicólogo clínico de profissão, na área da psicanálise, faz o diagnóstico do principal problema da sua companhia neste momento: “O Te-Ato tem um problema gravíssimo, que é o facto de nós nunca irmos tão longe quanto poderíamos ir. Temos a noção disto, e não é falsa modéstia. Sabemos que podemos ir muito mais longe, e não vamos porque temos esta contingência idiota de gastarmos metade do nosso orçamento numa renda de casa, o que nos esgota a possibilidade de nos dedicarmos mais à pesquisa ou à investigação”, explica.

“Não é que façamos espectáculos de cedência ao espectador, nunca fazemos isso. Senão, não teria função nenhuma aquilo que estou a fazer. Mas reconhecemos que, por vezes, obrigamo-nos a fazer coisas – que nos exigem muito esforço e fazemos com gosto, é certo, mas que servem para ganhar dinheiro. E nós reconhecemos isso”, esclarece.

Somos como aquelas equipas de futebol das distritais, que preparam os bons jogadores, e quando eles têm alguma rentabilidade, vão-se embora.

Por outro lado, há lado formativo, onde o encenador já perdeu a conta às dezenas de pessoas que passaram pelo Te-Ato, e prosseguiram para o ensino superior, quer para estudos Artísticos quer directamente para a vida profissional. “Isto tem sido uma escola de formação”, refere. “Somos como aquelas equipas de futebol das distritais, que preparam os bons jogadores, e quando eles têm alguma rentabilidade, vão-se embora”.

Somos muito pouco ortodoxos. Lamento, mas eu não consigo construir de papel e lápis na mão.

Quanto ao processo criativo, João Lázaro é taxativo: “Apesar de, como já referi, não irmos tão longe quanto gostaríamos, somos muito pouco ortodoxos. Lamento, mas eu não consigo construir de papel e lápis na mão. O nosso processo criativo funciona sempre da mesma maneira: vamos pegando em ideias, numa notícia de jornal, um texto dramático… e fazemos um brainstorming. Toda a gente pode dizer o que lhe apetecer, por mais absurdo que seja – e convenhamos que nós somos uns coleccionadores de absurdos fantásticos – e no meio desta loucura total, surge uma palavra, um conceito ao qual nos agarramos e é a partir daí que desenvolvemos”.

E confidencia: “Só ontem, por exemplo, é que entendi qual o objectivo a que me propus com este espectáculo. Foi por um mero acaso em que reparámos que numa cena há um espelho que reflecte uma luz que conduz o personagem, e fez sentido no contexto em que estamos a trabalhar”.

A música do pianista André Barros estará presente na peça, de tal maneira que João Lázaro diz ter sido determinante para o rumo da encenação. “A música do André é extremamente inspiradora! A peça vai chamar-se O Rei dos Elfos – a partir do poema homónimo de Goethe e inspirada nas composições de André Barros”.

Texto de Pedro Miguel
Fotografia de Ricardo Graça
(Publicado a 31 Outubro 2013)